A China começou seu processo de se tornar a maior “fábrica barata do mundo” quando Deng Xiaoping iniciou em 1976 o processo de abertura econômica do país criando as Zonas Econômicas Especiais ZEE’s, instaladas em cidades litorâneas para exportação. Desde essa época, os Estados Unidos começou seu processo de desindustrialização com suas fábricas fechando as portas pois era muito mais barato produzir ou importar produtos da China do que fabricar nos EUA.

Esse processo causou uma grande dependência americana dos produtos “Made in China” e um déficit comercial bilionário. Esse post visa mostrar como os EUA está se preparando para reinventar sua indústria têxtil através da alta tecnologia e com isso acabar com sua dependência das importações têxteis da Ásia. A indústria têxtil americana diminuiu drasticamente e a fabricação de roupas quase desapareceu, sendo que hoje os EUA importam cerca de 97% das roupas vendidas no país, que são fabricadas na China e outros países asiáticos.

Mas o governo americano quer reverter essa situação desde que o novo presidente Donald Trump prometeu re-industrializar o país, e isso será feito através dos tecidos inteligentes e Indústria 4.0. Um novo consórcio público-privado nacional foi criado para revolucionar a indústria têxtil americana através da comercialização de fibras e tecidos avançados e altamente funcionais para os mercados de defesa e comerciais.

O renascimento da indústria têxtil americana vai impulsionar a

nova era dos tecidos conectados e inteligentes

A parceria denominada Advanced Functional Fabrics of America (Tecidos Funcionais Avançados da América) ou AFFOA, foi idealizada pelo Departamento de Defesa Americano  em um ambicioso projeto de US $ 320 milhões para empurrar a indústria têxtil americana para a era digital. A parceria da AFFOA se baseia nos recentes avanços em materiais de fibras e processos de fabricação que em breve permitirá projetar e fabricar uma nova geração de tecidos avançados que veem, ouvem, sentem, comunicam, armazenam e convertem a energia, regulam a temperatura, monitoram a saúde e mudam de cor.

O anúncio do consórcio seguiu um processo de licitação nacional altamente competitivo para um instituto de fabricação nacional, que faz parte da rede Manufacturing EUA anunciado pelo governo federal em 2012 para promover a liderança em fabricação avançada e criação de trabalho nos EUA, com um forte compromisso de promover o desenvolvimento econômico no século XXI. Leia aqui a transcrição do discurso do Secretário de Defesa Ash Carter sobre a nova fase da indústria têxtil americana focada na alta tecnologia. Os EUA pretendem não só revitalizar o “Made in USA” mas dar uma rasteira na China e se tornar o maior fabricante de tecidos inteligentes do mundo.

Os membros do consórcio incluem empresas relacionadas na Fortune 500 tais como : Corning, General Eletric, IBM, DuPont, Nike e Intel, bem como pequenas e médias empresas, abrangendo os de eletrônicos, materiais, vestuário, transporte, moda, defesa e setores manufatureiros médicos e de consumo. Ele também inclui líderes da indústria de tecidos como a Inman Mills e universidades líderes em pesquisa como o MIT, e as Universidades de Cornell, Massachusetts Lowell, Drexel, Michigan, California, Davis e Texas.

A missão da AFFOA é transformar as fibras, fios e tecidos de fabricação tradicionais em um sistema funcional altamente sofisticado que vai garantir que os EUA permaneçam na vanguarda da ciência das fibras e assim poder investir em áreas tecnológicas fundamentais que podem incentivar o investimento e a produção nos EUA. Os mercados para os tecidos tecnológicos variam de vestuário, cuidados de saúde e produtos de consumo para a defesa, transporte, software e tecidos arquitetônicos e estruturais. Além de revolucionar a indústria têxtil, a AFFOA pretende reverter a tendência de queda no emprego na industrial têxtil.

