Desde o desastre da fábrica Rana Plaza em Bangladesh há 3 anos, que foi o maior desastre na industria da moda, milhões de pessoas ficaram sabendo onde e de que forma as roupas baratas vendidas nas grandes redes de fast fashion são produzidas. Esse evento chamou muita atenção na mídia e nas redes sociais mostrando aos consumidores que a maior parte das roupas, acessórios e tecidos que compramos são produzidos na Ásia poluindo o meio ambiente e em alguns casos até explorando mão de obra escrava de adultos e crianças.

O episódio do Rana Plaza acabou contribuindo para o surgimento de novas empresas de moda sustentável que veem a economia circular como o futuro da indústria. Isso está acontecendo devido aos seguintes fatos:

Conheça três empresas de private label focadas na moda sustentável stylo urbano-1

Como resolver os problemas de exploração, poluição e desperdício na moda? Primeiramente é necessário uma mudança de consciência dos empresários e consumidores como também a criação de novas tecnologias de produção e reciclagem para criar uma indústria da moda circular. Felizmente estão surgindo várias empresas que investem em roupas feitas de tecidos orgânicos e reciclados fabricados de forma ética sem explorar os trabalhadores.

A seguir você irá conhecer três empresas que apostam no conceito da moda circular produzindo roupas em grande escala de forma sustentável. São empresas de private label que se enquadram no conceito do hybrid fashion, e são exemplos reais de como funcionaria no Brasil o parque industrial de moda sustentável que apresentei neste post.

A Continental Clothing é uma das maiores atacadistas de roupas sustentáveis da Europa e fornece para várias marcas de varejo, promoções corporativas e de lazer. A Companhia possui três marcas premiadas: Continental, Earth Positive e Salvage, que estão entre as marcas de vestuário mais sustentáveis do mundo.

A empresa fabrica roupas básicas em diversas cores para seus clientes estamparem, disponibilizando 1,5 milhão de peças em estoque no seu armazém no Reino Unido para ser entregue rapidamente. Mas além de seu estoque de roupas prontas a empresa também produz sob encomenda. Toda produção é feita em fábricas certificadas na Turquia e Índia.

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Começando com a utilização de matérias-primas totalmente certificadas, a Continental Clothing garante a rastreabilidade completa de todas as fibras, utilizando o algodão Better Cotton, Tencel, viscose de bambu e poliéster reciclado na coleção Continental, algodão 100% orgânico certificado na coleção Earth Positive e algodão orgânico reciclado pré-consumo (60%) misturado com poliéster reciclado pós-consumo (40%) na coleção Salvage.

Os tecidos orgânicos certificados são tingidos com pigmentos não tóxicos, onde toda a água é reciclada em um sistema de circuito fechado.A empresa criou a linha Fair Share para dar um aumento salarial de 50% aos trabalhadores mais pobres em sua fábrica na Índia.

Fundada em 2012, a Stanley & Stella é uma fabricante private label  de roupas sustentáveis com sede na Bélgica que além da qualidade de produção, utiliza as mais recentes inovações em tecnologia digital e gerenciamento de dados, para conseguir implantar suas operações em mais de 100 países e conseguir atender a 710 varejistas de moda globalmente, prestando serviços ao cliente sob medida para fabricação de moda premium feita de algodão 100% orgânico, Modal, Tencel, linho e lã de origem certificada (em conformidade com as normas GOTS e Oeko Tex) com preços justos.

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A maior parte da fabricação é feita na China e Bangladesh, e para alguns estilos específicos em Portugal e Turquia. A empresa trabalha com 7 fábricas diferentes que lhes permite ter um melhor controle da qualidade, a certeza de que todos os padrões de sustentabilidade são respeitados e que os trabalhadores estão sendo bem tratados e recebendo salário justo com a ajuda da organização Wear Fair. À medida que cresce o número de consumidores que preferem comprar de forma responsável, marcas como a Stanley & Stella estão se tornando uma referência na moda.

A empresa também está explorando a Internet das coisas, com etiquetas inteligentes que rastreaiam cada item que se move através da cadeia de abastecimento, indo do campo para a fábrica e por último as lojas. Os clientes poderão verificar esses chips com seus smartphones para saber exatamente a origem da matéria prima, tipo de tingimento e onde foi feita a fabricação das roupas que compram.

