Uma das grandes preocupações da moda ética é a escolha de tecidos sustentáveis. O algodão tradicional é a fibra natural mais comum usada na moda, mas há alguns problemas sérios relacionados com ele. Seu cultivo tem uso intensivo de água como o gasto de 2.900 litros para se fabricar uma camiseta de algodão e 11.800 litros que exige uma calça jeans. Além disso, ele utiliza uma quantidade desproporcional de pesticidas em comparação com outras culturas.

A cultura do algodão representa de 3% da terra cultivada no mundo, mas consome 25% de todos os inseticidas, 11% de todos os pesticidas e 90% da oferta mundial é geneticamente modificada. Isto tem consequências para o solo, qualidade da água, biodiversidade e para a saúde humana. O cultivo do algodão orgânico é rentável e sustentável, mas ele tem rendimentos mais baixos.

A urtiga poderá se tornar um dos tecidos sustentáveis do futuro stylo urbano-1

O algodão GM, supostamente deveria reduzir a necessidade de pesticidas por ser mais resistente as pragas, mas não é o que vem acontecendo nas plantações na Índia e outros países. Existem alternativas para o algodão no entanto. O bambu cresce rapidamente e de forma sustentável, mas são utilizados produtos químicos nocivos no seu processamento.

O cânhamo industrial é uma fibra natural fantástica e costumava ser a principal fonte de fibra para se fabricar tecidos no passado. Infelizmente, ele é ilegal para ser produzido no Brasil, EUA e outros países ocidentais por causa da proibição a maconha. Isso nos leva a uma planta que a maioria das pessoas acredita ser uma praga, as urtigas. Elas crescem em todos os lugares e o processo para extrair a fibra não necessita de quaisquer produtos químicos, enzimas ou outras substâncias auxiliares.

Elas são perenes, o que significa que você pode colhê-las a cada ano. Elas produzem fibras de alta qualidade que são fortes, versáteis, e tem um bom comprimento para a fiação. A boa notícia é que o tecido de urtiga é perfeitamente seguro para vestir, e na verdade, é um tecido muito bonito, resistente e sustentável. O tecido é feito a partir das fibras dentro dos caules da planta, não as farpas sobre a superfície exterior.

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A planta de urtiga é uma alternativa útil em relação a outras fibras naturais, como cânhamo, linho e algodão e irá desempenhar um papel cada vez mais importante nos próximos 5 a 7 anos. As fibras da urtiga têm uma característica especial pelo fato de que elas são ocas, o que significa que podem acumular ar dentro criando assim um isolamento térmico natural. Também as urtigas são resistentes a doenças e pragas por isso não precisam de produtos químicos e podem resistir a mais de 40 espécies de insetos.

A ideia não é nova pois as urtigas têm sido utilizadas em alimentos, tecidos e até mesmo em medicamentos desde o século 16. A urtiga foi usada na Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial onde o país controlava 90% do comércio de algodão do mundo, isso foi uma dor de cabeça para quem não podiam mais manter comércio com o país. As urtigas foram cultivadas como uma alternativa, e depois usadas ​​para fazer uniformes para as tropas alemãs.

O fim da guerra e o desenvolvimento das fibras sintéticas, fez com que os tecidos feitos de urtiga nunca decolassem, mas a planta esquecida continua a ser uma alternativa sustentável esperando seu retorno triunfal para o mundo da moda.

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Felizmente, algumas marcas de moda preocupadas com a sustentabilidade, estão utilizando a urtiga para produzir roupas como foi o caso da famosa marca de jeans holandesa G-Star Raw. Para impulsionar o uso de materiais sustentáveis ​​a G-Star iniciou o programa Sustainable RAW em 2010. As peças deste programa foram inteiramente feitos de materiais sustentáveis ​​inovadores e consistiu de três linhas como algodão reciclado, algodão orgânico e urtiga (Nettle em inglês).

A G-Star combinou as fibras do algodão orgânico com as da urtiga para criar uma linha de denim sustentável com um impacto ambiental reduzido. Isso mostra que a urtiga tem uma enorme potencial de ser introduzida na moda misturada também com outras fibras como tencel, seda, modal entre outras.
A urtiga poderá se tornar um dos tecidos sustentáveis do futuro stylo urbano-4A urtiga poderá se tornar um dos tecidos sustentáveis do futuro stylo urbano-5A urtiga poderá se tornar um dos tecidos sustentáveis do futuro stylo urbano-6

A marca de moda sustentável feminina Brennels foi a única empresa na Holanda e no mundo que utilizava urtigas em larga escala para sua coleção de moda (a marca não existe mais). A Brennels trabalhou duro para encontrar a melhor maneira de produzir tecidos feitos de urtiga, e cultivavam um tipo específico de urtiga importada da Alemanha que foi modificada geneticamente para ter a melhor fibra. Depois de cultivadas, as plantas chegavam até uma altura de 2,5 metros.

Os caules eram cortados e deixados no campo para maceração (quebra através da exposição à chuva, orvalho e raios do sol). Depois, a palha é recolhida, pressionada em fardos e colocada em um celeiro para secar. A parte mais difícil é a de separar a fibra do caule. Isto é feito mecanicamente removendo o caule seco a partir da fibra. As fibras são então penteadas até que fiquem limpas e possam ser misturadas com o algodão orgânico e fiadas juntas num fio para depois tecer os tecidos.

Veja que interessante o vídeo do processo mecanizado de plantio e colheira da urtiga que mais tarde será fiada e tecida, extraindo as fibras das hastes. A Brennels criou todo um conceito de moda feminina sustentável utilizando principalmente a fibra da urtiga.

Para sua coleção masculina de Primavera/Verão 2015 de Etro, em Milão, o estilista italiano Kean Etro produziu casacos e camisas feitas de fibras de urtiga, banana, cereais, bambu, cânhamo e até leite. Etro resolveu investir numa linha de tecidos sustentáveis para manter a biodiversidade na agricultura.

A coleção foi inspirada pela Exposição Universal de Milão, que aconteceu em 2015, sob o tema “Alimente o Planeta. Energia para a Vida”. A utilização da fibra de urtiga na indústria da moda só está começando e esperamos que possa se tornar uma alternativa sustentável e rentável ao algodão tradicional.

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