A fibra de madeira está se tornando um elemento importante da produção têxtil em todo o mundo. A técnica de fabricação de tecidos de fibra de madeira não é nova, mas os recentes desenvolvimentos de novas tecnologias sustentáveis resultaram em uma espécie de ressurgimento. A demanda por tecidos está crescendo, mas o cultivo de algodão, que representa a maioria das matérias-primas têxteis, exige muito do ecossistema.

A produção de fibras de madeira e de resíduos agrícolas para tecidos tornou-se assim uma nova área de interesse para os fabricantes de celulose. A celulose é uma substância química que está em cerca de metade de todos os materiais sólidos no mundo vegetal. É abundante, renovável e uma fonte de matéria-prima quase inesgotável. A celulose é, portanto, um potencial substituto para muitos dos recursos finitos usados ​​hoje.

Vou abordar algumas inovações tecnológicas em fibras de celulose, entre elas dois tecidos sustentáveis conhecidos e desenvolvido pela empresa austríaca Lenzing: o Tencel e o Modal. Ambos utilizados por muitas marcas de moda sustentável em todo o mundo. Por outro lado, vou falar sobre os “tecidos de bambu” explicando a controvérsia em torno deste tecido e também sobre as novas fibras de celulose que estão sendo desenvolvidas.

O rayon foi a primeira fibra regenerada feita de polpa de madeira. Ele foi desenvolvido por um químico francês, George Audemars, em 1855 e outras melhorias foram feitas em cima dessa fibra em 1891/92 por químicos ingleses, que descobriram o processo de polimerização da viscose. O rayon é feito de celulose purificada, principalmente de polpa de madeira, que é quimicamente convertido a um composto solúvel.

Em seguida, é dissolvido e forçado através de uma fieira para produzir filamentos que são quimicamente solidificados, resultando em fibras sintéticas de celulose quase pura. E em 1905 começou a primeira produção comercial desta fibra, desenvolvendo dois tipos distintos de manufatura e de produtos químicos: o rayon viscose e o rayon cupramoniacal.

Conheça alguns tecidos sustentáveis feitos de fibra de madeira stylo urbano-1

Tanto o Tencel como o Modal da Lenzing são formas de rayon e a maioria dos tecidos de bambu que podem ser encontrados no mercado. Embora o rayon não seja considerado um tecido sustentável porque os produtos químicos utilizados são tóxicos e perigosos para a saúde humana, o Tencel e o Modal são devido ao uso de diferentes produtos químicos e a criação de um processo de ciclo fechado, onde 99,7% destes produtos químicos são reutilizados não indo parar no meio ambiente.

Liocel / Tencel

O Tencel é o nome comercial da fibra liocel criada pela Lenzing. Esta fibra vem da madeira (geralmente de eucalipto) cultivadas em áreas florestais não adequados para a agricultura. O eucalipto é uma espécie de crescimento fácil e rápido que não precisa de irrigação artificial, pesticidas ou fertilizantes. Ele também requer 10 a 20 vezes menos água do que o algodão, outro fator pelo qual o Tencel é mais sustentável do que o tecido de algodão como um todo.

Uma das razões pelas quais o Tencel ganhou da União Européia um prêmio pelo processo de produção mais sustentável porque 99,7% dos solventes utilizados são reciclados. Aparentemente, estes solventes não são perigosos para a saúde humana e a fibra resultante não possui substâncias tóxicas.

O tecido Tencel tem propriedades únicas quando se trata de absorção de umidade pois a liberta para fora. Isso impede a formação de bactérias que são reduzidas, especialmente em comparação com os produtos sintéticos, tais como poliamida ou poliéster. É também um material hipoalergênico, por isso começou a ser usado como vestuário médico e também em cosméticos.

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Modal

O Modal tem muitas semelhanças com o Tencel: é um tipo de rayon produzido a partir de polpa de madeira e utiliza produtos químicos que são reciclados quase inteiramente. A diferença é a madeira utilizada e seu processo de fabricação: o tecido Modal é feito de faia, um tipo de árvore que se propaga sem plantação ou irrigação. Na verdade, a maior parte da madeira utilizada vem da fábrica da Lenzing na Áustria.

Além disso, o Modal é criado com a chamada tecnologia Edelweiss, um processo de produção “simbiótico”, onde a polpa da faia se produz no mesmo local que a própria fibra Modal, empregando um processo químico baseado em oxigênio. Este tratamento com impacto suave é o que torna possível que o local de produção do Modal esteja localizado no meio de uma área turística. Além disso, a madeira restante não utilizada para a produção de polpa é utilizado em centrais térmicas para gerar calor e energia para a produção na fábrica da Lenzing.

O tecido em si é extremamente macio e leve, devido à baixa rigidez do tecido e a seção transversal. Nesta base, há vários tecidos como: Lenzing Modal, MicroModal e MicroModal Air. Outra característica importante é que os fios de Modal podem ser misturados com outras fibras usando maquinaria convencional, e pode ser mercerizado.

O Grupo Lenzing também desenvolveu um tecido chamado ProModal, uma mistura de Tencel e Modal que resulta numa fibra que satisfaça a maciez surpreendente do Modal e funcionalidade do Tencel. Além disso o Grupo Lenzing lançou uma nova fibra feita de resíduos de tecido de algodão velho oriundo de roupas descartadas misturados com Tencel, chamada Refibra. Você pode aprender mais sobre o processo neste vídeo:

Tecidos de bambu

O bambu é uma planta de rápido crescimento que não requer fertilizantes e auto-regenera suas raízes. Isso não significa, no entanto, que todas as plantações de bambu são sustentáveis, pois como a maioria do bambu cresce na China e nem sempre se têm todos os detalhes de como ele é cultivar ou colhido. Transparência não é o forte da China. Em qualquer caso, em comparação com a agricultura de algodão, o bambu parece ser uma opção muito mais sustentável pois não precisa de mais água do que a floresta tropical.