A iniciativa espera criar milhares de novos empregos nos próximos 10 anos através de uma ampla gama de indústrias norte-americanas e setores ao longo de toda a cadeia de abastecimento. A AFFOA abrange 28 estados além de Porto Rico, compreende 16 parceiros da indústria, 31 organizações acadêmicas e sem fins lucrativos, 26 incubadoras de startups e 72 membros de uma “rede de inovação em tecidos” em prototipagem de novas fibras e instalações de fabricação de tecidos. O consórcio será sediado no Fabric Discovery Center, perto do Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT, o maior parceiro acadêmico da iniciativa.

A ideia é que as empresas têxteis americanas sejam tão inovadoras como a suíça Schoeller, que é uma das precursoras em tendências e tecnologias têxteis, ganhando diversos prêmios internacionais ao longo de sua história. A empresa protege suas criações com patentes ou licenças para parceiros selecionados ao redor do globo. A Schoeller aposta na qualidade e inovação em vez da quantidade para se manter competitiva e uma referência internacional.

Os EUA serão a nova “fábrica do mundo” da moda inteligente

O projeto de tecidos avançado da AFFOA representa uma nova fronteira não só para Internet das coisas mas também para a Internet das roupas, colocando sensores e computação em todos os tipos de objetos físicos desde nossas casas, geradores de energia, automóveis, aparelhos eletrônicos, wearables e nossas roupas para medir e monitorar tudo. A rede Manufacturing EUA pretende criar uma rede nacional de pesquisa e desenvolvimento, design e capacidades de fabricação para os novos tecidos.

Os produtos deste campo emergente estão sendo chamados de “tecidos funcionais”, “tecidos conectados”, “dispositivos têxteis” e “roupas inteligentes.” O campo exige contribuições de muitas disciplinas, incluindo ciências dos materiais, engenharia elétrica, desenvolvimento de software, interação humano-computador, fabricação avançada e design de moda. Roupas com sensores e chips implantados de forma discreta poderiam dar um novo significado para a tecnologia vestível, tida como o futuro da indústria eletrônica.

O Departamento de Defesa está investindo no desenvolvimento de novos uniformes de combate que possam se comunicar e mudar de cor, sinalização de “amigo ou inimigo” para ajudar a prevenir mortes por fogo amigo ou uniformes cheios de sensores ópticos para tornar um soldado americano invisível para os óculos de visão noturna de um inimigo. Algumas das pesquisas pioneiras tem sido feitas no MIT, que está liderando o projeto. Estudos avançados, na fase pré-competitiva, serão publicados e compartilhados.

O projeto também prevê a criação de duas dezenas de incubadoras de startups espalhadas pelos EUA, onde as ideias geradas pelas startups nas incubadoras, poderão ser rapidamente convertidas em produtos comerciais, que seriam produzidos pelas fábricas têxteis americanas. Novas empresas têxteis serão criadas e dedicadas exclusivamente aos tecidos tecnológicos para roupas casuais, esportivas, hospitalares, militares, de trabalho e também para arquitetura têxtil, decoração, engenharia aeroepacial e revestimentos automobilísticos.

Mudando a percepção do público sobre a moda

Muitas vezes, a percepção que as pessoas tem da indústria da moda é que é uma entidade frívola, baseada em ideais tolas sobre o que devemos vestir e como devemos nos parecer. Essa visão frívola sobre a moda é alimentada principalmente pelos próprios profissionais da área, como estilistas, editores e produtores de revistas de moda. É preciso dissipar o mito de que é um mundo superficial, fútil e vazio, e em vez disso provar o quão inteligentes e úteis nossas roupas realmente serão na era digital e conectada. A inovação tecnológica dentro da moda será essencial para a sustentabilidade do nosso planeta.

O governo americano criou um ambicioso programa de inovação tecnológica para reinventar sua indústria têxtil em parceria com empresas privadas e universidades da mesma forma que estão fazendo alguns países europeus e asiáticos. E o Brasil está fazendo o quê para enfrentar essa concorrência?

Fonte : New York Times

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