Imagina que no futuro, onde uma marca de moda possa comercializar roupas e acessórios de couro feitos de pele humana criada em laboratório, utilizando o DNA de uma pessoa? Bizarro mas poderia ser possível segundo a designer Tina Gorjanc em seu projeto de mestrado na Central Saint Martins de Londres, onde propôs uma série conceitual de acessórios de couro feitos de pele cultivada a partir do DNA do estilista Alexander McQueen.

Como os limites éticos na biotecnologia estão ficando confusos, no futuro poderemos ter nas lojas couro projetado a partir das células de uma celebridade como Nicole Kidman ou do próprio estilista que assina as coleções da marca. Você pode achar impossível a ideia mas o fato é que a gigante da beleza L’Oreal está desenvolvendo em laboratório epiderme humana em parceria com a Organovo, uma startup de San Francisco que quer imprimir em 3D pele humana para ser utilizada tanto em cirurgias plásticas como testes para produtos cosméticos.

Foi esse admirável mundo novo que tanto fascinou Tina Gorjanc. Para seu projeto de mestrado, a estudante propôs um novo tipo de luxo que transforma a biotecnologia de construção de tecidos em uma declaração de moda.

Um novo tipo de “couro” para artigos de moda

As grandes empresas de moda e cosméticos já assinaram acordos de colaboração de pesquisa com os institutos de bioengenharia“, disse Tina Gorjanc. “Essas colaborações estão permitindo o desenvolvimento de novas tecnologias para cultivo artificial de pele que foram inicialmente concebidas para problemas médicos específicos e aplicá-las a produtos comerciais visando a melhoria das funções humanas normais.”

Seu trabalho é totalmente especulativa, é claro. Mas também levanta a questão de que as tecnologias de bioengenharia estão avançando mais rápido do que a legislação pode acompanhar pois os regulamentos existentes sobre a propriedade das amostras de tecidos humanos estão longe de estar claramente definidos, principalmente quando o lucro está envolvido.

Pure Human - Artigos de "couro humano" feitos com DNA de Alexander McQueen stylo urbano-1

Brechas nas leis de pacientes e de propriedade intelectual permitem que as empresas de bioengenharia possam “obter materiais” brutos “de pacientes cirúrgicos sem o seu consentimento“, disse Gorjanc. Já viu onde isso vai dar? A venda de couros artificiais feitos do DNA de celebridades para que seus fãs possam “vesti-los”.

Isso levanta preocupações éticas que questionam a capacidade das grandes corporações de reclamar a propriedade sobre o material biológico de um indivíduo. Criando uma gama de produtos comerciais cultivados a partir de células da pele de um indivíduo, Gorjanc queria mostrar como as deficiências relativas à proteção da informação genética pode “moldar todo um novo mercado de luxo.”

Pure human, como ela apelidou o trabalho, é uma crítica às corporações e da terrível facilidade de uma empresa poder ganhar a posse de DNA de uma pessoa.

“As novas alianças formadas estão começando a redefinir os padrões da indústria de luxo, desenvolvendo produtos que vão muito além da beleza e melhorias físicas, provocando e desafiando a relação entre o ser humano e a pele“, disse Gorjanc. “O projeto tem o objetivo de mostrar os parâmetros cada vez mais indulgentes de ética e de segurança no campo das tecnologias de engenharia de tecidos.”

Pure Human - Artigos de "couro humano" feitos com DNA de Alexander McQueen stylo urbano-2

Tina Gorjanc criou uma coleção conceito feita de “couro humano” cultivado através do material genético extraído do cabelo do estilista Alexander McQueen que depois foi aplicado numa cultura de células que se transformariam no tecido da pele. Depois de cultivada a pele seria bronzeada e transformada em couro humano com o fim de usá-lo em bolsas, jaquetas e mochilas.

A designer entrou com um pedido de patente em Maio de 2016, que cobriria o material feito a partir da informação genética de McQueen utilizando esta cadeia particular de processos. “Se uma estudante como eu foi capaz de patentear um material extraído de informação biológica de Alexander McQueen, pois não há legislação para me parar, só podemos imaginar o que as grandes corporações com maior financiamento vão ser capazes de fazer no futuro.”

A coleção cápsula do Pure Human foi feita de retalhos de pele de porco devido à sua semelhança com a pele humana, na qual foram aplicadas camadas de cor e de silício na superfície da pele para melhorar a semelhança. Vários “sardas” foram adicionadas à pele, enquanto a jaqueta foi tatuada para imitar o design e localização da tatuagem no corpo do próprio estilista.

Embora o projeto é puramente conceitual, Gorjanc está trabalhando com um laboratório para crescer com sucesso uma amostra de pele usando o DNA encontrado no cabelo de Alexander McQueen. Com certeza ele aprovaria pois já foi ex-aluno da Central Saint Martins.

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