Todos nós sabemos da importância das frutas para nossa saúde e por isso as utilizamos como sobremesa. Mas e se elas também forem utilizadas para fabricar tecidos? Os resíduos agrícolas de frutas como banana, abacaxi, laranja, maracujá, coco entre outras, podem ser convertidas em tecidos para vestuário, decoração, não-tecidos e outros usos industriais. Abacaxis são ricos em lignina e celulose. No fruto apenas 52% é usado para fins comestíveis como sobremesas, geleias, sucos e compotas, e os restantes 48% são despejados como resíduos orgânicos.

Fibras extraídas do desperdício dos frutos do abacaxi podem ser misturados com algodão, poliéster ou seda para fazer tecidos com uma textura macia. Estas fibras são chamados de “piña”, que em espanhol significa abacaxi. Neste post vou mostrar como as fibras do delicioso abacaxi podem através de uma nova tecnologia, se tornar um recurso valioso para a moda.

Criado pela Dr Carmen Hijosa da Espanha, Piñatex é um couro vegetal inovador cuja produção não utiliza qualquer terra adicional (as fibras de abacaxi contidas nas folhas são um desperdício agrícola), como tal, não requer água, fertilizantes ou pesticidas. Como resultado, Piñatex é um material natural, com fortes valores ambientais e sociais. Dr Carmen Hijosa, é a fundadora e CEO de sua empresa Ananas Anam que comercializa o Piñatex, e foi uma  das 10 finalistas do concurso internacional de negócios Cartier Womens Initiative Awards.

Criado em 2006, a competição anual é fruto de uma parceria reunindo o Fórum das Mulheres para a Economia e Sociedade, a joalheria de luxo  Cartier, escola de negócios INSEAD e a empresa de consultoria de gestão global McKinsey & Company. O objetivo do concurso é apoiar as mulheres empresárias de todo o mundo e premiar seis laureados de cada continente.

Ele permite que as mulheres de negócios possam promover suas empresas, para compartilhar seus valores e participar de um comunidade internacional de mulheres empresárias. Graças a suas pesquisas e criação de um novo tecido natural feito a partir das fibras descartadas de folhas de abacaxi, o Piñatex, Carmen Hijosa foi selecionada entre as finalistas da competição. Além disso, os valores de Ananas Anam correspondem aos temas centrais da Cartier Womens Initiative Awards que são: premiar mulheres empreendedoras que criaram novas empresas focadas na inovação, meio ambiente e tecnologia.

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NAE Vegan é uma marca sustentável portuguesa especializada na fabricação de sapatos. A NAE responde ao desafio da produção de sapatos veganos. Desde o seu lançamento em 2008, marca desenvolveu uma ampla gama de sapatos éticos, explorando diferentes materiais de cortiça para microfibras ecológicas. Quando conheceram o Piñatex, a NAE Vegan resolveu utilizar o couro vegetal em sua coleção.

Recentemente apresentado no Ethical Fashion Show em Berlim, um pré-evento da Berlin Fashion Week, a NAE Vegan apresentou vários sapatos feitos de Piñatex, como esses modelos pretos de bota de motociclista e tênis. A coleção é urbana e unisex, totalmente inspiradas nas últimas tendências.

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Quando pensamos em roupas, pensamos nas cores, modelagem e em tecidos com toque macio e confortável como linho e algodão por exemplo. Embora estes tecidos sejam agradáveis, não seria divertido tentar algo diferente? E sobre a piña, um tecido feito a partir de fibra de abacaxi?

O desejo constante dos estilistas de produzir materiais de moda inovadores e principalmente sustentáveis levou-os a descobrir o sofisticado tecido piña tradicional das Filipinas. Na verdade, o termo certo é re-descobrir, em vez de descobrir, porque o tecido piña tem existido por um longo tempo. Feito a partir das folhas da variedade espanhola do abacaxi vermelho ou (Ananas bracteatus), o “Piña”, foi trazido nas Filipinas pelos espanhóis e com um decreto franciscano de 1580, o tecido de piña foi incentivado, bem como bordados, para aperfeiçoar as habilidades e talentos dos nativos.

