Nos séculos XVIII e XIX, a primeira e segunda revoluções industriais aproveitaram a água, o vapor e a energia elétrica para mecanizar a confecção de vestuário, desafiando o sistema tradicional de produção artesanal. Em meados do século XX, uma terceira revolução industrial – relativa à introdução da tecnologia da informação e análise de dados – mudou nova e radicalmente o negócio da moda, fazendo nascer os gigantes da fast fashion, como a Inditex, e forçando a indústria a repensar o seu sistema face à era das redes sociais como o Instagram, analisa o portal The Business of Fashion (BoF).

Agora, uma quarta revolução industrial – alavancada por uma constelação de novas inovações físicas, digitais e biológicas, da impressão 3D e inteligência artificial aos avanços nos biomateriais – está impulsionando uma nova mudança na economia, que terá grandes implicações na moda.

Prepare-se para a quarta revolução industrial da moda stylo urbano

Ainda temos de compreender plenamente a velocidade e a amplitude desta nova revolução. Consideremos as possibilidades ilimitadas de ter milhares de milhões de pessoas conectadas através de dispositivos móveis”, antecipou Klaus Schwab, fundador e presidente-executivo do Fórum Econômico Mundial (que este ano escolheu a quarta revolução industrial como tema da conferência anual) num livro sobre a problemática.

A quarta revolução industrial transformará todas as indústrias. Mas a moda, em particular, tem vindo a beneficiar da maioria dos avanços na ciência dos materiais, abrindo uma ampla gama de novas possibilidades funcionais e estéticas para o vestuário. “É aí que esta revolução dos materiais está acontecendo: podemos começar a exigir interatividade tanto nas fibras como nos têxteis”, completou, em junho, Amanda Parkes, cofundadora e responsável de tecnologia e pesquisa na Manufacture NY, à margem da conferência Voices, promovida pelo BoF.

Alguns tecidos terão sistemas informáticos incorporados nas suas fibras a um nível microscópico, resultando em peças de vestuário que podem, por exemplo, adaptar-se às mudanças de temperatura, mudar de cor e textura ou armazenar energia como uma bateria.

Nos últimos anos, a ciência dos materiais realizou descobertas como o shrilk, um material transparente e biodegradável obtido a partir da casca do camarão e proteínas derivadas da seda, que é tão forte como o alumínio mas tem metade do peso. Ou o Qmilk, um novo material fibroso sustentável produzido a partir da caseína do leite azedo que é resistente a bactérias e ao fogo. Além disso, materiais que geram e armazenam energia “já existem em escala laboratorial“, afirmou Aimee Rose, diretora de tecnologia na Advanced Functional Fabrics of America. “Nós demonstramos que podemos criar uma fibra que armazena energia e pode agir como uma bateria – mas como vamos colocar isso no vestuário?“, questionou.

Levar estas inovações para fora dos laboratórios e colocá-las nas mãos dos consumidores exigirá a colaboração entre cientistas, designers e produtores em torno daquilo que os consumidores querem. “Pensar sobre a funcionalidade explícita e o público-alvo é nisso que as empresas de moda são boas”, reconheceu Parkes, que prevê que as empresas possam pegar nestas inovações e criar um produto que seja personalizado para as necessidades específicas de um público de nicho.

Ao dar origem a novos produtos de consumo, as inovações tecnológicas da quarta revolução industrial têm potencial para resolver alguns dos problemas profundos que a indústria da moda enfrenta. A procura de matérias-primas como o couro, por exemplo, já supera a oferta global e as mudanças climáticas estão a agravar a escassez de materiais, afetando os ambientes necessários para produzir a caxemira ou a seda.

Segundo Suzanne Lee, diretora criativa da Modern Meadow, uma startup sediada em Nova York que trabalha com couro (e outros materiais) desenvolvido em laboratório, a biotecnologia pode ajudar. “A forma intensiva como os animais são criados significa que a qualidade das peles está em queda“, explicou. “Pode haver entre 30 a 80% de desperdício de uma pele de animal. Do ponto de vista da eficiência e do ponto de vista de fabricação é um problema sério”.

Estes materiais inovadores vão “ajudar-nos a continuar a garantir o acesso e a disponibilidade de matérias-primas de qualidade das quais dependemos”, acrescentou Marie-Claire Daveu, diretora de sustentabilidade e de assuntos institucionais internacionais no grupo Kering, que lançou um laboratório de inovação in-house em 2014 para investigar e desenvolver soluções de materiais “mais verdes“.

A ciência dos materiais conseguirá ainda conciliar a crescente procura do consumidor por produtos que reduzam o desperdício e só nos EUA, todos os anos, são enviados para aterros cerca de 10,5 milhões de toneladas de vestuário. Os investigadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) estão atualmente construindo uma impressora 3D que poderá imprimir joias feitas a partir da quitina de camarão (resíduo). “Usa-se a roupa no verão e no final dessa estação, é só jogar a roupa no oceano e se dissolverá em água salgada”, revelou Parkes.

