A união da moda com a eletrônica está criando o novo nicho de mercado das roupas inteligentes, que para alguns são conceitos visionários e para outros uma oportunidade de negócio. Muitas empresas já entraram no mercado de tecnologia vestível, mas os altos custos do desenvolvimento de novos materiais inteligentes incorporados aos tecidos, deixam muitas empresas de fora. Por isso é importante unir forças para ultrapassar esses obstáculos e tornar a moda inteligente acessível as massas.

O mais interessante no design de moda é o fato de poder contar uma história. Há um poder emocional e o melhor da tecnologia, é que não há coisas impossíveis. O que quer construir? Que funções quer ter? Se houver uma união entre pesquisadores, empresas e governo, pode-se criar novas cadeias de produção mais inteligentes e sustentáveis onde tudo é possível.

A cidade de Berlim tornou-se num dos palcos privilegiados da chamada Fashion Tech, a fusão entre a moda e a tecnologia. Que oportunidades existem num setor que é profundamente vanguardista e que modelos de negócios estão em prática? O estúdio da Elektrocouture, em Berlim, é uma plataforma experimental de fusão entre moda e tecnologia, a chamada Fashion Tech. A sua missão é inovar. E, para isso, fornece acompanhamento a empresas e designers para a criação de roupa e acessórios vanguardistas.

Lina Wassong é uma das 7 designers residentes. Já escreveu dois livros sobre a Fashion Tech e começa a ser um dos nomes incontornáveis neste universo. “Trabalho com gente das mais diversas proveniências. Há pessoas da área da engenharia. Sempre que tenho alguma dúvida, peço-lhes ajuda”, diz ela. Lasers, impressoras 3D, equipamento interconetado, quase tudo o que é novas tecnologias aplicadas à área da moda encontra-se aqui. Lina criou um vestido, apresentado no salão da Fashion Tech de Berlim, que tem dado que falar. “O vestido tem uma estrutura impressa em 3D, uma técnica que escolhi porque cria formas muito originais que os equipamentos clássicos não permitem”, explica.

“Imaginemos que temos um ataque cardíaco. As roupas podem ser sensíveis a isso e ativar um sistema que chama o socorro. Há várias possibilidades e as tecnologias são uma ferramenta para alcançá-las”, afirma Lisa Lang, fundadora da Elektrocouture. As empresas inovadoras do setor criativo e cultural, como esta plataforma, que empregam cerca de 12 milhões de pessoas na Europa, podem receber ajudas à inovação através do programa europeu COSME.

Vamos falar de roupa experimental. Mas não nos referimos ao design, falamos sim do resultado do trabalho de um grupo de especialistas em microeletrônica na Alemanha. A verdade é que se trata de vestuário que poderá não só gerar, como armazenar energia para ser utilizada em aplicações.

O prestigiado instituto de investigação Fraunhofer, em Berlim, conta com cientistas que trabalham numa ideia muito particular: combinar diferentes nanomateriais para fazer com que as pessoas produzam energia através dos seus próprios movimentos. “Nós trabalhamos com frequências baixas e forças de intensidade reduzida para desenvolver pontos de concentração de energia eficientes”, diz o coordenador do projeto, Robert Hahn.

A energia pode ser armazenada para uma utilização posterior. Os investigadores deste projeto apoiado pela União Europeia também criaram baterias minúsculas e flexíveis que podem ser integradas no vestuário. “Nós introduzimos nanomateriais nos componentes utilizados nos elétrodos das baterias. Esses nanomateriais conferem uma densidade muito elevada a sistemas ínfimos. Mas isto tem de ser processado, a energia tem de se concentrar num só dispositivo. Outra questão central foi conseguir imprimir os nanomateriais”, afirma Hahn.

Roupas inteligentes - A revolução da moda multifuncional e conectada stylo urbano-1

Tanto as baterias como os pontos de recolha de energia resultam de uma complexa combinação entre nanofibras e nanopartículas de cerâmica. O processo de investigação passou por vários controles microscópicos para garantir que os componentes criavam e guardavam a energia de forma segura.

