Criatividade é a alma de moda. Sem ela, a indústria não existiria e precisamos de idéias originais, estética e visionárias para inspirar os consumidores. Mas como você prepara as pessoas criativas para uma carreira em uma indústria global?

A Central Saint Martins e The Royal College of Art despontam como as melhores escolas de moda no ranking global das melhores escolas da BoF, mas a pesquisa também revelou uma insatisfação generalizada entre os mais de 4.000 alunos e ex-alunos que participaram da pesquisa. Será que a educação de moda está vendendo um sonho falso?

Como as escolas de moda deveriam integrar o aprendizado sobre negócios com a educação criativa stylo urbano-1

pesquisa feita pelo BoF sobre o aprendizado nas escolas de moda, mostrou que apenas 58% dos alunos e ex-alunos estavam “satisfeitos” ou “muito satisfeitos” com a educação empresarial que receberam. E hoje, mais e mais escolas de moda, estão integrando a educação empresarial em seus currículos criativos.

No entanto, alguns líderes dos cursos e figuras da indústria da moda argumentam que é inútil ensinar a uma “mente criativa” sobre negócios e que os “negócios” limitam o foco, a criatividade e a ousadia na sala de aula.

Como as escolas de moda deveriam integrar a aprendizagem da área de negócios com uma educação criativa? Vou mostrar o depoimento de dois profissionais da indústria que tem opiniões divergentes mas é interessante ver o ponto de vista de cada um. As escolas de moda do Brasil nem aparecem na lista ou qualquer outra que eu já tenha visto pois como sabemos, educação neste país é uma piada.

As escolas de moda devem focar na criatividade

As casas de moda querem designers criativos, assim as escolas devem se concentrar no ensino criativo e os alunos podem aprender o lado do negócio mais tarde, diz Walter Van Beirendonck, estilista e chefe do departamento de moda na Academia Real de Belas Artes, de Antuérpia.

Quando um aluno vem à universidade, onde eles vão acabar profissionalmente é completamente imprevisível, por isso é difícil saber exatamente o que ensinar-lhes. Portanto, as escolas devem tentar dar aos alunos uma ampla visão de tudo o que poderia eventualmente surgir em seu caminho. No departamento de moda da Academia Real de Belas Artes, os estudantes são realmente pressionados para descobrir sua própria identidade e sua própria assinatura.

“Nós combinamos isso introduzindo-os à realidade, organizando oficinas e os colocando em contato com pessoas de negócios, de marcas e de headhunters. Mas eles definitivamente não tem uma abordagem sobre “negócio”. Isso, nós não fazemos.”

Nós nos concentramos em criatividade. Existem outras escolas que são muito melhor organizadas para ensinar sobre negócios de moda, mas esta é a direção que a nossa escola tomou desde o início. Na moda, a criatividade é uma coisa muito importante que você pode aprender e melhorar na escola. A própria identidade e assinatura dos alunos é a coisa mais importante para nós.

Quando se formarem, os estudantes devem ter uma voz. Eles devem ter um carácter forte e ambição para se destacar no concorrido cenário da moda. Eles vão aprender sobre negócios, passo a passo, através de sua formação ou trabalhando em empresas, mas se eles não são treinados de uma forma altamente criativa, não poderão realisticamente ser um designer e sim seu assistente.

Eu acho que, ao escolher a criatividade, a nossa escola é um lugar muito especial no mundo.Os alunos escolhem vir aqui para trabalhar dessa forma e eles não vêm para Antuérpia para fazer o treinamento sobre negócio. Se eles querem aprender sobre negócio, eles vão para Paris ou a Nova York para fazer um curso especializado em negócios. Quando eles vêm para Antuérpia, eles almejam ser designers, capazes de usar toda a sua criatividade para chegar ao mais alto nível.

Como as escolas de moda deveriam integrar o aprendizado sobre negócios com a educação criativa stylo urbano-4

Tenho certeza de que em todas as melhores casas de moda, a maioria das pessoas vêm de escolas criativas. E é onde a maioria dos nossos alunos acaba, como na Balenciaga, Dior, Givenchy, Gucci, Versace, etc. Eles chegam lá, principalmente por causa de sua criatividade e não por sua perspicácia empresarial.

Você não vê como a moda atual é dominada pelo marketing, e que todas as coleções estão parecendo as mesmas? Tem muito a ver com este tipo de mentalidade “business”, que é muito dominante na moda. Temos de fazer tudo o que pudermos para priorizar a criatividade na educação de moda pois é a única coisa que mantém a indústria em pé.

