O conceito de ciclo fechado, onde um tecido é recolhido e transformado às suas fibras originais para ser reutilizado, continua a ser o maior desafio técnico para a indústria de vestuário e têxtil. No entanto, várias empresas estão trabalhando para criar uma indústria da moda circular pois a produção mundial de fibras está em 78 milhões de toneladas anuais, um aumento de cinco vezes em comparação há dez anos atrás.

As principais fibras que são produzidas hoje são algodão, poliéster e lã. Destas, as fibras sintéticas representam 45 milhões de toneladas, dos quais 80% são de poliéster. Isso gera toneladas de resíduos para reciclar depois que as roupas e acessórios são utilizados e descartados. Mas a fibra reciclada mecanicamente de roupas pós-consumo está sendo usada em uma série de iniciativas de pequena escala como é o caso do Infinity, um poliéster 100% reciclável utilizado pela empresa holandesa Dutch Awearness especializada em uniformes profissionais.

O Infinity é produzido através da coleta das roupas de poliéster usadas que são depois trituradas e derretidas antes de serem transformadas novamente em fios de poliéster reciclado. O diferencial do Infinity é que ele é 100% rastreável pois todo seu processo de fabricação, vida útil e descarte possuí código de barras únicos, que são conectadas a um sistema online que monitora todo processo. Esse é um dos exemplos da “Internet das roupas” onde a inovação tecnológica impulsiona a sustentabilidade da moda circular. O lema da Dutch Awearness é zero resíduos e desperdício.

Empresa holandesa Dutch Awearness produz uniformes profissionais 100% recicláveis stylo urbano

“Com a reciclagem mecânica atual, podemos reutilizar as fibras Infinity oito vezes antes de termos de adicionar material virgem”, diz Iris van Wanrooij, porta-voz da Dutch Awearness. “Nesse ponto, as fibras ficam muito curtas, mas reutilizá-las oito vezes traz uma enorme economia nos custos de produção e de energia.” Uma das marcas da Awearness é a Wearever que produz uniformes corporativos  feitos do tecido de poliéster Infinito que mantém o mesmo toque e a sensação da lã. A principal diferença com materiais convencionais é que é Infinito 100% reutilizável.

Ao incorporar as roupas em uma cadeia circular, pode-se eliminar completamente a produção de resíduos e desperdício. Além disso, durante seu processo de produção a utilização de água é reduzida em 50% e a emissão de CO² é reduzido em 20% em comparação a produção de algodão. A Awearness está trabalhando com outra empresa holandesa, a Ioniqa Technologies, que desenvolveu um novo processo de reciclagem química que deve ampliar dramaticamente a vida útil do circuito fechado.

A Ioniqa trabalha com magnetismo para adicionar um fluido à mistura de fibras, separando o poliéster do não-poliéster. Isso permite reciclar infinitamente o poliéster sem perder qualidade. Por enquanto, a tecnologia permanece no laboratório, mas a médio prazo, com novos investimentos, será possível produzi-la em grande escala e revolucionar completamente a indústria da moda.

No Brasil não temos nada parecido com o processo de reciclagem da Dutch Awearness mas existem empresas que trabalham com upcycling de uniformes profissionais como é o caso do Projeto Reforme, implantado recentemente pela Gocil Segurança e Serviços em parceria com ONGs e cooperativas do ABC Paulista. O programa Reforme da Gocil promove a economia circular a partir da reciclagem de uniformes e gera trabalho para a população carente onde 24 toneladas de resíduos têxteis deixaram de ser incinerados anualmente e passaram a ser reciclados e transformados em produtos.

Depois dos uniformes usados terem sido recolhidos e limpos pela Gocil, cada ONG e cooperativa fica responsável por uma etapa de transformação dos tecidos antigos em novos. Nas mãos de artesãos, os sapatos, cintos, botões, bonés, coletes balísticos e todos os outros itens se transformam em bolsas, carteiras, roupas para pets e estofo de edredom, assim como demais acessórios. Após reformados, os materiais são doados para instituições que cuidam de pessoas carentes e vendidos em feiras e bazares, entre outros.

O Reforme conta com 17 funcionárias para fabricar os produtos de upcycling e também beneficia 125 jovens, entre 15 e 17 anos, da Casa Lions de Adolescentes de Santo André (CLASA) e participam da oficina têxtil. Estes recebem uma parcela dos uniformes e customizam as peças, com o apoio e supervisão de costureiras e grafiteiros, entre outros profissionais. Eles são estimulados quanto ao empreendedorismo, gestão financeira e reutilização de materiais, além de sustentabilidade e conscientização ambiental.

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