O upcycling é o processo de criar algo novo e melhor a partir de itens antigos ou descartados. Diferente dos processos  de reutilização ou reciclagem, o upcycling utiliza os materiais existentes para criar algo melhor que os originais. O processo não é algo simples ou fácil pois requer uma quantidade considerável de criatividade, paciência, amor e visão, além é claro de consciência ambiental.

O resultado final é tipicamente um produto único, feito à mão e sustentável. Por exemplo, na reutilização ou reciclagem camisetas usadas podem ser transformadas em panos de limpeza, já o upcycling significa que você recriaria a camiseta com retalhos de outros tecidos decorados com bordados feito à mão.

Upcycling na produção em massa

A maioria das sobras de produção em massa estão relacionadas a:

  • Máxima eficiência no corte de tecidos que são calculados por programas especiais de computador que podem aumentar o uso do tecido em até 85%. Desse ponto em diante, os cortes das bordas e extremidades do rolo do tecido são normalmente desperdiçados;
  • Excesso de produção que é necessário para alimentar a necessidade constante de novas coleções de roupas pelas marcas de fast fashion.

Como resultado, mesmo uma empresa com produção altamente eficiente que gera 10-20% de resíduos no corte dos tecidos, embora o material ainda tem boa qualidade. A solução mais comum para lidar com esses resíduos pela indústria são os aterros e incineração. Mas está se tornando comum a implementação da produção de circuito fechado da economia circular.

Isso normalmente significa usar as sobras de um produto como matéria prima para fabricar um outro produto, por exemplo, utilizando sobras têxteis em estofos ou isolamento. Muitas vezes, é resolvido com downcycling, os materiais são triturados para uma melhor usabilidade em seu segundo tempo de vida.

Já o upcycling industrial, transforma os resíduos descartados em outros produtos de melhor qualidade com menos energia, água ou outros recursos no seu reprocessamento, para maximizar o ciclo de vida dos materiais. Obviamente isso não implica somente as sobras de tecidos mas também as roupas e tecidos usados que são descartados pelas pessoas ou instituições.

Inspirado nesse processo alguns estilistas estão criando marcas de roupas utilizando o upcycling de materiais descartados pela fabricação em massa de moda, criando produtos únicos e modernos. Veja a seguir três marcas que seguem esse conceito.

Daniel Silverstein é um estilista de Nova York e fabricante de roupas com zero resíduos. Em 2016, Silverstein pretende resgatar 3 toneladas de retalhos têxteis que sobram das confecções. Isso é suficiente para fazer cerca de 6.000 peças da sua marca Zero Waste Daniel/ZWD.

Marcas de moda upcycling transformam tecidos descartados em roupas originais stylo urbano-1

O estilista pretende usar seu processo único de modelagem para transformar lixo em luxo com a ajuda da incubadora de moda Manufacture New York, para juntos processarem e rastrearem os resíduos e analisar o potencial de mercado deste processo, provando que o design com desperdício zero pode ser tão interessante para a indústria da moda como é a moda convencional.

Marcas de moda upcycling transformam tecidos descartados em roupas originais stylo urbano-2

A ZWD irá criar uma opção de ciclo fechado para a indústria da moda visando acabar com a poluição catastrófica que assola o planeta e mancha a nossa reputação como designers e como pessoas. Este processo irá criar postos de trabalho, bem como um programa de treinamento de mão de obra para os futuros inovadores no design de desperdício zero que precisamos tão desesperadamente para incentivar a sustentabilidade do nosso planeta.

Com a enorme produção de roupas das marcas de fast fashion, toneladas de resíduos têxteis sobram da produção de vestuário nas fábricas. A estilista estoniana Reet Aus criou uma marca com seu nome que tem como proposta desviar esses resíduos têxteis novos do aterro e conservar seus recursos, ao mesmo tempo! Sua linha de roupas upcycled usa 70% menos água e 64% menos energia por peça para fazer e cria pelo menos 40% menos resíduos na produção.

A coleção da Reet Raus é produzida em Bangladesh, através de uma cooperação com uma fábrica que produz para grande varejistas de fast fashion, utilizando os resíduos têxteis para fazer a coleção. Basicamente, a estilista recolhe o material que sobra da produção em massa dessa fábrica, o que dá uma quantidade extraordinariamente grande.

A empresa com quem obtêm os retalhos produz 240 milhões de peças por ano e 18% de resíduos têxteis sobram no processo de fabricação. O “lixo” é na verdade tecido novo, mas não tem aplicação devido suas medidas desiguais de 10 a 30 cm.

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Então, Reet Raus montou uma pequena linha de produção em massa upcycling na mesma fábrica em Bangladesh treinando os trabalhadores a qual visita duas vezes por ano. Este é o lugar onde a coleção upcycled feita à mão da Reet Aus é produzida e certificada.

Desse modo, a marca é capaz de produzir em massa suas coleções enquanto ainda estiver usando materiais recuperados. A grande vantagem da produção em massa é que ela permite tirar proveito de economias de escala, o que significa preços mais baixos para os consumidores.

Marcas de moda upcycling transformam tecidos descartados em roupas originais stylo urbano-4

A maioria das marcas de moda sustentável tem preços altos, e obviamente que os preços da Reet Aus não competem com os da H & M, mas por ser a primeira marca de moda upcycling a produzir em larga escala em Bangladesh, seus preços são mais acessíveis as pessoas. Como é uma marca de moda upcycling, os preços de seus produtos são cerca de 10 vezes mais caros do que os da H & M.

Isso tem duas razões: a marca paga um pouco mais para os empregados pois seus produtos são mais complexos de produzir. Os retalhos são cortados à mão e  depois unidos para dar forma a roupa e isso leva mais tempo de produção e eleva o valor da peça em relação a produção em massa normal.