O lado sombrio da fabricação de moda na Ásia é um tema muito discutido devido a baixa qualidade das roupas, condições de trabalho deploráveis e fábricas que estão em mau estado. Isso é algo que os empresários finlandeses Anders Bengs e Jukka Pesola, fundadores da empresa Pure Waste, estão plenamente conscientes. Criada em 2013, a Pure Waste produz camisetas, moletons e calças de alta qualidade a partir de resíduos têxteis para vender em seu site e também produz private label para outra marcas.

As peças podem feitas de algodão 100% reciclado ou uma mistura de 70% algodão reciclado com 30% poliéster reciclado. Em um ano e meio, a empresa economizou 200 milhões de litros de água doce, fazendo produtos de algodão reciclado. A água economizada vem da reciclagem pois os agricultores necessitam de 11 mil litros de água para cada quilo de algodão. Além de economizar água a marca recolhe e recicla todos os retalhos de tecidos que sobram das confecções para transformá-los em novos fios onde são classificadas de acordo com a cor e qualidade.

Para fazer uma camiseta preta, por exemplo, os resíduos de tecido preto são recolhidos, picotados e transformados em fio preto. Esse processo reaproveita toda água, fibra e tingimento que foram gastos para se fabricar o tecidos original. Nas fábricas sobram cerca de 10 a 15 por cento de tecidos que vão para o lixo pois são retalhos, e esses retalhos de tecidos são suficiente para produzir mais roupas. O truque é torná-lo utilizável novamente.

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Atualmente a Pure Waste vende roupas básicas em sua loja online para homens e mulheres nas cores branco, preto e cinza. Ao comprar uma camiseta, o cliente recebe um lembrete da quantidade de água economizada: um total de 2.700 litros. Esta inovadora empresa finlandesa construiu sua própria fábrica de reciclagem têxtil em Tamil Nadu na Índia que é alimentada por energia eólica e solar. A Índia é um dos maiores recicladores têxteis do mundo e recebe toneladas de roupas e tecidos velhos enviados pelos EUA e Europa para serem reciclados em mantas e cobertores.

Além de ser ecológico, roupas recicladas também são mais acessíveis segundo Jukka Pesola pois custam de 20 a 30 por cento mais barato do que roupas feitas de novos materiais, desde que os volumes de produção sejam altos o suficiente. Cerca de 200 funcionários foram contratados localmente pela fábrica mas o número total pode subir para 500. De acordo com empresários, a empresa tem a intenção de respeitar as leis locais, mas também prestar atenção aos valores ambientais e éticos.

A Continental Clothing, Stanley & Stella e Pure Waste são três exemplos perfeitos de empresas de hybrid fashion que fabricam em grande escala roupas sustentáveis de forma ética com um preço acessível às massas. Obviamente que o preço não é tão baixo como nas redes de fast fashion mas são mais baratos que as as marcas de slow fashion. Essas empresas são a prova de que a moda circular não é só possível mas é o futuro da indústria.

O Brasil já teve uma marca de moda 100% sustentável focada no varejo e não private label. A Eden Organic criada em 2008 pelo empresário Jorge Yammine foi a primeira loja 100% orgânica do país. A marca foi idealizada após um trabalho com a YD Confecções onde um cliente queria produzir um modelo de roupa que exigia um processo de lavagem prejudicial à saúde dos funcionários. Ao tentar discutir o pedido, ele recebeu a seguinte resposta: não importava o quanto fosse prejudicial. Depois de negar o pedido, Yammine estudou processos envolvendo produtos naturais e criou a Eden.

Infelizmente a loja não existe mais mas seu conceito de produção sustentável é o mesmo das empresas de private label mencionadas acima. O maior desafio da moda ética e sustentável é conseguir ter preços competitivos para às massas e isso só é possível produzindo em grande escala. Empresas de private label como a Continental Clothing, Stanley & Stella e Pure Waste conseguiram diminuir seus custos com alto volume de produção e com isso fornecer para diversas marcas de moda. Empresas como essas são as mais eficientes em democratizar e tornar mais acessível a moda ética e sustentável.

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