Atualmente estamos reciclando metal, plástico e papel, então por que não fazemos o mesmo com o CO2 (dióxido de carbono) transformando-o em algo útil? Essa é a pergunta que a NRG Energy fez ao público na Semana de Moda de Nova York, onde a empresa organizou um painel que incluiu Nina Garcia, diretora de criação da Marie Claire; Paul Bunje, diretor da XPRIZE; Marcel Botha, CEO da 10xBeta; Burak Cakmak, professor de moda na Parsons The New School for Design e a modelo e estilista Coco Rocha.

O vice-presidente da NRG Energy, Gin Kinney, revelou um protótipo de tênis que incorpora dióxido de carbono capturado na espuma de sua sola. “O “sapato sem uma pegada” é um símbolo do compromisso da NRG Energy para a redução e reaproveitamento das emissões de carbono”, disse Gin Kinney.

O calçado sustentável do futuro

Projetado pelo designer Dwayne Edwards, o sapato é o tipo de inovação que a NRG Energy espera ver a partir do NRG Cosia Carbon XPrize, uma competição internacional que premiará com US $ 20 milhões as tecnologias disruptivas que aproveitem de forma criativa as emissões de carbono que são expelidas pelas chaminés das usinas a carvão e gás.

“Se nós podemos capturar o dióxido de carbono e transformá-lo num sapato, poderemos também transformá-lo em plásticos e tecidos”, disse Paul Bunje, diretor da XPRIZE. Atualmente somente a sola e a espuma são feitos de CO2 mas o próximo passo é criar um tênis 100% feito de CO2.

Veja o vídeo de apresentação.

O tecido sustentável do futuro

A tecnologia que possibilita capturar dióxido de carbono e transformá-lo em combustíveis, plásticos e espumas também possibilitará criar polímero para fibras de poliéster sem nenhuma pegada ambiental, feita inteiramente de CO2. Isto é, um tecido criado sem uso de terra e água para fazer crescer a fibra, não causa poluição na sua fabricação e poderá ser tingido numa máquina de tingimento têxtil revolucionária que usa dióxido de carbono em vez de água. Fantástico!

Será o tecido sustentável mais avançado já criado para ser utilizado em roupas, calçados e bolsas. Ele não será biodegradável mas totalmente reciclável. Além da NRG Energy, a empresa americana Newlight Technologies desenvolveu uma tecnologia para capturar CO2 e transformá-lo polímero plástico chamado AirCarbon. Este novo material pode ser usado para os mesmos fins que o plástico à base de petróleo mas com a vantagem de ser mais rápido e barato de produzir.

A pesquisa sobre a captura de carbono foi inspirada pela capacidade da natureza para transformar o dióxido de carbono em energia pelas plantas e recifes. Enquanto a NRG Energy captura as emissões de CO2 que são expelidas pelas chaminés das usinas a carvão e gás, a Newlight captura as emissões de CO2 ou metano retirados de fazendas de gado, aterros sanitários comum ou de tratamento de águas residuais e plantas digestores anaeróbios.

A Newlight atualmente está vendendo seu polímero AirCarbon para fabricar plásticos recicláveis mas o próximo passo da empresa é lançar uma linha de fios de poliéster feito de CO2. Quer ter um vislumbre de como serão as malhas e tecidos de poliéster sem pegada ambiental? Veja a coleção de Alta Costura da estilista alemã Monique Collignon feita 70% com tecidos de poliéster reciclados.

Em 2020, nossas roupas e acessórios serão feitos completamente de dióxido de carbono stylo urbano stylo urbano-1

O tingimento sustentável do futuro

A indústria têxtil é uma das que mais utilizam e poluem fontes de água, consumindo uma quantidade do tamanho do mar mediterrâneo a cada dois anos. Os países asiáticos que produzem 80% da produção têxtil do mundo estão com seus rios contaminados com produtos químicos altamente perigosos oriundos principalmente do tingimento têxtil e dos cortumes de couro das fábricas que produzem para grandes redes de fast fashion. Veja mais no documentário River Blue.

Para acabar com o drama da poluição dos rios na China, Índia, Bangladesh, Camboja entre outros, novas tecnologias de tingimento foram desenvolvidas. Uma delas é o DryDye, um inovador processo de tingimento sem água que utiliza CO2 comprimido para tingir tecidos, desenvolvido pelo Yeh Group da Tailândia, uma empresa especializada em tecidos e vestuário para moda esportiva e moda íntima. Em 2012, a Adidas fabricou as primeiras camisetas pelo processo DryDye.

Todos nós estamos familiarizados com a histeria midiática de que o dióxido de carbono produzido pela industrialização humana é o responsável pelo apocalíptico “aquecimento global”. Será mesmo? Veja mais aqui e aqui. No entanto, o que muitas vezes é desconhecido sobre o CO2 é a sua capacidade para criar processos de produção mais sustentáveis e eficientes. O dióxido de carbono na verdade é o “gás da vida” pois é ele que as plantas utilizam para fazer fotossíntese e produzir oxigênio. Na verdade o CO2 é o responsável pleo crescimento das plantas. Agora o “gás da vida” ajudará a criar novos produtos para a moda circular.