Os tecidos de bambu são controversos não devido à planta, mas por causa do método em que são fabricados. Existem duas opções: mecânicos ou químicos. As fibras do bambu são muito fortes e o processo mecânico de pentear as fibras requer muita mão de obra e, embora possa ter um impacto social positivo nas comunidades locais, também pode ser caro. O resultado é um tipo de tecido semelhante aos feitos de linho e cânhamo. Essa é a razão pela qual esse tipo de tecido de bambu não é comum no mercado.

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A maioria dos tecidos de bambu são criados quimicamente, que é normalmente feito usando o mesmo processo altamente intensivo e poluente utilizado para a produção de rayon/viscose. Esta é a razão porque as roupa de bambu criaram controvérsia por volta de 2010 : muitas marcas disseram que suas roupas eram “100% de bambu” em vez de usar a terminologia correta, sendo na verdade “rayon de bambu” ou “rayon feito de bambu”.

Além do impacto ambiental envolvido, não há nenhuma evidência de que o tecido resultante permanece com qualquer das qualidades naturais da fibra de bambu, tais como as suas propriedades antibacterianas ou resistência aos raios UV. A boa notícia é que as marcas estão começando a trabalhar na aplicação de tecnologia para fabricar liocel de bambu.

Um dos mais avançadas na produção é Monocel, uma empresa norueguesa que selecionou as melhores espécies de bambu para produção de tecidos e controla como eles são cultivados e colhidos. O resultado é uma fio suave, forte e agradável com uma bela paleta de cores pastel. As cores são obtidas através de tingimento ultra-sônico com corantes naturais que utilizam pouca água, energia e emissões através de temperaturas mais baixas e tempos de tingimento mais curtos.

Os corantes são baseados em raízes, frutas e flores medicinais asiáticas tradicionais. Para completar a qualidade, as fibras tingidas de plantas são misturadas com fibras não branqueadas e não amarradas, resultando em fios que estão em uma liga própria em termos de métricas ecológicas. Os fios vêm em Monocel puro ou misturados com algodão orgânico certificado GOTS. Os fios brancos branqueados utilizam o processo mais ambiental de peróxido de hidrogênio (H2O2). Em comparação com o cloro convencional, é um processo mais suave que resulta em um fio branco mais forte e vibrante.

Uma nova revolução na moda está a caminho

A startup finlandesa Spinnova está desenvolvendo uma nova tecnologia para fios de fibra de celulose desenvolvida originalmente pelo Centro de Pesquisa Técnica da Finlândia VTT, que se diferencia muito dos velhos métodos de fabricação de fios. O processo revolucionário da Spinnova não requer produtos químicos, água ou alta quantidade de energia de modo que o impacto ambiental será muito menor do que para os processos de fibras de poliéster, algodão, viscose, rayon e modal.

A ideia é produzir o fio diretamente das árvores, como abetos e pinheiros, uma vez que elas tem uma estrutura de fibra longa. O método de fabricação consome menos 99%  de água e 80% menos energia do que o algodão. Com base nesta tecnologia, a quantidade de madeira utilizada anualmente só na Finlândia seria suficiente para substituir a produção mundial de algodão. Lembrando que o Brasil tem o maior número de florestas plantadas do mundo que são utilizadas principalmente para produção de madeira e papel certificados.

A Fibria, empresa brasileira de base florestal e líder mundial na produção de celulose de eucalipto a partir de florestas plantadas,  pagou 5 milhões de euros por 18% do capital da Spinnova, estabelecendo uma parceria para desenvolvimento, produção e comercialização de materiais baseados em suas tecnologias. Saiba mais aqui.

Líquido iônico : Nova tecnologia para fabricar tecidos sustentáveis de alta qualidade

Pesquisadores do Centro de Pesquisa Técnica VTT e da Universidade Aalto na Finlândia, desde 2013 vem desenvolvendo um novo processo para transformar a celulose em uma fibra têxtil de alta qualidade utilizando líquido iônico. Além de ser mais ecológico do que o processo utilizado na produção de viscose tradicional, a fibra têxtil produzida com a ajuda de solventes iônicos é bem mais forte do que a viscose. A tecnologia se chama Ioncell e vai competir com o Tencel.

A empresa finlandesa Metsä Fibre está investindo no conceito de bioprodutos, onde todos os fluxos secundários de produção de celulose são utilizados em novos produtos e serviços, tais como biogás, materiais biocompósitos e fibras têxteis. A empresa construiu uma nova fábrica para produzir o fio Ioncell em parceria com a empresa japonesa Itochu Corporation, que tem uma rede de comércio global de fibras e fios, com escritórios em todos os principais mercados têxteis, e assim distribuir em larga escala a nova fibra têxtil de celulose.

O interessante do Ioncell é que ele pode ser produzido misturando a polpa de madeira juntamente a polpa de papeis velhos e tecidos de algodão descartados. Os pesquisadores estão buscando novas tecnologias para fios de celulose e veremos muitas novidades nos próximos anos.

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