O grafite e a moda se casam perfeitamente, pois nos primórdios da arte de rua da Nova York dos anos 80 estava a fusão de arte, juventude, cultura pop e moda. Artistas como Keith Haring e Jean Michel Basquiat transitam facilmente entre a cultura “marginal” e a cultura “das galerias”. Esse movimento foi influenciado pela moda punk na década de 1970, onde as pessoas escreviam em suas roupas. Haring colaborou com Vivienne Westwood na década de 1980 em sua coleção “bruxas”, transformando seus desenhos gráficos em estampas para as roupas de Westwood.

Em 2011, os designers britânicos Agi & Sam mostraram sua coleção outono/inverno com estampas gráficas de Jean Michel Basquiat. Então, qual é o apelo estético? O grafite tornou-se uma forma de arte admirada pelas classes médias. A arte de rua é espontânea, estilizada e auto-consciente, e isso torna natural para que os artistas de rua possam transitar de um parque de estacionamento para as passarelas. A arte de rua é acessível as pessoas comuns e fáceis de entender, ao contrário da “arte moderna elitizada e intelectualizada” das galerias de arte e museus. O grafite é “arte para as massas”.

O que antes era visto apenas como vandalismo ou uma forma de protesto, evoluiu para algo mais midiático e sofisticado e que hoje, muitos artistas de rua expõem seus trabalhos tanto em galerias de arte como em museus. Alguns artistas tem até marcas de roupas estampadas com seus desenhos.  Essa conexão entre grafite e moda é puramente estética pois a arte de rua é colorida, é cativante, é jovem, é pop, por isso faz sentido que essas ideias gráficas sejam estampadas em roupas e acessórios.

Como a arte de rua tem influenciado a indústria da moda e vice-versa stylo urbano-1

O grafite muitas vezes, é visto como uma forma de protesto, contextualizando a postura política dos jovens marginalizados de uma cidade. Essa cultura da arte de rua moderna cresceu com força devido as condições econômicas da Nova York de 1970 e 1980. Segundo o artista francês Jean Dubuffet, o grafite é uma subcultura rebelde e incompatível com a moda, e foi ele quem a nomeou como “arte bruta”.

Para Dubuffet as pichações que viu nas ruas em 1940 e 50 eram uma forma de arte crua e indomada pela sociedade. Esta crueza, no entanto, há muito tempo já foi perdida e o grafite se tornou parte da cultura pop universal inspirando estilistas, decoradores e designers. Até as grifes de luxo exploram o grafite em seus desfiles, como a Moschino em suas roupas e a Louis Vuitton em suas icônicas e caríssimas bolsas.

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No início, a estética visual do grafite foi dominada por um estilo baseado em tipo de letra. Este estilo foi desenvolvido ao longo das duas primeiras décadas numa forma de arte á mão livre que era reconhecível por sua falta de influência externa.

Pelos anos 2000, com o aumento da popularidade da arte do estêncil, a influência de uma estética visual influenciada pelo movimento pós-pop passou a dominar as cenas da arte de rua. A facilidade com que uma imagem icônica pode ser duplicada em um estêncil usando impressoras acelerou a difusão da arte de rua como um movimento de arte popular.

No entanto, a narrativa desse movimento tornou-se cada vez mais dominado por determinadas técnicas visuais, contando com o imaginário da indústria da moda para criar arte popularmente acessível, que pode ser vista por um público mais vasto e mais demograficamente homogêneo em escala global.

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Atualmente, a arte de rua faz com que o espectador fique ciente da influência esmagadora da indústria da moda no trabalho de diversos artistas. A reprodução infinita de corpos e rostos de mulheres comuns como também estrelas de cinema e ícones da música que são infinitamente repetidas, estampadas e coladas em todos os lugares. Esse foi o primeiro tipo de instagram do mundo. Como arte de rua se tornou famosa, sua popularidade fez nascer uma indústria que capitaliza sobre seu status de cultura pop.

Os desenhos dos grafites decoram tanto as roupas e acessórios como servem de pano de fundo para inúmeras produções de catálogos das mais diversas grifes de moda. Hoje, o grafite está longe de suas origens humildes como uma forma de arte ilegal, e os grafiteiros frequentemente são patrocinados por empresas que buscam um apelo mais rebelde e colorido para atrair o público jovem e fashionista. O culminar desta interação entre a indústria da moda e os artistas de rua “famosos” acontece quando licenciam sua marca, a fim de ganhar dinheiro.

O estilista indiano Manish Arora apresentou em Paris sua coleção feminina para o outono/inverno 2012 combinando as silhuetas inspiradas nos anos 1950 em cores amarelo néon, fúcsia e roxo com o enorme mural que estava sendo criado durante o desfile por 3 grafiteiros.

Mas as vezes acontece de algumas marcas de moda se utilizarem do trabalho de artistas de rua sem sua autorização. O artista de rua Joseph Tierney, conhecido como Rime, processou a grife Moschino por uso indevido de um de seus grafites na saia do vestido preto que a modelo Gigi Hadid fechou a apresentação do outono-inverno 2015/16 desenhado pelo estilista Jeremy Scott, que também está envolvido no documento judicial.

Rimie alega que o desenho foi copiado de um mural que ele criou pra uma organização de arte em Detroit, incluindo sua assinatura, e em seguida sobreposto com outros graffitis feitos pela marca. Rime não foi procurado em nenhum momento pela Moschino e se sentiu lesado também por Katty Perry estar usando o vestido com seu grafite na campanha de marketing da grife, o que afeta sua credibilidade como grafiteiro. Ele pede que a Moschino pague uma indenização.

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O estilista pop Jeremy Scott junto com a cantora pop Katty Perry usam peças grafitadas da coleção Moschino outono/inverno 2015/2016

Outro barraco fashion foi o de uma equipe de grafiteiros que está processando a Roberto Cavalli por violação de direitos autorais, concorrência desleal e falsa denominação de origem numa série de casos envolvendo apropriação indevida de arte de rua. A grife italiana sofreu acusações de que a sua marca jovem, Just Cavalli, utilizou material visual de grafiteiros que criaram um mural em grande escala num edifício em San Francisco.

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Em um processo, aberto em agosto de 2014, Jason “Revok” Williams, Victor “Reyes” Chapa e Jeffrey “Steel” Rubin alegaram que a coleção primavera/verão 2014 da Just Cavalli utilizou estampas idênticas ao seu mural. Mas eles não param por aí. Os três artistas disseram ao tribunal que Cavalli (por meio de seu licenciado nos EUA), juntamente com os retalhistas Nordstrom, Amazon e Zappos estavam comercializando uma coleção inteira de roupas, bolsas, mochilas e sapatos que foram decorados com a arte de grafite que se parece muito com a arte original criada por eles.

Os artistas disseram que a Cavalli copiou até a “assinatura” do trabalho. Graças ao uso da fotografia em alta resolução, os artistas afirmaram que a Cavalli roubou as “assinaturas estilizados do mural (literalmente, seus nomes)” e as colocou em peças de vestuário, de uma forma que e não é facilmente identificável. Uma coincidência? Talvez não. Os artistas e seus advogados sugerem que os designers gráficos da Cavalli sabiam exatamente o que estavam fazendo. Como podem ver, a arte de rua tem influenciado a indústria da moda e vice-versa.

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