A tecelagem do Piña atingiu o seu pico de perfeição no final do século XVIII, quando se tornou um dos mais procurados tecidos feitos à mão. Ele era conhecido por ser adequado para o clima tropical, e oferecia uma suavidade mais refinada durante a era do romantismo. Apesar de ter sido popular entre os aristocratas da época, o piña perdeu o brilho quando o tecido feito de algodão foi introduzido em meados da década de 1980. Assim o belo tecido piña acabou por morrer, pois não foi capaz de competir com o tecido de algodão que é muito mais barato e largamente disponível no mercado.

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Um Barong Tagalog masculino feito de piña e bordado manualmente. Não é uma simples camisa, é uma obra de arte usada por personalidades do mundo todo.

O tecido Piña foi originalmente usado nas Filipinas para camisas masculinas, e é chamado de Barong Tagalog. Por causa de sua aparência naturalmente translúcida,brilhante e elegante, ele se destacou como um símbolo de status do usuário, porque só os ricos podem se dar ao luxo de possuir um Barong Tagalog de puro piña feito artesanalmente.

A fibra do abacaxi tem a textura mais delicada do que qualquer outra fibra vegetal. Ela tem cerca de 60 cm de comprimento e é branca, sedosa e brilhante como a seda, e pode facilmente ser tingida com corantes. Ao longo do tempo, no entanto, a utilização do tecido piña se ampliou e as mulheres agora usam vestidos formais, chales, vestidos de casamento, blusas e outros trajes feitos de piña. E, ultimamente, não apenas os filipinos estão usando.

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Quando os estilistas filipinos e internacionais começaram a usar o tecido piña em suas criações, muitos estrangeiros se interessaram em vestir roupas feitas de piña. O estilista de alta costura Oliver Tolentino, que vestiu celebridades como Carrie Underwood e Maria Menounos, estava entre os estilistas filipinos que criaram roupas de piña para os holofotes da moda internacional.

Outros estilistas filipinos que exploram a beleza e exclusividade do piña são Paul Cabral, que vende suas Barong Tagalog masculinas para diversas personalidades mundiais e a estilista Ditta Sandico, que utiliza as fibras das folhas do abacaxi juntamente com a parte interna do caule do abacá (bananeira nativa das Filipinas) em suas coleções de moda feminina que lembram mais as roupas esculturais do estilista japonês Issey Miyake. Veja algumas das “esculturas vestíveis” de Ditta aqui.

O renascimento da indústria do piña

Com o interesse cada vez maior dos estilistas filipinos e internacionais em usar tecidos sustentáveis, os tecelões de piña viram a chance de um renascimento da indústria. Na verdade, eles começaram a tecer novamente, embora muitos não estão trabalhando nisso ainda. Eles têm visto um aumento gradual na demanda da indústria têxtil. Sua disponibilidade não é mais exclusiva de boutiques e algumas lojas de departamento estão agora desenvolvendo coleções de piña. Essa demanda crescente criará mais emprego e renda para a população rural e tecelões das Filipinas.

O que torna o tecido piña único? O tecido piña tem as seguintes características:

● é leve;
● a sua aparência é semelhante ao linho;
● é naturalmente brilhante com alta lustrosidade e ele não precisa de ser reforçado sinteticamente;
● o material é macio e fino;
● tem mais textura em comparação com seda;
● é translúcido ;
● piña combina bem com outras fibras;
● é lavável á mão e fácil de cuidar;
● piña utilizar apenas ervas naturais e plantas para adicionar mais cor no tecido.

Mais importante ainda, o abacaxi é uma fonte sustentável pois leva 18 meses para amadurecer e estar pronto para a colheita. A maioria dos agricultores aumentam seus abacaxis organicamente porque essas plantas crescem melhor em solo que não são tratados com pesticidas e fungicidas químicos.

Novas tecnologias para a produção em massa de tecido de abacaxi

Atualmente, o tecido de piña puro é consideravelmente caro em comparação com outros produtos têxteis, porque a sua produção é bastante complexa e demorada, como se pode ver no vídeo acima. Ele leva mais de 8 horas para produzir apenas um quarto de um metro de pano. Os tecelões filipinos tem uma maneira de tornar o tecido menos caro entrelaçando o piña com outras fibras como seda, algodão ou abaca, sem comprometer a qualidade, mas isso ainda não é o suficiente. Ficar dependente da mão de obra de tecelões filipinos torna difícil a produção em escala global.

