Dispositivos conectados a Internet são tão comuns e também vulneráveis, que hackers conseguiram invadir e roubar um casino através do seu aquário de peixes que tinha sensores ligados à Internet medindo a sua temperatura e limpeza. Os hackers invadiram os sensores do aquário para ter acesso ao computador que o controla, e a partir daí, invadiram outras partes da rede do casino. Os intrusos foram capazes de copiar 10 gigabytes de dados para algum lugar na Finlândia.

Ao olhar para este aquário de peixes, podemos ver o problema com os dispositivos da “internet das coisas”: Nós realmente não os controlamos, e não sabemos quem realmente está, embora muitas vezes os designers de software e anunciantes estão envolvidos. Em seu livro “Propriedade, Privacidade e a Nova Servidão Digital ”, o professor de direito Joshua A. T. Fairfield mostra os perigos do planeta inteiro ser invadido com trilhões de sensores inteligentes que tem acesso a nossa privacidade e são vulneráveis a invasão de hackers .

Nossos aquários, carros, casas, eletrodomésticos, eletrônicos, roupas, wearables e smartphones inteligentes com acesso à Internet conseguem reunir informações sobre nós e nosso meio ambiente constantemente. Essa informação é valiosa não apenas para nós mas para as empresas que querem nos vender coisas. Elas garantem que os dispositivos conectados à internet são programados para compartilhar nossas informações.

Tomemos, por exemplo, Roomba, o aspirador de pó robótico. Desde 2015, eles têm criado mapas das casas de seus usuários, para navegar de forma mais eficiente através delas durante a limpeza. Mas, como a Reuters relatou recentemente, a fabricante do Roomba, iRobot, pode compartilhar os mapas dos layouts das casas particulares com seus parceiros comerciais. Isso é invasão de privacidade!

Empresas criam brechas de segurança e privacidade 

Como o Roomba, outros dispositivos inteligentes podem ser programados para partilhar a nossa informação privada com centenas de anunciantes dos quais não temos conhecimento. Em um caso ainda mais íntimo do que o Roomba, um dispositivo de massagem erótica controlado via smartphone, chamado WeVibe, recolheu informações sobre quantas vezes, com que configurações e em que momentos do dia o aparelho foi usado.

O aplicativo WeVibe enviava os dados de volta para o fabricante que concordou em pagar vários milhões de dólares quando os clientes descobriram e processaram a empresa por invasão de privacidade. Esses canais de colheita de informação dos clientes também são uma falha de segurança grave. A fabricante de computadores Lenovo, por exemplo, usou para vender seus computadores um programa pré-instalado chamado “Superfish”.

O programa foi concebido para permitir a Lenovo, ou empresas que pagavam, inserir secretamente anúncios direcionados para os resultados de pesquisas na página web dos usuários. A forma como ela fez isso era perigoso pois sequestrava o tráfego dos navegadores de internet sem o conhecimento do usuário, incluindo comunicações que os usuários achavam que eram criptografadas, como conexões com bancos e lojas online para transações financeiras.

Imagine então viver numa casa com vários aparelhos inteligentes que monitoram toda sua rotina diária e preferências, cujos dados são enviados para os fabricantes que optam por vendê-los a outras empresas ou mesmo uma invasão de hackers nos dispositivos para monitorar sua casa sem seu conhecimento? Essa casa inteligente é um tipo de prisão tecnológica corporativa, e será vendida pelo marketing como a coisa mais incrível do mundo. Com a Internet das Coisas, estamos construindo um Big Brother do tamanho do mundo. Como vamos ter privacidade com isso?

O problema é a propriedade

Um dos principais motivos pelo qual não controlamos nossos dispositivos é que as empresas que os fabricam pensam e agem como se elas ainda os possuíssem, mesmo depois de os terem vendido. Você pode comprar o smartphone, mas o argumento das empresas é que você comprou apenas uma licença para usar o software que vem dentro dele. As empresas alegam que ainda possuem o software, e como ele é de sua propriedade, elas podem controlá-lo. É como se um revendedor de automóveis vendesse um carro, mas reivindicasse a posse do motor.