E é verdade, a Academia Real tem alguns ex-alunos bem sucedidos.  Martin Margiela  é um ex-aluno, juntamente com o Antwerp Six  (Ann Demeulemeester, Dries Van Noten, Dirk Van Saene,Dirk Bikkembergs, Marina Yee e ele próprio van Beirendonck),  o diretor criativo da Dior Homme Kris van Assche , Raf Simons o fotógrafo Willy Vanderperre  e o estilista Oliver Rizzo.

Eu entendo o ponto de vista do Walter Van Beirendonck mas ele está se referindo principalmente as grandes casas de moda e não as empresas varejistas de fast fashion que empregam muitos profissionais de moda. São empresas diferentes com necessidades diferentes e o foco da Academia Real de Belas Artes da Antuérpia é a “nata da moda” onde a criatividade vem em primeiro lugar.

Mas isso acaba criando uma dependência do estilista que sai formado da instituição, em arranjar emprego numa dessas casas de moda pois ele não tem embasamento algum sobre como sustentar seu próprio negócio de moda. Se o estilista quiser ser independente e trabalhar por contra própria vai ter que fazer um curso especializado em negócios para gerir sua própria marca.

Sem a visão de negócios, os designers podem não sobreviver

Os designers precisam de uma base sólida em educação empresarial. Mas nem todas as escolas estão à altura do desafio, diz Patricia Romatet, diretora de estudos de mercado e consultoria no Institut Français de la Mode.

Durante muito tempo, os designers foram deliberadamente blindados de todas as considerações comerciais, de forma a não restringir a sua criatividade. Afinal de contas, eles não podiam contar com a experiência de um parceiro sólido a partir de uma boa escola de negócios? Esses dias acabaram. Qualquer pessoa que pretenda prosperar na indústria da moda não pode mais fazê-lo sem um mínimo de habilidades, para que eles compreendam as principais apostas e tomar as decisões corretas para um negócio que, muitas vezes, leva o nome deles.

Em primeiro lugar, um designer iniciante deve traduzir seu projeto em um plano de negócios, em linha com os meios financeiros disponíveis para ele. Em seguida, o designer deve mergulhar na gestão de contabilidade. O financiamento da produção sem ter sido pago por armazenistas e é uma das belezas desta indústria, e o designer precisa entender os conceitos básicos de contabilidade, planejamento de negócios e negociação.

Temos assistido a muitas marcas chegaram ao fim devido a parcerias mal definidas. O designer deve se proteger por descobrir a divisão em partes de capital entre investidores e registo de propriedade da marca. Um designer deve conciliar seus impulsos criativos e seus recursos para criar uma coleção. Ele precisa entender a segmentação do mercado para definir posicionamento de preço e seguir as suas margens de destino.

Então, sua missão é encontrar parceiros industriais que são uma combinação perfeita para sua coleção, negociando para obter o produto, qualidade e tempo de produção corretamente. Finalmente, a distribuição pode garantir o sucesso de um projeto. Um designer deve selecionar os clientes certos para o posicionamento da marca, e negociar as condições de venda.

Então, onde jovens designers aprender essas habilidades?

No passado, especialmente em Paris, os jovens designers aprendiam numa casa de moda e trabalhavam lentamente na esperança de encontrar um mentor que iria mostrar-lhes como as coisas funcionavam. Isso mudou ao longo dos anos, à medida que mais e mais candidatos se candidatavam a cada vez menos posições.

Ao mesmo tempo, as escolas de moda têm percebido a importância da integração de competências empresariais em seu currículo. Não sejamos ingênuos embora nem todas as escolas abordam essas questões da mesma forma. Escolas de moda não são, e não devem tentar tornar-se, escolas de negócios. As habilidades criativas deve permanecer no coração do que os alunos aprendem, e as escolas devem ensinar habilidades de gestão, aplicado às especificidades da indústria da moda: cadeia de suprimentos, compras, varejo e relacionamentos com os clientes.

Uma das questões-chave, portanto, é a contratação de especialistas com profundo conhecimento da indústria da moda para serem membros do corpo docente. Isto não é de forma alguma uma tarefa fácil, e nem todas as escolas são capazes de enfrentar o desafio. Apenas algumas escolas realmente conseguem ensinar sobre negócios o suficiente nos dias de hoje. Ainda há muito a ser feito.

O ponto de vista de Patricia Romatet é realista com os dias de hoje pois a minoria dos estilistas que saem das faculdades de moda não irão trabalhar numa casa de moda famosa pois não existe vagas para todo mundo. A grande maioria vai mesmo é ser absorvida pelas marcas de fast fashion que são a maioria no mercado de moda ou vão montar suas próprias marcas e para isso precisam sim ter conhecimento sobre negócios de moda.