O estilista inglês Christopher Raeburn cria moda para homens e mulheres eticamente conscientes desenvolvendo roupas e acessórios com tecidos militares descartados pelo exército (veja o catálogo aqui) da mesma forma que os estilistas Greg Lauren e Daniel Kroh.

Durante décadas, o estilo militar tem sido uma fonte de inspiração constante para os designers de moda. Mas para Christopher Raeburn, a inspiração não é meramente estética. Inspirado pelo desafio de criar peças de moda eticamente conscientes, Christopher lançou sua marca homônima em 2008. Nos anos seguintes, ele ficou famoso por reutilizar tecidos militares para criar roupas funcionais, inteligentes e meticulosamente trabalhadas.

Christopher tem grande inspiração da natureza por isso aceitou o desafio de criar moda ética e sustentável. “Como designer eu estou inspirado pela ideia de refazer algo novo com aquilo que outros consideram lixo”, explica ele. “O desafio técnico e de design é algo que eu acho muito atraente.”

Seu fascínio pelos tecidos militares deriva do fato de serem práticos e funcionais onde a textura, cor e resistência adicionam um estilo único a cada peça. Christopher tem colecionado roupas e tecidos militares durante vários anos, e com sua criatividade e interesse crescente em upcycling de moda, ele acabou unindo essas duas áreas.

Depois de se formar na Royal College of Art em Londres, em 2006, Christopher ganhou experiência trabalhando em várias casas de moda por toda cidade, antes de fundar seu próprio estúdio em 2008, com base na filosofia de design sustentável e ético. Nos anos seguintes que lançou sua marca, Christopher tem despertado a atenção da elite da moda.

Sua primeira aparição na London Fashion Week foi em 2009, quando revelou sua coleção primavera / verão focada na moda ética. Em 2010, ele recebeu o cobiçado patrocínio NEWGEN do Conselho Britânico de Moda, tanto para moda masculina e feminina no mesmo ano (os estilitas premiados anteriores incluíram Matthew Williamson e Alexander McQueen).

Cada uma das roupas meticulosamente trabalhadas de Christopher carrega uma etiqueta com as palavras “Refeito na Inglaterra” que não é só uma referência patriótica ao fato de que toda a sua linha de roupas é produzida em seu atelier no leste de Londres, mas também em homenagem às vidas anteriores das roupas militares que ele desconstruiu para em seguida, recriá-las novamente. Christopher tornou-se líder da moda dos três Rs: reduzir, reutilizar e reciclar.

Cada peça da coleção presta homenagem ao item original com suas características de proteção, camuflagem, velocidade ou calor. O estilista acrescenta uma nova vida e funcionalidade através de uma reformulação completa. Christopher é otimista com o crescente interesse da indústria da moda pela sustentabilidade dizendo:

“Eu acho que a indústria tem feito grandes progressos em apoiar a moda ética e imagino que isso ajudará no surgimento de uma nova geração de talentos que demonstrará que as marcas de moda ética podem funcionar como empresas e serem lucrativas, fazendo desaparecer a diferença com a moda tradicional.”

Mas além de suas habilidades como estilista, Christopher Raeburn aprendeu algo raro no mundo da moda: a capacidade de construir suas ideias em um negócio. O estilista faz parte de uma nova geração chamada de “empreendedores criativos” que  tem visão ampla, energia, entusiasmo e imaginação, bem como uma crença inabalável na sustentabilidade. Desde o início, a visão de Raeburn inclui a venda de suas roupas.

O resultado de todo seu trabalho de upcycling você pode ver no seu último desfile de primavera/verão 2017.

Então, você deve achar que as roupas upcycling são uma coisa nova não é? Acontece que no Japão, a reutilização de roupas gastas pelo tempo em novas peças bacanas tem mais de cem anos. E no Japão a técnica é conhecida como “boro”, segundo Arata Fujiwara, o co-fundador da Kuon , uma etiqueta de Tóquio com visão do futuro da moda.

“O “Boro” se refere aos tecidos desgastados ou inúteis e velhos, roupas rasgadas ou remendadas”, diz ele. “Ao contrário de hoje, os tecidos de algodão eram muito escassos no Japão há 150 anos.”

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Casaco da Kuon feito a partir de uma técnica de patchwork japonesa antiga chamada “sashiko”.

Isto significava que as pessoas no passado normalmente faziam roupas com os panos descartados usando uma técnica de costura muito complexa conhecida como “sashiko”. Este método antigo de upcycle e patchwork agora sustenta a abordagem da marca Kuon que significa “eternidade”, uma marca que segundo Arata Fujiwara, tem como desafio o “mantra de consumo de massa” desenvolvendo uma coleção onde o “estilo e bem social” estão uniformemente entrelaçados.

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Usando a técnica sashiko, o estilista Shinichiro Ishibashi criou uma coleção de estreia feita com tecidos recuperados e reconstruídos que poderia ter até 150 anos. A técnica artesanal boro nas roupas da Kuon utilizam tecidos que foram costurados por artesãs em Iwate, uma cidade duramente atingida pelo tsunami de 2011 no Japão, onde a reconstrução tem sido lenta e o emprego é escasso. O “valor social” da marca parte de uma filosofia de design que Fujiwara acredita que agrega valor ao produto e ajudar as artesãs.

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A Kuon pretende ampliar sua coleção e canais de distribuição para desenvolver uma agenda social e ambiental, e ajudar a estabilizar e regenerar os meios de subsistência dos artesãos em outras regiões. Arata Fujiwara disse “Por que não devemos usar a moda para contribuir para a sociedade?”

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