O que vende mais do que sexo? Insegurança! Indústrias multi-bilionárias saturam nossas vidas com padrões de beleza inatingíveis, exportando o ódio ao corpo “fora dos padrões ideais” indo de Nova York a Beirute para Tóquio. Seu alvo? Mulheres, homens e crianças. O trailler do documentárioThe Illusionists mostra a hipocrisia dessas grandes corporações de cosméticos e de moda que criam falsas imagens idealizadas de como deveríamos ser só para nos explorar.

O documentário em si não não é exatamente algo novo pois já foram feitos outros documentários sobre o tema, mas será interessante ver como o filme abordará a ideia de beleza ocidental sendo forçada contra outras culturas e seus impactos a longo prazo.

Elena Rossini está familiarizada com a máxima da publicidade que muitas vezes repete “sexo vende“, mas ela acredita que as empresas perceberam que essa não é a melhor forma de comercializar os seus produtos. “A insegurança vende“. A mensagem é a seguinte: “Se você não está contente com sua imagem, você precisa gastar dinheiro, a fim de ficar bonito e, finalmente, ser feliz. ” Fim!

A cineasta nasceu na Itália, foi educada nos EUA e mora em Paris e tem trabalhado em seu documentário de longa-metragem, The Illusionists (Os ilusionistas). O filme faz uma análise dos ideais de beleza globais e como as grandes corporações têm interesse em perpetuar uma estética inatingível. Elena Rossini entrevistou pessoas da Europa, América, Japão, Índia e Líbano para descobrir como essas mensagens publicitárias afetam negativamente os consumidores.

The Illusionists denuncia os padrões de beleza inatingíveis criados pela propaganda stylo urbano
Documentarista Elena Rossini

Uma das linhas mais memoráveis do trailer do documentário é que “uma pessoa que se sente feliz e segura não vai ser um bem de consumo”. O documentário aborda como a constante insatisfação com o corpo feita pela propaganda constante é necessária é para manter o faturamento dessas empresas que exploram a miséria humana bem alto. “Se você ver uma mulher que tem 50 anos e ela está perfeitamente feliz com sua aparência natural, não usa nenhuma maquiagem, e não se preocupa com a roupa, ela não vai fazer qualquer dinheiro para as corporações”, diz Elena. “A fim de manter este ciclo interminável de consumo, o ideal é vender o inatingível.”

Elena Rossini descobri que antigamente o símbolo de status mais cobiçado para os compradores era ter um carro ou uma peça de roupa, mas agora são os tais “corpos ideais”. E para manter os consumidores gastando dinheiro os anunciantes acham que é necessário continuar inventando novos tipos de descontentamento, de modo que possa ser vendida para as pessoas a suposta “solução”.

Todos os anos há alguma nova parte do corpo que não estávamos cientes que era problemático, como o tornozelo ou a pele acima dos joelhos. Estou muito curiosa para ver o que vai acontecer daqui a cinco anos. Estou com a impressão de que já se esgotou cada parte do corpo, mas eu tenho certeza que eles vão vir com algo novo “, diz com Elena Rossini um riso irônico.

Ela também vê as ramificações globais em empurrar ideais de beleza ocidentais em países não-ocidentais através de tendências como o crescimento de cirurgia da pálpebra na Ásia ou rinoplastia no Oriente Médio. “Se você continuar vendo imagens centenas de vezes por dia que não se parecem com você, pessoas que são completamente diferente racialmente, você vai sentir que há algo errado com o seu próprio corpo.”

Através de sua pesquisa para o documentário, Elena também descobriu que o problema da hiper manipulação de imagens publicitárias está afetando faixas mais amplas da população. “As mulheres têm sido alvo por tanto tempo, agora os novos mercados são os homens e as crianças. Está ficando pior até o ponto que as crianças estão ficando cada vez mais auto-consciente sobre a forma como elas se olham. Meninas de três anos não querem ganhar peso, o que eu acho absolutamente perturbador.”

A atriz Lupita Nyong’o é a atual estrela de Hollywood. Queniana, de 31 anos, ela conquistou o Oscar de Atriz Coadjuvante, foi eleita a mulher mais bonita do mundo e se tornou a primeira garota-propaganda negra da marca de cosméticos Lancôme. Lupita usou seu sucesso para trazer à tona uma questão vivida por milhares de mulheres no mundo: elas sofrem com sua pele escura.

Numa palestra, Lupita contou ter recebido a seguinte mensagem de uma jovem: “Querida Lupita, você é muito sortuda por ser tão negra e, ainda assim, bem-sucedida em Hollywood. Eu estava prestes a comprar um creme para clarear minha pele quando você apareceu e salvou minha vida”. Lupita disse que ela mesma já quis ter a pele mais clara. Quando criança, rezava por isso todas as noites e se decepcionava por não ser atendida.