A eletroquímica Katrin Höppner explicou que “as baterias de iões de lítio atravessam vários processos diferentes durante a carga e a descarga. Os iões são intercalados e depois dá-se o oposto. Isto só funciona com uma determinada estrutura cristalina. Por isso é que é muito importante alcançarmos um processo muito depurado”.

Segundo o engenheiro de microssistemas Malte Von Krshiwoblozki, “o grande desafio é obter a flexibilidade mecânica dos componentes eletrónicos para os tornar extensíveis e, ao mesmo tempo, garantir a elasticidade das baterias para que todo o sistema preserve as caraterísticas do tecido no qual está integrado”.

A aplicação prática do conceito pode ser muito vasta e diversificada. “Nós adaptamos materiais já existentes para criar as baterias, não desenvolvemos as coisas de raiz. Acima de tudo, o que fizemos foi miniaturizar os elementos para criar baterias muito pequenas. Um dos campos de aplicação que mais interesse tem demonstrado é o da medicina”, aponta Robert Hahn. Estes cientistas afirmam que estes produtos poderão chegar ao mercado dentro de 5 anos.

Costuma dizer-se que as roupas que usamos revelam a nossa personalidade. E se mostrassem também o nosso estado de saúde? A moda do futuro já começou. No laboratório de inteligência artificial DFKI, em Kaiserslautern, na Alemanha, produz-se roupa. Mais precisamente, uma camisa que regista tudo o que comemos e bebemos. Como? Através dos sensores colocados no colarinho, que monitorizam os movimentos do pescoço durante a deglutição.

Esta tecnologia permite-nos monitorizar comportamentos do quotidiano. Se alguém, por exemplo, beber muito pouca água, podemos identificar uma possível desidratação. Também podemos utilizá-la no acompanhamento de pacientes com diabetes e aconselhá-los sobre os hábitos nutricionais que devem adotar. Podemos igualmente ajudar pessoas com excesso de peso”, disse Oliver Amft, professor da Universidade de Passau.

Os óculos são outra das soluções encontradas: estes investigadores desenvolveram uma armação que mede as diferentes vibrações do crânio quando o utilizador mastiga, identificando o alimento que está sendo ingerido.

Segundo Amft, “o grande desafio é conseguir integrar estas tecnologias em objetos que utilizamos no quotidiano, como as peças de vestuário e os acessórios. As pessoas que precisam mesmo de óculos estão constantemente com eles no rosto. Portanto, ao integrarmos os sensores de monitorização numa armação podemos apurar facilmente comportamentos alimentares”.

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O projeto europeu SimpleSkin desenvolve tecidos sintéticos onde se entrelaçam fibras polimerizadas com condutores à base de cobre ou prata. A coordenadora, Jingyuan Cheng, explica que se trata de um tecido “totalmente flexível e é permeável, ou seja, se transpirarmos, o ar pode circular. Por isso, é realmente confortável. Podemos também metê-lo na máquina de lavar. Já fizemos cerca de 40 testes e os sensores continuam a funcionar”.

É possível produzir este tipo de tecidos em larga escala? As técnicas e materiais aplicados, seja a impressão serigráfica ou elétrodos transparentes, costumam ser utilizados para fins industriais. O projeto integra uma empresa suíça que faz isso mesmo.“Nós já produzimos tecidos semelhantes para dispositivos fotovoltaicos. É fácil adaptarmos as nossas máquinas para fazer isto – basta proceder a alguns ajustes”, afirma Peter Chabrecek, responsável da empresa Sefar.

Foi também criado um tapete, por exemplo, que permite contar quantas pessoas estão numa determinada sala e identificar o seu modo de andar. Um princípio idêntico pode ser aplicado num assento que ajude a corrigir a postura.

“Os mesmos tecidos, a mesma eletrônica, as mesmas aplicações podem ser utilizados em áreas como o desporto, a saúde, a segurança e muitas outras. Esperamos que seja possível no futuro reduzir os custos e colocar este tecido inteligente no mercado”, salienta Jingyuan Cheng.

Fonte Euronews

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