O sistema de ensino está “obsoleto” e não reflete a forma como as pessoas criativas trabalham, disse a papisa das tendências de moda Li Edelkoort, que está introduzindo um novo departamento de “Hybrid Design Studies” na Parsons School of Design, em Nova York. Edelkoort foi nomeada reitora do novo departamento de estudos de design híbridos na escola, que irá incentivar a colaboração inter-disciplinar.

“Nosso objetivo é misturar várias disciplinas, e não apenas de moda e design, mas também de arte performática, artes visuais, música, cinema, jornalismo, arquitetura e ciências sociais”, disse Edelkoort a revista digital Dezeen.

Depois de causar polêmica no mundo da moda dizendo que o fast fashion “está obsoleto” chegando a escrever um manifesto “anti-fashion”, Li Edelkoort acrescentou que o atual sistema de educação, onde as pessoas criativas aprendem apenas sobre uma disciplina, “está obsoleto também” . Li disse o seguinte:

Muitas vezes os estudantes acabam fazendo muitas outras coisas na vida“, e arrematou dizendo: “Eu acredito que as escolas não estão ajudando as pessoas a desenvolverem um estudo profissional em grande escala, e seria interessante se as escolas desenvolvessem o que está enterrado dentro dos estudantes.”

Li Edelkoort diz que as escolas estão "obsoletas" e não refletem a forma como as pessoas criativas trabalham

Com mais tempo de vida as pessoas terão várias vocações, aprendendo diferentes disciplinas“, acrescentou Edelkoort, que no início deste ano declarou “o fim da moda como a conhecemos“. Edelkoort irá supervisionar o novo curso em design híbrido na Parsons, e ela espera que se o curso se tornar popular, ele poderia se tornar uma faculdade para que o aluno tenha um diploma “híbrido”. Seu novo departamento também irá incluir um novo curso de mestrado em têxteis, que irá adotar uma abordagem híbrida.

Vamos mesclar fibras técnicas com fibras naturais e torcê-las em fios futuristas dentro todos os tipos de disciplinas como a artesanal, industrial e fusões entre estas duas produções“, disse Edelkoort.

Vamos convidar estudantes de arte, estudantes de design e arquitetura, alunos e estudantes de moda para trabalharem em conjunto sobre o futuro dos têxteis, que eu acredito que vai se tornar muito importante.

Em declarações recentes à Dezeen, o designer Dror Benshetrit de Nova York concordou que a educação criativa deve tornar-se menos especializada. “Há muitos anos atrás, as pessoas criativas se especializavam em várias matérias, bem diferente do que é hoje“, disse ele. “A educação universitária fragmentou as artes em um monte de diferentes profissões especializadas. E eu vejo que a mudança está de volta.” As universidades não fizeram essa divisão só com as artes, mas também com todas as outras profissões para lucrarem mais.

Os comentários de Edelkoort vieram uma semana depois do designer inter-disciplinar Thomas Heatherwick argumentou que não há diferença na abordagem de projetar um edifício ou um objeto. Projetar um edifício é “exatamente o mesmo”, que projetar um cartão de Natal de acordo com o designer Thomas Heatherwick , em meio um sinal de que os designers estão invadindo o território dos arquitetos. Os novos alunos do curso de design híbrido e novos têxteis de Edelkoort vão ambos começar em setembro na Parsons School.

“A Parsons School of Design de Nova York está feliz em receber Lidewij Edelkoort para a nossa universidade”, disse o reitor da escola Tim Marshall. “Seu pensamento intuitivo e capacidade de identificar padrões sócio-culturais e indicações emergentes vai nos ajudar a desenvolver um currículo para a economia criativa do futuro.

Edelkoort disse que ela estava lançando o departamento para explorar como a educação poderia refletir melhor a forma como as pessoas pensam e trabalham. “É para soltar as coisas, para explorar onde estão as fronteiras e questionar se elas precisam estar lá“, disse ela. “Precisamos adaptar a essa nova realidade, mais inclusiva, mais criatividade improvisada.”

Nascida na Holanda, em 1950, Edelkoort assessora empresas de moda e marcas de consumo em todo o mundo. Em 2003, a revista Time nomeou-a como uma das 25 pessoas mais influentes na moda. Foi diretora de Design Academy Eindhoven de 1998-2008 e em 2011 ela ajudou fundar a School of Form, em Poznan, na Polônia.

Leia a transcrição da entrevista da Dezeen com Li Edelkoort:

Marcus Fairs: Diga-me o que você está fazendo na Parsons.

