As grifes de moda e seus estilistas sempre buscam favorecer as mulheres mais magras, sexys e jovens para desfilar e fotografar suas roupas, apesar de que a grande maioria das consumidoras dessas marcas estarem acima dos 40 anos. Mas não é este um reflexo dos piores medos da sociedade?

A fetichização da magreza, a riqueza, a estética, sensualidade e sim, a juventude, são rotineiramente utilizados nas campanhas publicitárias. Essa é a ditadura da juventude que na indústria da moda é levada aos extremo.

Mas aqui está uma verdade que é desconfortável sobre a moda: tudo o que ela realmente faz é mostrar os próprios desejos da sociedade, suas próprias atitudes e as exagera propositalmente. Isso não é uma desculpa para minimizar sua responsabilidade por ser discriminatória, mas a verdade é que essa indústria da moda é um enorme sucesso.

A razão pela qual as pessoas, e principalmente as mulheres, ficarem tão chateadas com a obsessão da moda com a juventude e a magreza é porque ela está ecoando aquela voz cruel que vive em nossas cabeças, o que acaba incentivando a nossa própria auto-aversão.

Por mais que as pessoas critiquem essa obsessão, o fato é que é muito raro encontrar qualquer revista que não valide este ponto de vista, usando modelos muito magras e jovens. O que a moda faz é explorar nossa insatisfação com nós mesmos, e com isso fatura 3 trilhões de dólares por ano.

Mas essa mentalidade está mudando graças a internet como é o caso da blogueira plus-size Nicolette Mason que presta consultoria para o site de varejo plus-size Navabi, e as blogueiras do Advanced Style que tem mais de 60 anos, e mostram que ser estilosa e moderna não tem nada a ver com idade.

Não importa a inclusão ocasional que a  indústria faz com mulheres mais velhas em campanhas publicitárias como a campanha da Céline com escritora Joan Didion, a campanha da Saint Laurent com a cantora Joni Mitchell e a campanha da Lanvin com a ex-modelo e dançarina Jacqueline Murdock, porque isto é apenas modismo.

Ter uma mulher mais velha em uma campanha de moda dá a mesma repercussão positiva na mídia que uma modelo plus-size aparecendo num desfile. Isso não significa que a indústria da moda realmente acha que as mulheres mais velhas ou grandes, são atraentes, sendo que todas as modelos nas passarelas continuam a ser jovens,magras e na sua maioria, brancas.

Isso significa apenas que as marcas de moda só querem passar a impressão aos consumidores que não discrimina pessoas “fora dos padrões”. Como essas empresas irão reagir a mudança na sociedade? As mulheres maduras com idades entre 35 e 55 anos, denominadas de geração Midult, representam de 70 a 80% dos gastos dos consumidores em todo o mundo.

E essa geração de mulheres maduras está sendo negligenciada em favor da geração millennials. Isso sem falar na geração baby boomers que está acima dos 50 anos que é ignorada pelas marcas da moda. Segundo uma interessante matéria do Tab UOL, em 2030 o Brasil terá mais velhos do que jovens.

O caso da modelo Carmen dell’ Orefice, de 84 anos é único pois ela ainda desfila e faz campanhas para algumas grifes mesmo depois de décadas trabalhando como modelo.

Por que a indústria da moda ignora as consumidoras que não são jovens ou magras stylo urbano 1
A fabulosa modelo Carmen dell’ Orefice de 84 anos, um ícone da moda.

Segundo o site BOF, em 1985, a média das mulheres americanas era tamanho 42. Hoje, elas usam tamanho 48, o número que geralmente marca a linha divisória entre a moda padrão e o plus-size. Nos Estados Unidos o mercado plus-size fatura cerca de US $ 17,5 bilhões ao ano, mas continua a ser um dos segmentos mais carentes da indústria da moda.

Os departamentos plus-size são muitas vezes espaços pequenos escondidos na parte de trás das lojas e seus estilos de roupas são limitados, menos sofisticados e fora da tendência. A moda plus-size raramente aparece em anúncios ou vitrines. Já a moda de luxo ignora completamente esse nicho, com muitos estilistas fabricando produtos apenas para tamanhos pequenos.

Um estudo do IEMI conseguiu identificar ao menos 492 indústrias de confecção, no Brasil, equivalentes a 2,5% do total dos estabelecimentos em atividade no setor, que já desenvolvem coleções específicas para o segmento Plus Size, com uma produção anual em torno de 45 milhões de peças em 2015, e receitas levemente superiores a R$ 1,0 bilhão de reais (valores líquidos, sem impostos).

Mas esse segmento corresponde a apenas 1,5% das vendas totais da linha de roupas externas femininas e masculinas, mas isso é muito pouco para seu verdadeiro potencial, principalmente se considerarmos que mais da metade da população brasileira se encontra acima do peso, atualmente.

Mesmo com a forte crise do mercado de moda, de 2013 a 2015, o segmento avançou nada menos que 7,9% em volumes de peças e quase 13% em receitas nominais. O sucesso de vendas das coleções de moda Plus Size, vai de encontro às necessidades ainda não atendidas de uma gama relevante de consumidoras.

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A moda contemporânea e alta costura para mercado plus-size tem um enorme mercado a ser explorado.

A questão do preconceito da moda com pessoas que não são jovens ou magras é ridículo e ilógico. Apenas uma pequena percentagem das mulheres têm dinheiro para comprar roupas de grife e maioria delas estão acima dos 40. Mas no entanto, as marcas de moda ainda insistem em usar a imagem de mulheres muito jovens como o caso da modelo de 14 anos Sofia Mechetner, que apareceu no desfile de alta costura da Dior em 2014.

O público consumidor de alta costura com certeza não é para adolescentes.  A mesma coisa acontece com a indústria cosmética com suas propagandas de cremes “rejuvenescedores” que utilizam modelos de 18 anos para vender produtos para mulheres acima dos 45. O que me traz a fabulosa Iris Apfel, o ícone da moda e designer de 94 anos de idade que foi homenageada no documentário, Iris , dirigido por Albert Maysle.

Iris colaborou com várias grandes marcas de moda e cosmética e mais recentemente com a empresa de tecnologia vestível WiseWear. Ela foi a primeira a denunciar o fato da indústria da moda ser obcecada por jovens e ignorar aquelas com real poder de compra.

“A indústria da moda não apenas esqueceu as pessoas de terceira idade, ela se esquece também das pessoas de meia-idade,” disse Apfel ao The Telegraph.  “A indústria da moda é obcecada com os jovens, e isso é totalmente insano do ponto de vista financeiro, então eu não sinto muito por eles, eles trouxeram isso para si mesmos.Vários estilistas famosos fazem vestidos deslumbrantes custando milhares de dólares que os jovens não podem pagar.” 

Ele continua: “Eles fazem estes vestidos para corpos de 16 anos e que podem ser comprados por mulheres com mais de 65/75 e essas são as mulheres em nosso país com a renda disponível além de tempo e dinheiro para ir às compras e elas querem comprar coisas bonitas, mas é muito difícil encontrar coisas que são adequadas para elas. Isso não faz qualquer sentido.” Falou a voz da razão!

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