As vacas são a maior população de animais domesticados pelo homem, de onde tiramos uma grande quantidade de matérias primas para a indústria alimentícia, indústria química e indústria da moda. De todos os animais, as vacas são nossas principais fornecedoras de leite, carne, couro e fertilizantes naturais, e a importância desses animais para a indústria da moda é muito valiosa.

A seguir vou mostrar como esse “animal sagrado” da mitologia Hindu, foi, é e sempre será indispensável para a moda, principalmente no desenvolvimento de novos tecidos sustentáveis e inovadores. A pele de vaca, apesar de ser um dos couros mais pesados ​​e difíceis de curtir, é o mais barato, devido à sua enorme disponibilidade e resistência à sujeira e água.

65% de todos os produtos de couro produzidos em todo o mundo são feitas de bovinos, mas a produção de couro de vaca para a confecção de roupas, sapatos e bolsas utiliza produtos químicos tóxicos nos processos de curtimento da pele como o sal comum (na fase de conservação das peles), a soda cáustica, diversos ácidos,fungicidas (altamente tóxicos para o homem e o meio ambiente), solventes, cromo e outros metais (no curtimento mineral), sais diversos, corantes, óleos e resinas (no acabamento).

Tudo isso acaba envenenando os trabalhadores e poluindo as fontes de água nos países asiáticos onde as leis ambientais e trabalhistas não costuma ser respeitadas.

Bovinos, os "animais sagrados" da indústria da moda sustentável stylo urbano-1

Couro natural sustentável

Mas felizmente, na Europa, EUA, Brasil e outros países que tem leis ambientais mais rígidas, várias empresas buscam produzir couro bovino de forma mais sustentável. As empresas geralmente utilizam o couro bovino dos animais abatidos para a indústria alimentícia, onde a pele é um subproduto. Algumas empresas mais responsáveis, fazem o curtimento do couro bovino com tanino vegetal, sem cromo nem metais pesados que prejudicam a saúde humana e o meio ambiente. O couro bovino é lindo, tem ótima resistência, durabilidade, várias utilidades e é biodegradável.

Como os consumidores internacionais estão se importando cada vez mais com a moda sustentável, alguns fabricantes e exportadores de couro no Brasil, estão optando pela recente Certificação de Sustentabilidade do Couro Brasileiro (CSCB) uma iniciativa do Centro das Indústrias de Curtumes do Brasil (CICB), que é a primeira certificação do mundo para a indústria do couro, focando em padrões sustentáveis de produção econômica, social e ambiental. Os tênis da marca francesa VERT são feitos do couro curtido com tanino vegetal.

Tecidos de leite azedo

A microbiologista e estilista alemã Anke Domaske viu o grande potencial do leite azedo como matéria-prima. Ela o usa para fabricar fibras têxteis e biopolímeros que oferecem possibilidades ilimitadas para aplicações. É assim que ela não só faz roupas sustentáveis, mas também para a fabricar produtos eletrônicos.  A fibra de leite é derivada da caseína, a principal proteína do leite, com o qual pode-se obter uma fibra artificial muito semelhante à lã.

A caseína necessária para a sua realização é extraída somente a partir de leite azedo, tornando-se também um projeto muito inteligente de reciclagem pois só na Alemanha, 2 milhões de toneladas de leite azedo são jogados fora todo ano. O QMilk fez grandes progressos no sentido da sustentabilidade: a fabricação requer apenas 2 litros de água para cada quilo de produto, nenhum agente químico e zero produção de resíduos. As pessoas que mudam o mundo estão ocupadas criando coisas que tornam o mundo melhor. Elas são os heróis da inovação.

Seda de leite de vaca

A seda é uma fibra natural forte, elástica e biodegradável, mas também é cara por ser meticulosamente colhida a partir dos bichos da seda. Visando criar uma outra alternativa, cientistas suecos e alemães começara a produzir uma nova seda artificial de baixo custo feita da proteína do soro de leite de vaca. No estudo feito por pesquisadores do Instituto Real de Tecnologia da Suécia (KTH) as nanofibrilas foram formadas por uma proteína do soro do leite de vaca sob a influência de calor e ácido.

Isso fez com que se formassem nanofibrilas, que são essencialmente pequenos fios de proteína. Quanto maior a concentração de proteína de soro de leite na solução, mais curtas e mais finas são as cadeias. Num processo conhecido como focagem hidrodinâmica, um líquido transportador contendo as nanofibrilas foi então bombeado através de um pequeno tubo.