Mas o problema dessas grande redes varejistas ou atacadistas é que elas lidam mais com “business” do que com criatividade, por isso as coleções das grandes redes de varejo que vendem roupa barata são muito próximas umas das outras mas isso acontece também nos atacadistas. O negócio dessas empresas é vender sem correr riscos.

Essas empresas tem medo de arriscar e só investem naquilo que tem certeza de ter retorno garantido e isso limita em muito a criatividade e acaba criando uma verdadeira mesmice na moda que ultimamente vive de “revival” de estilos do passado que são reeditados “com uma cara nova” de uma temporada para a outra só mudando um pouco as cores e as estampas. Sem falar que a grande maioria dos donos das confecções onde esses estilista vão trabalhar, não tem formação em moda pois na verdade são comerciantes e só enxergam números.

Um estilista super criativo que vai parar numa empresa de moda comercial encontra uma realidade totalmente diferente da que passou na faculdade de moda. Veja esse exemplo:

Os alunos das escolas de moda mais prestigiados têm expectativas muito elevadas em termos de educação de negócios que irão receber, e, portanto, podem ser decepcionados com a realidade. Um estudante da famosa Central Saint Martins escreveu:

“Nós não temos uma única aula técnica ou curso sobre negócios em toda a nossa BA. Se você quer ter isso, dirão a você que vá para outro lugar. Eles não nos preparam para o mundo real. Não falam nada sobre negócios de moda! “. 

Assim, talvez em resposta ao feedback dos ex-alunos, algumas escolas de moda começaram a focar mais no lado comercial dos negócios.

Como as escolas de moda deveriam integrar o aprendizado sobre negócios com a educação criativa stylo urbano-17

Escolas menos conhecidas tem algumas das mais altas classificações a nível BA: Na Universidade Drexel e na Universidade da Filadélfia mais de 70% estavam “satisfeitos” ou “muito satisfeitos” com a educação de negócios. Então, o que essas escolas com pontuações mais altas de satisfação sobre a educação empresarial têm em comum?

Em primeiro lugar, todas elas têm fortes ligações com empresas de moda da vida real, através de estágios, projetos de colaboração ou por ter executivos dessas empresas dando feedback aos alunos sobre o seu trabalho. No entanto, um dos estudantes disse que essas mesmas escolas não produziram nenhum estilista aclamado, pois em vez de fomentar a criatividade dos alunos a escola preparava-os para almejar postos de trabalho razoáveis como designers em grandes corporações de moda.

De acordo com dados obtidos pela Prospects, apenas um em cada sete estudantes de design de moda na Inglaterra que se graduaram em 2014 encontraram emprego como designers, pois o restante assumiu outros cargos no varejo, marketing, vendas e administração.

Assim, quando mais de 85% dos diplomados de design de moda, finalmente encontram emprego em tempo integral, a maioria deles não irá trabalhar como estilistas pois não existe vaga para toda essa gente que sai aos montes das universidades todo os anos.

Onde está o “futuro da moda”? O futuro da moda está nas mãos dos estilista vanguardistas que preferem experimentar o novo e ousado do que ficar reeditando eternamente estilos do passado “pois é mais seguro comercialmente” segundo o pensamento dos empresários do “fashion business”. Se a moda ficar nessa de reprimir a criatividade e focar só nos negócios, não teremos mais talentos criativos e sublimes como John Galliano, Christian Lacroix, Jean Paul Gaultier, Azzedine Alaia, Thierry Mugler, Paco Rabanne, Alexander Mcqueen, Courrèges, Balenciaga, Mary Katrantzou, Iris van Herpen entre tantos outros que realmente lançam moda e criam o novo.

De toda forma as escolas tem que mudar o seu método de ensino como alertou a papisa das tendências de moda, Li Edelkoort, que disse que as escolas estão “obsoletas” e não refletem a forma como as pessoas criativas trabalham.

Então no final isso tudo depende é do estilista e o que ele quer fazer com a carreira dele. Se ele quer ser um designer com foco na criatividade e vanguardismo criando roupas caras e exclusivas para um público específico ou ser um designer mais comercial e criar coleções mais baratas que atinga um público muito mais amplo. Mas independente de que lado o designer vai escolher, ter uma noção sobre negócios é importante pois no final das contas tudo se resume a dinheiro não é mesmo? E você, o que acha?

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