O que a arte do crochê tem a ver com a matemática avançada e biologia marinha? Tudo, segundo o Crochet Coral Reef, um projeto criado por Margaret Wertheim e Christine Wertheim do Institute For Figuring , uma organização sem fins lucrativos baseada em Los Angeles, pioneira em novos métodos criativos para envolver o público em questões científicas e matemática, biologia marinha, artesanato, arte comunitária e também responder à crise ambiental e ao problema do lixo plástico oceânico.

As belas e coloridas instalações do Crochet Coral Reef foram exibidas em museus de arte e ciência em todo o mundo, incluindo o Museu Andy Warhol (Pittsburgh), a Hayward Gallery (Londres), a Science Gallery (Dublin) e o Museu Nacional de História Natural do Smithsonian. Visto por mais de três milhões de pessoas, o Crochet Coral Reef é agora um dos maiores empreendimentos participativos de ciência e arte do mundo.

A forma do universo na natureza

Construímos um mundo de linhas retas nas casas em que vivemos, nos arranha-céus em que trabalhamos e na grande maioria dos projetos de arquitetura e design que idealizamos. No entanto, fora de nossas caixas, a maior designer de todas, a natureza, cria formas complexas, fluidas, caneladas, ondulantes e orgânicas que preenchem toda vida marinha tendo como maiores exemplos os fungos e os corais.

Esses organismos são manifestações biológicas do que chamamos geometria hiperbólica, uma alternativa à geometria euclidiana que aprendemos na escola e que envolve linhas, formas e ângulos em uma superfície plana ou plano. Na geometria hiperbólica o plano não é necessariamente tão plano. No entanto, enquanto a natureza tem desenvolvido formas hiperbólicas por bilhões de anos, os matemáticos passaram centenas de anos tentando provar que tais estruturas eram “impossíveis”. Isso durou até a matemática Daina Taimina usar suas agulhas e fios de lã para crochetar um coral.

Conheça o maior projeto de arte comunitária do mundo que une matemática, biologia marinha e crochê stylo urbano-1

Criaturas que nunca estudaram geometria euclidiana tinham feito isso. Junto com os corais, muitas outras espécies de organismos recifais têm formas hiperbólicas, incluindo esponjas, lesmas marinhas e águas vivas.

Onde quer que haja uma vantagem em maximizar a área superficial, as formas hiperbólicas são uma excelente solução. Existem estruturas hiperbólicas nas células, cactos hiperbólicos e flores hiperbólicas, como lírios. No filme Avatar, há um bosque luminoso fabuloso de flores hiperbólicas gigantes que enrolam quando tocadas.

Superfícies hiperbólicas também podem ser construídas na escala molecular de átomos de carbono. Essas nano-espumas de carbono foram descobertas em 1997 pelo físico Andrei Rode e seus colegas da Universidade Nacional Australiana. Naquele ano, a matemática de Cornell, Daina Taimina, também criou uma forma de modelar essas superfícies usando o crochê, porque na verdade era muito difícil para os seres humanos construírem essas formas, antes da invenção das impressoras 3D é claro.

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Daina Taimina – A matemática que descobriu que o modelo físico de um plano hiperbólico (que se pensava ser impossível) poderia ser feito com crochê.

Sobre o projeto

O Crochet Coral Reef é uma “celebração têxtil” da interseção entre a mais alta geometria com o artesanato feminino, e um testemunho das maravilhas do mundo marinhos que estão em perigo por causa do aumento da temperatura das águas. Uma das maravilhas do mundo natural, a Grande Barreira de Corais que se estende ao longo da costa de Queensland na Austrália, em uma profusão desenfreada de cores e formas inigualáveis em nosso planeta. Mas o aquecimento global e os poluentes plásticos estão ameaçando a frágil barreira de corais.

Como uma homenagem a impressionante beleza dos corais, as irmãs Margaret e Christine Wertheim do Institute For Figuring criaram um enorme projeto internacional de crochê para fazer um recife de corais com fios de lã. As irmãs, que cresceram no estado de Queensland, começaram o projeto em 2005 em sua sala de estar em Los Angeles, e durante os primeiros quatro anos de sua vida o projeto se expandiu gradualmente até tomar todos os cômodos de sua casa.

Ao mesmo tempo, o projeto começou a se expandir para outras cidades e países até que se tornou um movimento mundial que envolve comunidades de todo o mundo de Chicago, Nova York e Londres, a Melbourne, Dublin e Capetown. O Crochet Reef é uma fusão única de arte, ciência, matemática, artesanato e prática comunitária que pode muito bem ser o maior projeto de arte comunitária no mundo.

A inspiração para fazer as formas do recife de crochê começa com a técnica do “crochê hiperbólico” descoberto em 1997 pela matemática da Universidade Cornell, Dr. Daina Taimina. As irmãs Wertheim adotaram as técnicas da Dr. Taimina e elaboraram elas para desenvolver todas as formas de vida que existe num recife.

O processo básico para fazer essas formas é um padrão simples ou algoritmo, que por si só produz uma forma matematicamente pura, mas mudando esse algoritmo, pode-se produzir variações infinitas de formas. O projeto do recife de crochê se transformou numa experiência evolutiva em que a comunidade mundial de “crocheteiros de corais” trabalha unida para criar uma “árvore da vida marinha” de crochê.

Como um todo, o Crochet Reef tem crescido muito além de sua encarnação original na casa das imãs Wertheim de modo que hoje é composto de muitos “sub-recifes diferentes”, cada um com suas próprias cores e estilo criando instalações com milhares de peças individuais de crochê feitas por dezenas de contribuidores em torno do mundo. Além desses delicados recifes de lã há também um recife “tóxico” feito com fios de sacolas plásticas, como uma crítica ao problema crescente do lixo de plástico que está inundando nossos oceanos e sufocando a vida marinha.

Fonte: Crochet Coral Reef

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Margaret Wetheim lidera um projeto de recriar criaturas de recifes de corais usando uma técnica de crochê inventada por um matemático, celebrando a beleza e engenhosidade dos recifes, e um profundo mergulho na ciência da geometria hiperbólica que permeia a criação dos corais. A natureza é a maior designer que existe e é por isso que a humanidade passa toda sua existência copiando-a.

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