Tanto o Nívea Whitening for Men como o Fair and Lovely são cremes clareadores para homens, pois eles também odeiam a cor escura de suas peles e sonham em ser brancos.  A verdade é que na Índia ninguém gosta de pessoas de pele escura. Os indianos odeiam a própria cor da pele e tentam ficar brancos como Michael Jackson e isso é validado pelas atrizes e atores de Bollywood que servem de garotos propagandas para esses cremes de clareamento, que lembram constantemente que só os indianos de pele clara podem almejar o sucesso e riqueza.

Sem sucesso no trabalho, jovem mulher indiana com baixa alta estima por causa da cor de sua pele, decide clareá-la e passa a ter seu trabalho reconhecido e ainda ter a admiração de homens bonitos. Em ambas propagandas o creme é a “solução definitiva” que vai abrir as “portas do sucesso e riqueza” para quem os usa. Só que convenhamos! Vender um creme branqueador de pele não é o mesmo que vender um creme que combate rugas, um shampoo de volume ou um mísero batom. É um produto que mexe com questões raciais. Veja abaixo duas campanhas da Fair and Lovely.

E isso num país onde a maioria da população é declaradamente racista e infeliz com a cor da própria pele. Logo, é no mínimo questionável que essas empresas queiram adotar o mesmo discurso que se usa para vender um creme anti-rugas.

Isso é fruto de um passado racista e classista formentado pelos colonizadores ingleses que comandaram parte da Índia por 89 anos acirrando disputas entre os sistema de castas e que mesmo hoje, continua causando uma infinidade de problemas sociais. Mas para as empresas cosméticas isso pouco importa pois o que interessa a elas é lucrar com a insegurança das pessoas, e a Índia é um prato cheio.

Mocinho branco se separa da mocinha morena e se compromete com a mocinha branca. Mocinha morena, com a auto-estima em frangalhos, descobre o milagroso creme Ponds White Beauty e começa a usá-lo. Mocinho branco e mocinha cada vez menos morena se encontram casualmente algumas vezes.

Quando a mocinha morena já está com a pele suficientemente clara, mocinho branco a persegue e os dois terminam juntos. No youtube estão os 4 episódios completos da “saga racista”. Tradução: clareie a sua pele filhinha para conquistar um macho (preferentemente, de pele clara também). Ser escuro é feio e coisa de pobre.

E não satisfeitos em promover essa propaganda racista só na Índia, a empresa do creme Pond`s fez outra propaganda na Malásia com o mesmo roteiro mas com atores do país. Isso se chama eugenia, a mesma que os nazistas utilizaram contra outros povos que não fossem “arianos loiros de olhos azuis”.

Só que agora vem disfarçado numa embalagem publicitária “soft” com musiquinha e sentimentalismo barato com uma historinha de amor não correspondido. É uma completa lavagem cerebral principalmente contra as mulheres para abalar sua alta estima e serem presas fáceis.

A documentarista chegou à conclusão de que esses tipos de anúncios são uma forma de “doutrinação racista” em que todos nós estamos sujeitos. “Esta propaganda incessante que continua nos dizendo que temos que olhar de uma determinada maneira idealizada, é realmente tóxica.” Elena Rossini sugere que se as pessoas estão se sentindo negativamente impactadas por estas mensagens de marketing, ela recomenda não apoiar as empresas que comercializam estas imagens idealizadas ou excessivamente sexualizadas.

Quando perguntada sobre a principal mensagem que quer transmitir com o The Illusionists, Elena diz: “Para que as pessoas sejam conscientes de que o consumidor ideal é alguém que é infeliz e constantemente insatisfeito. Quando as pessoas estão sendo pressionadas para se comportar de uma determinada maneira, eu gostaria que elas percebessem que isso é parte dos interesse econômico de muitas corporações que querem lucrar em cima de sua infelicidade. Eu acho que essa consciência pode ajudar quando se trata de auto-estima e realmente fazer a diferença na forma como nós conduzimos nossas vidas. ” 

Tem algo de MUITO errado nisso ai. Muito errado mesmo e foi pensando nisso que Elena Rossini resolveu fazer o documentário The Illusionists abordando todos esses absurdos da qual a indústria da moda e da beleza lucram bilhões com a insegurança e baixa alta estima das pessoas. O documentário vai ser lançado em breve e para saber mais acompanhe suas páginas no twitter ou no facebook.

2 Comentários

  1. Como é duro ler isso. Há alguns anos eu conheci essas propagandas indianas e fiquei realmente chocada. E isso ocorre no mundo todo. É uma loucura, literalmente.
    A pessoa precisa se conhecer muito bem pra não cair na armadilha, que é tão fácil..

    Patricia

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