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O DryDye utiliza uma forma de dióxido de carbono pressurizado no lugar da água. Quando o CO2 é aquecido acima de 31ºC e pressurizado acima de 74 bar, torna-se supercrítico, um estado da matéria onde ele pode ser visto como um líquido expandido, ou um gás altamente comprimido. O fluido supercrítico tem alta densidade, o que possibilita a dissolução de compostos. Os corantes, em seguida, podem penetrar nas fibras e se espalharem por todo tecido sem a necessidade de agentes químicos adicionais.

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A Yeh Grupo não é a única empresa que está desenvolvendo este processo, que eles afirmam ser “um avanço real e significativo para a indústria de tingimento têxtil”. Já pensou, um tecido de poliéster feito de CO2 tingido com CO2 pressurizado sem água, sem causar poluição e utilizando menos energia e corantes químicos no processo? Esse é um dos exemplos máximos do capitalismo sustentável do século XXI onde a economia circular substituiu a poluente economia linear do capitalismo predatório predominante nos séculos XIX e XX. Esse é o futuro da indústria da moda circular.

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O vídeo a seguir explica como funciona a tecnologia DryDye.

A DyeCoo da mesma forma que a DryDye utiliza o CO2 comprimido para tingir tecidos. A tecnologia levou 11 anos para se desenvolver pela empresa holandesa FeyeCon. A técnica utiliza dióxido de carbono supercrítico (SCCO2). Quando o dióxido de carbono é aquecido acima da sua temperatura crítica e pressão crítica, ele assume as propriedades de um fluido, que em seguida, penetra nas fibras têxteis e dispersa os corantes pré-carregados sem agentes químicos extras. O processo de tingimento do DyeCoo funciona da mesma forma que o DryDye. Veja o vídeo aqui.

A Nike utiliza o tingimento da Dyecoo desde 2012 em suas linhas de camisetas esportivas. Em comparação com o tingimento à base de água, o tingimento têxtil com dióxido de carbono não utiliza produtos químicos (eliminando a lixiviação química tóxica nos cursos de água e no solo), não requer tempo de secagem e é duas vezes mais rápido, portanto, exigindo muito menos energia. Embora a tecnologia está sendo utilizada atualmente para tingir poliéster, o desenvolvimento de corantes de CO2 para fibras naturais e outros têxteis petroquímicos está em curso.

Mas existe outra inovação tecnológica para tingir o poliéster. Conhecido como Imbu (ex-Airdye), esta tecnologia utiliza ar para tingir tecidos de poliéster, o que diminui o consumo de água em 95% e elimina o uso de produtos químicos tóxicos nos banhos de tingimento. Além de reduzir a poluição da água, a tecnologia é capaz de penetrar no tecido e, subsequentemente, tingir os filamentos dentro do tecido diferente da prática tradicional de tingimento sobre a superfície dos tecidos.

Veja os benefícios da tecnologia de CO2 pressurizado:

  • Redução do uso de produtos químicos e menos desperdício – sem águas residuais contaminadas
  • Produto final puro sem solventes residuais
  • Os custos de processamento são reduzidos – rápido, menos energia, CO2 é barato e reciclável
  • Condições brandas de processo – baixas temperaturas, sem oxigênio, sem produtos químicos
  • Versátil e ajustável – aplicável em muitas indústrias diferentes
  • Seguro, não-tóxico, incolor, inodoro, não inflamável

Até 90% do CO2 libertado e recapturado pode ser reciclado pois todo tingimento é feito na mesma máquina. O conceito de tingimento sem água tem sido feito nas últimas três décadas, mas apenas nos últimos seis anos foi possível desenvolver máquinas escaláveis para uso industrial em larga escala. Espera-se que a tecnologia seja amplamente adotada na Ásia, onde a poluição dos rios pelas tinturarias têxteis ocorre em larga escala.

A lavanderia sustentável do futuro

O maravilhoso “gás da vida” não serve apenas para a fotossíntese das plantas mas também para criar novos combustíveis, plásticos, espumas, poliéster e na forma pressurizada, no tingimento de tecidos sem água. Mas existe uma outra utilidade para o CO2.

A solução CO2 Nexus da empresa Tersus, é uma tecnologia de limpeza livre de secador e livre de água pois utiliza dióxido de carbono líquido reciclado para limpar e higienizar roupas, fazendo com que tenham uma vida útil mais longa sem o desbotamento que ocorre com a água. Como pode ver, a indústria da moda só tem a ganhar com as tecnologias de captura de CO2, possibilitando criar tecidos de poliéster sustentáveis tingidos de forma sustentável e lavado de forma sustentável sem a utilização de água e produtos químicos perigosos. Bem vindo ao futuro da moda circular.

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