Este tipo de arranjo acaba com o conceito básico de propriedade privada, mas as pessoas estão dispostas a deixar as coisas como estão quando se trata de smartphones, pois eles são frequentemente comprados parceladamente e depois vendidos o mais cedo possível. Quanto tempo levará até que as empresas comecem a aplicar as mesmas regras às nossas casas inteligentes, televisores inteligentes em nossas salas de estar e quartos, banheiros inteligentes e carros com acesso à Internet? Você compra o produto mas a empresa ainda detêm o controle do software que está dentro dele.

Um retorno ao feudalismo?

A questão de quem consegue controlar a propriedade tem uma longa história. No sistema feudal da Europa medieval, o rei possuía quase tudo, e os direitos de propriedade de toda população dependia de seu relacionamento com o rei. Os camponeses viviam na terra concedida pelo rei a um senhor local, e os trabalhadores nem sempre possuiam as ferramentas utilizadas para agricultura ou outros ofícios como carpintaria e ferraria.

Ao longo dos séculos, as economias ocidentais e os sistemas jurídicos evoluíram para nosso acordo comercial moderno onde as pessoas e empresas privadas, compram e vendem terra, ferramentas e outros objetos sem rodeios. Além de algumas regras básicas do governo, como a proteção ambiental e de saúde pública, a propriedade pertence a quem comprou ou herdou.

Este sistema significa que uma fabricante de carro não pode me impedir de pintar meu carro num tom de rosa choque ou de comprar óleo adulterado em qualquer oficina que eu escolher. Posso até tentar modificar ou corrigir o meu carro eu mesmo. O mesmo é verdade para a minha televisão, minha casa e minha geladeira.

No entanto, a expansão da internet das coisas parece estar nos trazendo de volta para o antigo sistema feudal onde as pessoas não possuem realmente os itens que usam todos os dias. Nesta versão do século XXI, as empresas estão usando a lei de propriedade intelectual, destinada a proteger idéias, para controlar os objetos físicos que os consumidores pensam que são de sua propriedade.

Este agora é o nosso relacionamento com empresas de tecnologia?

Controle da propriedade intelectual

Meu telefone é um Samsung Galaxy. O Google controla o sistema operacional e o Google Apps faz o Android funcionar bem no smartphone. O Google os licencia para a Samsung, que faz a sua própria modificação para a interface do Android, e sublicenças me dão o direito de usar o meu próprio telefone ou pelo menos é o argumento do Google e Samsung. A Samsung vende meus dados aos fornecedores de software que querem utilizá-los para seu próprio uso.

Mas este modelo é um absurdo. Nós precisamos ter o direito de possuir nossa própria propriedade e de expulsar os anunciantes invasivos para fora de nossos dispositivos. Precisamos da capacidade de desligar as informação que são repassadas para os anunciantes, não apenas porque não aceitamos ser espionados, mas porque oferecem riscos de segurança, como as histórias do Superfish e o aquário de peixes. Se não temos o direito de controlar nossa propriedade, nós realmente não a possuímos. Nos tornamos apenas camponeses digitais, usando as coisas que compramos com nosso dinheiro mas que pertencem ao nosso senhor digital, ou seja, as corporações.

Mesmo que as coisas parecem sombrias agora, há esperança. Nos últimos anos houve progresso na recuperação da posse desses barões digitais nos EUA e no Brasil se discute leis de proteção a dados pessoais. O que é importante é que os consumidores comecem a rejeitar o que essas empresas estão tentando fazer, para exercer nossos direitos de utilizar, reparar e modificar nossa propriedade inteligente, e apoiar os esforços para fortalecer esses direitos. A ideia de propriedade é ainda poderosa em nossa imaginação cultural, e que não irá morrer facilmente. Isso nos dá uma janela de oportunidade. Espero que possamos explorá-la.

Via:  The Conversation

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