Quando as correntes de água entraram no tubo perpendicularmente ao eixo de ambos os lados, os nanofibrilas foram espremidas entre eles (veja a ilustração abaixo). Como resultado, eles formaram uma fibra de seda. A tecnologia ainda está em faze de desenvolvimento mas alguns anos, teremos no mercado tecidos de seda baratos feitos de soro de leite de vaca. Fonte: DESY

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Tecidos feitos de esterco

Já pensou vestir uma roupa cujo tecido foi feito a partir de esterco de vaca? Sim isso existe e foi feito através de processos químicos, para transformar algo ordinário em algo com valor. O esterco é um problema sério na Holanda, onde a indústria de laticínios em expansão já ultrapassou o chamado “teto de fosfato” de 172,9 milhões de quilos por ano.

Essa quantidade de fosfato indo parar nos cursos de água pode levar a proliferação de algas , que roubam oxigênio da vida aquática e são potencialmente tóxicos para as pessoas. Para ter menos esterco é necessário diminuir a quantidade de vacas, e para a país que é um grande produtor de leite, manteiga e queijo, esse é um compromisso que os agricultores não estão felizes em assumir.

Felizmente, a designer holandesa Jalila Essaïdi criou uma solução inusitada. Para “desconstruir” o esterco, Jalila trabalhou em parceria com o BioArtLab para criar um processo químico capaz de capturar a celulose de dentro do esterco e transformá-lo em bioplásticos, biopapéis, e até mesmo biotecidos. Ela nomeou o projeto de Mestic. O nome Mestic deriva de mest , a palavra holandesa para o esterco. Veja mais aqui.

Tecidos feitos de músculos e ossos

Que tal usar uma roupa cujo tecido é feito de gelatina? Pesquisadores do Laboratório de Materiais Funcionais na Universidade ETH em Zurique, Suíça, desenvolveram uma nova maneira de criar fibras de resíduos de matadouros. Suas fibras são de alta qualidade, tem um brilho atraente em comparação com lã natural, e fornece excelente isolamento.

A patente de fibras têxteis feitas a partir de gelatina foi feita primeiramente em 1894, mas o surgimento das fibras sintéticas fez com que as fibras de proteínas biológicas saíssem do mercado. Mas ao longo dos últimos anos, tem havido um aumento na demanda por fibras naturais produzidos a partir de recursos renováveis, utilizando matéria prima reciclada. Philipp Stössel, um estudante de PhD no Laboratório de Materiais Funcionais na ETH, já desenvolveu um novo método de obtenção de fibras de alta qualidade a partir de gelatina.

O componente principal da gelatina é o colágeno e grandes quantidades de colágeno são encontradas nos resíduos de pele, ossos e tendões que sobram do abate dos bovinos nos matadouros. Este colágeno encontrado nos resíduos podem ser facilmente convertidos em gelatina e essa nova técnica poderia proporcionar um uso adicional para as sobras alimentares. Veja mais aqui.

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Couro feito em laboratório

Em 2050 quando a população mundial chegar aos 10 bilhões, vamos ter que criar 100 bilhões de animais em fazendas para prover toda carne, laticínios, ovos e couro que a população mundial precisar. Manter essa imensa quantidade de animais vai ter um custo enorme em nosso planeta. E se houver outro jeito? Uma vaca leva três anos para crescer com o tamanho e peso adequados antes de ser abatida. Ao longo destes três anos a vaca vai consumir cerca de 1.300 quilos de grãos (trigo, aveia, cevada ou milho) e 7.200 quilos de alimentos grosseiros (pastagem, feno seco ou silagem).

A produção de todos esses grãos e outros alimentos grosseiros requer cerca de 3.060.000 litros de água. A vaca vai beber quase 24.000 litros de água também. Finalmente, cerca de 7.000 litros de água serão utilizados na manutenção da fazenda e para o processo de abate. Isso gera um total de 3.091.000 litros de água para produzir os 537 kg de carne, ossos e pele da própria vaca ou cerca de 7.756 litros por quilograma (Hoekstra & Chapagain, 2008). Agora multiplique isso para todo o rebanho de vacas do mundo!

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Segundo o cientista da engenharia de tecidos, Andras Forgacs, a biofabricação de carne e couro é um jeito mais racional e sustentável para diminuirmos as enormes áreas de terras, água, energia e alimentos necessários na criação e abatimento desses animais para fabricar comida, roupas e acessórios. Andras Forgacs é um dos fundadores da Modern Meadow e pioneiro no campo da biofabricação, e através do seu trabalho inovador, ele e sua equipe desenvolveram um meio de cultivar couro e carne genuínos em laboratório utilizando somente as células dos bovinos. Veja mais aqui.

Entre os animais, a vaca com certeza, é a que mais contribui para a indústria da moda. Na moda sustentável temos as possibilidades de utilizar couro feito com tanino vegetal, sem cromo nem metais pesados, no futuro teremos o couro crescido em laboratório além de tecidos feitos de soro de leite, esterco e até gelatina. De uma forma ou de outra, a vaca vai se tornar o “animal sagrado” da moda sustentável.

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