Li Edelkoort: Bem, é ainda prematuro, já que iniciarei somente no próximo Outono. Fui procurada pela The New School para me tornar reitora da disciplina de estudos de design híbridos. Um experimento onde nosso objetivo é misturar várias disciplinas, e não apenas moda e design, mas também a arte performática, artes visuais, música, cinema, jornalismo, arquitetura e ciências sociais.

Marcus Fairs: E porque há uma necessidade disso agora? Por que reunir todas essas disciplinas?

Li Edelkoort: Eu acredito que as coisas realmente grandes que acontecem na cultura de hoje já são uma mistura de vários movimentos visionários e estéticos que trabalham juntos com conhecimento tecnológico. Há um monte de sobreposição de competências.  A ideia da performance, juntamente com a representação visual, com roupas, com música, parece tornar-se muito interessante hoje.

Eu sinto que todas as disciplinas querem atravessar suas fronteiras. E eu acho que em uma universidade criativa é interessante que haja um lugar onde as pessoas possam realmente fazer isso e fazer acontecer, trabalhando em conjunto. Eu sinto que todas as disciplinas querem cruzar suas fronteiras

Marcus Fairs: Tem havido muita conversa recentemente sobre os sistemas de ensino atuais onde você estuda para ser um arquiteto, ou um advogado ou qualquer outra coisa está desatualizado. Você concorda com isso?

Li Edelkoort: Sim, parece estar obsoleto, porque  muitas vezes as pessoas acabam fazendo muitas outras coisas na vida. Pessoalmente, eu já sou um bom exemplo. Com uma vida útil mais longa, as pessoas irão viver várias vidas e tem várias vocações, aprendendo diferentes disciplinas.

Então, na verdade, uma vez que você sabe cantar, você também pode cantar de forma criativa, e dar forma ao cantar e de repente, você é capaz de explorar muitas outras direções, indo do canto para a escrita, a moda ou além.

Então, eu acredito que a educação atual não está ajudando as pessoas a desenvolverem um aprendizado em grande escala profissional, mas é interessante desenvolver o que está enterrado dentro deles. E assim, eu acho que nós podemos fazer isso acontecer enquanto os jovens ainda estão estudando.

Marcus Fairs: Então, as pessoas sairão deste curso com uma qualificação em quê? Tudo?

Li Edelkoort: Até agora é só um curso inicial, que eu estou planejando em conjunto com a universidade e que eu estou no processo de criação e elaboração.

Além disso, estamos iniciando também um mestrado muito importante no setor dos têxteis que vamos mesclar fibras técnicas com fibras naturais e torcê-las em fios futuristas dentro de todos os tipos de disciplinas como a artesanal, industrial e fusões entre estas duas produções.

Assim, será mais um híbrido onde vamos convidar estudantes de arte, estudantes de design, arquitetura alunos e estudantes de moda para trabalhar em conjunto sobre o futuro dos tecidos, que eu acredito que vai se tornar muito importante. E, possivelmente, os alunos estarão entre as duas cidades de Paris e Nova York, outro híbrido! Vai ser muito interessante poder viajar pelo mundo ensinando sobre novos tecidos. É para soltar as coisas, explorar as fronteiras e pergunta se eles precisam estar lá.

Marcus Fairs: E após o primeiro ano, os alunos podem escolher uma disciplina?

Li Edelkoort: Eles podem escolher, mas quem sabe? Se a disciplina se tornar muito popular, ela poderia se tornar uma faculdade e, em seguida, você teria um diploma híbrido. Mas isto está longe ainda. No entanto, os novos especialistas têxteis vai ser completamente híbridos na natureza.

Marcus Fairs: Qual é a razão para isso? É para melhorar a educação? Ou a força de trabalho?

Li Edelkoort: É para soltar as coisas, para explorar onde estão as fronteiras e questionar se elas precisam estar lá. Ou devemos apenas abraçar que todos nós estamos em constante fluxo e transformação. Eu acho que o nosso cérebro está se expandindo muito rapidamente com a rapidez da internet e nós estamos definitivamente nos afastando do sistema bi-polar do pensamento de uma forma mais sinuosa de reflexão.

Por causa da evolução, mas, também, por causa de todos os sistemas inteligentes nos ensinando. Então, temos de nos adaptar a esta vida sinuosa com uma criatividade mais improvisada. A aprendizagem também deve abordar isso.

Marcus Fairs: Portanto, este é um primeiro passo para experimentar uma nova forma de aprendizado que possa responder à maneira que as pessoas estão realmente vivendo, trabalhando e pensando hoje?

Li Edelkoort: E como vamos crescer no século 21. Bem é apenas um experimento. Mas é muito emocionante para mim.

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