Em 2015, a pesquisadora de tendências Li Edelkoot abalou a indústria da moda com seu manifesto “Anti-Fashion“, questionando as limitações da moda atual e seus problemas. Li Edelkoort, é apaixonada pela moda e não deseja estabelecer uma avaliação pessimista do mercado, mas procura educar as pessoas sobre a importância do trabalho colaborativo feito com paixão e de acordo com os valores humanos.

Com o crescimento da industrialização da moda, as máquinas ocuparam mais espaço do que o artesão, e o desafio do manifesto de Edelkoot é dar um novo significado à moda. Ela acredita que o método de criação coletivo é essencial e deve ser ensinado nas escolas de moda, o mais rapidamente possível. A economia colaborativa afetou muitos setores da nossa sociedade e deveríamos nos questionar: será que a criação coletiva é o futuro da moda?

Marcas de moda são construídas em torno de um coletivo

Nas marcas de moda atuais, o nome do criador ofusca o restante da equipe, mas estão surgindo novas marcas onde não existe a figura do criador onipotente, mas tende a valorizar o trabalho de uma comunidade ou um grupo. Um exemplo recente é o colectivo de moda V-Files de Nova York. Esta comunidade online participa anualmente da Semana de Moda de Nova York, onde marcas jovens são previamente escolhidas através da Internet por um sistema de votação.

Poderia a criação coletiva criar novas perspectivas para o futuro da moda stylo urbano-1

A marca incentiva seus seguidores a ter um impacto direto sobre a organização dos eventos. No Rio de Janeiro temos outro exemplo através da Casa Geração Vidigal que é um coletivo de estilistas criado pela francesa-carioca Nadine Gonzales.

A Casa Geração Vidigal é um misto de escola de moda, galeria de arte e loja criada para formar novos estilistas que vivem nas comunidades do Rio de janeiro e promover o intercâmbio entre estilistas estrangeiros e as cooperativas. A Casa Geração Vidigal é um dos integrantes do projeto Malha, o maior espaço de moda colaborativa do Brasil que você pode conhecer aqui.

Este novo modelo de fazer moda deseja perturbar os códigos estabelecidos, e de certa forma, tirar o foco do indivíduo para o coletivo. O pioneiro neste conceito é Martin Margelia que, no início de sua carreira, trabalhou no anonimato evitando qualquer tipo de exposição pública. Esta ideologia também faz parte do coletivo Vetement, que consiste em figuras anônimas, exceto Demna Gvasalia que serve como a voz coletiva, e que já trabalhou 4 anos na Margiela.

O coletivo Vetement perturba os códigos da indústria, e por isso se tornou a marca queridinha dos fashionistas. Seu nome em si funciona como uma provocação: na Vetement, você só vai ver as roupas. Este posicionamento vem em resposta a esta cultura de marca pessoal e culto à personalidade.

A integração do consumidor no processo criativo

Empresas de economia colaborativa estão fazendo sucesso, como é o caso da Airbnb, BlaBlaCar e Uber, cujo negócio é o intercâmbio de bens e defende uma hierarquia horizontal. Essa abordagem visa reduzir a relação de subordinação entre o consumidor e a marca como é o caso da coreana Rooy, que baseou todo o seu conceito integrando o consumidor no processo criativo, envolvendo os usuários em competições para criarem modelos de tênis cuja produção será feita mediante a maioria dos votos.

A Rooy consegue envolver toda uma comunidade de entusiastas ao redor do projeto de design do tênis. Uma marca pioneira no trabalho coletivo na França é a La Boutonniere que permite conectar marcas e consumidores para juntos co-criarem coleções. Este modelo agrada porque, segundo o site: “Os consumidores querem interagir com as suas marcas e seus produtos, eles querem ser parte da aventura e sua experiência.” 

As gerações de consumidores Y e Z estão disposto a se envolver nos produtos que consomem e na criação destes para dar um novo significado ao próprio ato de consumo. O Studio Mazé se define como um “coletivo multidisciplinar“, e para eles o prêt-à-porter morreu em favor do prêt-à-composer. A marca, que atualmente tem uma loja pop-up em Paris, advoga em favor do coletivo dizendo que existe uma vontade das marcas educarem o consumidor para que ele assuma o poder e se aproprie do vestuário.

Esta abordagem de integração do consumidor no processo criativo também envolve operações de personalização do produto pelo cliente. Seguindo a tendência do “faça você mesmo“, onde as marcas aproveitam o fenômeno, oferecendo aos clientes o serviço exclusivo de personalização de roupas e acessórios com fez a Gucci, que lançou em 2015 o serviço Gucci DIY que você pode ver aqui e aqui.

De acordo com Alessandro Michele, diretor artístico da grife italiana, este serviço de personalização estimula a mente criativa do cliente na criação de uma peça exclusiva.

Poderia a criação coletiva criar novas perspectivas para o futuro da moda stylo urbano-2

A crise de identidade que atravessa a indústria da moda atual é apenas um reflexo da crise de identidade em nossa sociedade. O modelo industrial, especialmente aplicado a moda, contribuiu para esse sistema de desumanização. Diante disso, novas iniciativas estão surgindo para propor alternativas mais centradas em torno de valores humanos.

A criação coletiva e o modelo de economia colaborativa surgem como uma solução para mudar positivamente nosso sistema egocêntrico. É todo o processo de consumo que está sendo criticado, como observa Li Edelkoort em seu manifesto:

“As pessoas já não querem possuir ou consumir montanhas de roupas. Estamos entrando em uma era onde a posse não é mais importante. Alugar, partilhar, trocar e as compras coletivas são as novas formas de consumir.”  A criação coletiva e a economia colaborativa vão mudar a forma de consumir moda.

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