A planta do curauá é um vegetal herbáceo, natural da Amazônia brasileira, que está sendo propagado de forma racional para produção de fibra têxtil de excelente qualidade. Este vegetal atinge cerca de 1,5 metros e apresenta raiz superficial e fasciculada. Suas folhas, produtoras de fibra, são eretas, coriáceas, medem em média 5 cm de largura por 0,5 cm de espessura e 150 cm de comprimento. Desse tipo de abacaxi de longas olhas, pode-se retirar a celulose para fabricar tecidos com a nova tecnologia Ioncell-F que vou descrever a seguir.

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Atualmente existe uma nova tecnologia têxtil que poderá sintetizar as fibras do abacaxi num processo semelhante ao do Liocel, que é feito com a fibra de celulose da madeira. O processo de fabricação do tecido Liocel, mais conhecido como Tencel, é o mais moderno e eco-sustentável dos tecidos artificiais.  Pesquisadores do Centro de Pesquisa Técnica VTT da Finlândia criaram uma nova técnica de reciclagem com líquido iônico para a produção de tecidos de alta qualidade a partir de tecidos desgastados que atingiram o final do seu ciclo de vida. Para saber mais veja aqui.

O novo processo se chama Ioncell-F e utiliza tecidos velhos de algodão e os transforma numa viscose muito mais resistente e com melhor qualidade do que o tecido original. Para recriar um filamento forte mas delicado, o ideal é utilizar o tecido desgastado com outra fibra de celulose mais forte, que pode ser polpa de madeira, papel descartado e também  algodão cru pre-lavagens por exemplo.

A brasileira Alice Beyer Schuch que vive atualmente na Alemanha, fez sua coleção de conclusão para o mestrado internacional em Moda Sustentável em Berlim, em colaboração com a universidade finlandesa que desenvolveu o Ioncell-F, trabalhando nas possibilidade de reciclar quimicamente o algodão. Alice me enviou as fotos das roupas que confeccionou cujos tecidos foram feitos através da reciclagem com líquido iônico utilizando tecidos de algodão brancos, como roupas de cama. O tecido parece branco, mas na verdade é um marfim claro. Essa cor é a cor original do Processo Ioncell-F.

Segundo ela, a vantagem competitiva  está no fato de que o material pode assumir muitas texturas e seu preço está previsto para ser equivalente a outras fibras como Tencel. Mas a tecnologia está ainda em desenvolvimento e estará disponível comercialmente em 4 anos.

Este processo do Ioncell-F definitivamente estende abundantemente o ciclo de vida de fibras naturais! Ele também lida com a diminuição de recursos, aterros, produtos químicos perigosos, dependência direta da terra arável, e consumo de água. Veja a comparação entre o Liocel (LY), Ioncell-F (IO)  e o algodão (CO):

Hectares necessário por tonelada anual de fibra:

● CO 1 a 2,5 hect.
● LY 0,25 hect. (100% da colheita de madeira)
● IO usa resíduos e 0,15 hect. (madeira adicional)

Água requerida por kg de fibra:

● CO 10000 litros
● LY 500 litros
● IO 500 litros (baixa temp / frio)

“Pela primeira vez, uma peça de vestuário com base natural serve à economia circular, e pode, em sua totalidade, alimentar a indústria continuamente, em um ciclo abundante de regeneração.” – Alice Beyer Schuch

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Alice conclui: “A pesquisa com o papel, que acaba de ganhar o premio europeu em reciclagem, usou papel de escritório e papelão também em composição com polpa de madeira em diferentes proporções para criar novos tecidos. A mistura da polpa da madeira com o papelão apresenta uma gama de coloração marrom, natural do processo.”

A fibra resultante do processo, seja proveniente de madeira, tecido de algodão, ou papel, pode ser trabalhada de inúmeras maneiras: em fio fiado ou de filamento, com ou sem brilho, em malhas leves ou pesadas, em tecidos leves e transparentes como chifon, em satim ou ainda em estrutura de jeans. Em teoria tudo que é celulose pode ser dissolvido através do líquido iônico e feito uma nova fibra de alta qualidade.

Dessa forma poderíamos obter as fibras de celulose das folhas do abacaxi, fibras internas dos troncos de bananeira, casca de maracujá, casca de coco, bagaço da cana de açúcar, urtiga, casca de melancia, entre outras frutas e plantas para criar tecidos 100% sustentáveis misturados com a polpa da madeira. Quando essa tecnologia estiver disponível no mercado, poderemos perguntar: “Que fruta você está vestindo hoje?”

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