Na verdade, tanto a máquinas de impressão 3D e de tricô 3D vão ajudar a alterar os atuais métodos de produção da moda, permitindo às empresas criar rapidamente produtos complexos em qualquer lugar. Isto poderá reduzir drasticamente o ciclo “do design à produção“, ou seja, as empresas podem testar mais protótipos antes de fabricar ou lançar um produto para melhor responder à procura.

Com o custo das impressoras 3D e dos materiais necessários em queda, o custo médio do objeto impresso em 3D vai cair 50% entre 2013 e 2018, e a produção de produtos em pequenas quantidades vai tornar-se mais rentável, abrindo, cada vez mais, o caminho à customização. Atualmente, marcas como a Adidas e a Nike estão a usar a impressão 3D para permitir que os clientes personalizem seus tênis, que agora se adaptam perfeitamente à fisionomia do utilizador. Adias lanço sua fábrica futurista Speedfactory para fabricar seus calçados em qualquer local, unido impressão 3D e tricô 3D.

A inteligência artificial (IA) desempenha também um papel fundamental na quarta revolução industrial, automatizando funções atualmente desempenhadas por pessoas. Numa indústria orientada por tendências, a capacidade de rapidamente tomar decisões baseadas em dados complexos pode ajudar as empresas a prever se um novo produto se vai transformar num bestseller ou quanto tempo uma tendência vai subsistir. Além disso, a IA pode recorrer a dados de lojas e plataformas de comércio eletrônico para ajudar os varejistas a alinharem a oferta e a procura, reduzindo assim o desperdício e recuperando as vendas.

Os produtos de moda inovadores podem também resolver problemas noutras áreas, como a saúde que tem sido explorada através dor wearables como o Fitbit e o Apple Watch. Mas ainda há barreiras, particularmente na indústria da moda. Uma delas é a mentalidade: “nós não precisamos da tecnologia, está tudo bem”. Isso está definitivamente mudando, admitiu Suzanne Lee, da Modern Meadow.

Não há I&D na moda“, disse ela, apontando para as primeiras lutas da Net-a-Porter para convencer as marcas de luxo a venderem online como exemplo da natureza conservadora da indústria. “Algumas marcas são preguiçosas. Querem esperar para que alguém o faça ou estão apenas ficam à espera de poder usar algo como uma jogada de marketing”, referiu. A velocidade com que as empresas de moda despejam novos produtos no mercado e a resultante mentalidade de “curto prazo” da indústria é outro grande obstáculo.

Na biotecnologia, o cronograma para desenvolver uma ideia e levá-la para o mercado pode ser de oito a 15 anos. A este propósito, o Revolutionary Fibres and Textiles Manufacturing Institute, uma parceria público-privada norte-americana, forneceu 300 milhões de dólares em subsídios para organizações que trabalhem com novos materiais. De acordo com Amanda Parkes, que está envolvida no projeto, os designers precisam conversar mais com os investigadores. “Queremos que os designers pensem mais sobre a integração da engenharia têxtil como meio de criaram uma cadeia de fornecimento própria em torno das fibras, fios e tecidos“, resumiu ela.

Algumas parcerias entre a moda e a tecnologia já estão dando frutos. No início deste ano, a Levi’s lançou uma jaqueta inteligente em colaboração com a Google utilizando a engenharia do Project jacquard. “A Google foi essencial para nos ajudar a selar a lacuna entre a indústria de denim e o mundo digital“, garantiu Paul Dillinger, vice-presidente de inovação de produto da Levi Strauss & Co.

Contudo, as mudanças tecnológicas da quarta revolução industrial vão colocar novos desafios em termos de proteção, segurança e ética. Ao dar às empresas as ferramentas necessárias para fabricar de forma barata e rápida, a impressão em 3D, pode dificultar (ainda mais) a proteção dos designs das empresas de luxo em relação às cópias. “Penso que há muitas coisas que precisam de ser enfrentadas em relação à forma como tratamos patentes e propriedade intelectual neste espaço», observou Todd Harple, diretor de estratégia de inovação na Intel, referindo a dificuldade em patentear as peças wearable, “Serão roupas?”, interrogou.

Já o vestuário que acompanha o estado físico e emocional do usuário proporciona dados de valor inestimável às empresas sobre os seus clientes, mas também levanta questões em relação à privacidade e segurança. Ao desenvolver novos produtos, questões éticas como estas precisam de ser “características principais e não um potencial bug”, defendeu Alan Marcus, responsável de informação e comunicação no Fórum Econômico Mundial. “Do ponto de vista da competitividade, a indústria da moda precisa estar na mesa nessas conversações“, concluiu.

Fonte: The Business of Fashion

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