Anualmente, toneladas de roupas usadas são enviadas da Europa e dos EUA para diferentes países na África, criando grandes problemas em algumas áreas. Por um lado, é louvável as instituições de caridade coletarem e enviarem essas roupas de segunda mão para ajuda aos muitos milhões de africanos que vivem na pobreza, mas por outro lado criou uma crescente indústria de contrabando que está prejudicando gravemente a indústria têxtil local, relata o The Guardian.

Como revelou o jornal britânico, cerca de um terço das roupas dadas pelo mundo ocidental acaba em casas de atacado na África sub-saariana, que são os locais de onde são distribuídas para pequenas boutiques ou vão parar mesmo é nas barracas de rua.

No início, até parece ser uma situação de ganha-ganha para todos os envolvidos pois as Instituições de caridade ocidentais recebem ajuda financeira, os compradores africanos com fraco poder de compra podem comprar roupas de baixo preço, e os comerciantes que vendem roupas mais bem feitas encontram clientes ansiosos por sua mercadoria.

Mas alguns especialistas dizem que a chegada em massa de roupas usadas ocidentais poderiam ter um impacto muito mais negativo.

Doações de roupas usadas estão destruindo a indústria da moda na África stylo urbano-1

Esta indústria lucrativa, disse o The Guardian, tem levado ao surgimento de falsas ONGs “de ajuda humanitária” que coletam toneladas dessas roupas do ocidente enganando aos pessoas lucrando milhões de dólares. Alguns vêem esta situação de forma favorável: as roupas vendidas mais baratas também proporcionam empregos.

Os críticos, no entanto, não são tão certos sobre isso. Essa crescente indústria vale mais de um bilhão de dólares desde 1990 na África, e está ameaçando seriamente os mercados têxteis domésticos que já são frágeis. Além das roupas de segunda mão os países africanos tem ainda a concorrência das roupas baratas vindas da China. Veja o vídeo abaixo de fábricas têxteis que foram fechadas na África por causa da indústria das roupas de segunda mão.

Grande negócio

Analistas dizem que as indústrias têxteis são relativamente fáceis de desenvolver e podem fornecer o primeiro passo para a escada em direção ao crescimento econômico. Um setor de vestuário em expansão gera receitas através de impostos nacionais e gera muitos postos de trabalho.

Mas na África, com a introdução de políticas de liberalização do comércio e a abertura das economias nos anos 1980 e 1990 permitiu tanto a entrada tanto de roupas de segunda mão como as importações baratas, especialmente de países asiáticos, para entrar em mercados em todo o continente.

A história econômica demonstra que a indústria têxtil e de vestuário é um dos primeiros setores que levam um país na direção da industrialização pois são setores mais fáceis de serem implementados. Mas a invasão das roupas mais baratas demoliu muitas indústrias locais e levaram ao fechamento de várias fábricas de roupas africanas por todo continente africano.

De acordo com um relatório de 2006, os empregos no setor têxtil e de vestuário em Gana diminuíram 80%  entre 1975 e 2000; na Zâmbia caiu de 25.000 trabalhadores na década de 1980 para menos de 10.000 em 2002 e na Nigéria o número de trabalhadores caiu de 200.000 para um número insignificante.

Enquanto isso, as roupas de segunda mão tornaram-se uma indústria altamente lucrativa nos mercados africanos. Embora os números exatos em todo o continente são difíceis de encontrar, as exportações de roupas usadas de países ocidentais ficou em US $ 1,9 bilhão em 2009, segundo dados da ONU de 2011.

No entanto, esses dados são subestimados em grande parte por causa do contrabando generalizado de roupas usadas que ocorre em muitos países que não estão documentados em estatísticas oficiais. A melhor estimativa que, provavelmente, dá o valor do comércio mundial de vestuário em segunda mão seria cerca de US $ 3 bilhões,pois esse é o custo de importação e quando as coisas são vendidos no varejo, provavelmente chega-se ao dobro disso.

Difícil competir

Para muitas pessoas em toda a indústria de moda na África, isso limita a produção local de roupas e evita que o seu setor se desenvolva. A designer Sylvia Owori, que tem um negócio em Kampala por mais de uma década, diz que é muito difícil para disputar o mercado de segunda mão.

“Provavelmente 90% das pessoas que estão comprando roupas em todo o país, compram roupas de segunda mão”, diz Sylvia. “É uma indústria multimilionária e como sou um peixe pequeno, como é que vou começar a competir com isso?”

O detalhe é que Sylvia Owori está competindo com roupas usadas das grandes marcas de fast fashion como Zara, H&M, Forever 2, American Eagle Outfitters, Top Shop, Mango, Gap, River Island entre outras que gastam bilhões com publicidade pelo mundo, e isso influência a população africana omo acontece nos outros países.

Para lidar com o problema, uma série de países africanos proibiram as importações de roupas de segunda mão nos últimos anos como parte dos esforços destinados a proteger as suas indústrias têxteis nacionais. Entre elas estão as duas maiores economias do continente, a África do Sul e a Nigéria, enquanto muitos outros países também estão debatendo restrições.

Mas há também uma outra ameaça para as indústrias locais: as importações chinesas, que são ainda mais baratas do que as roupas de segunda mão ocidentais e roupas feitas localmente.

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“Um dos problemas é que estas indústrias de vestuário locais são muitas vezes mais caras do que as roupa que são produzidas na Ásia”, diz Sylvia Owori. “Então, se você proibir roupas de segunda mão, por vezes, esta é substituída por importações de vestuário provenientes da China ou outro lugar no Extremo Oriente.”

A designer diz que está resignada com a realidade de sua concorrência. Ela acrescenta, porém, que ela aguarda com expectativa o dia em que as empresas de jovens estilistas como ela própria venham um dia a prevalecer. “Por mais que eu não goste de roupas de segunda mão, eu não tenho alternativa”, disse ela.

“Eu não posso fazer roupas suficientes para suportar uma população de 33 milhões. Então, precisamos realmente primeiramente fazer crescer a fabricação e produção de empresas locais para então dizer, ‘OK, todas as outras coisas não podem entrar.”

Embora usar camisetas, jeans e vestidos possa satisfazer uma necessidade básica de roupas a preços acessíveis, em última análise, isso só ajuda a manter as pessoas em situação de pobreza. “Roupas de segunda mão mantém o status quo”, diz a estilista. “Isso não ajuda os pobres a ficarem mais ricos, mas apenas mantém as coisas como elas estão no momento.” 

O especialista em economia James Shikwati, 35, do Quênia, disse que a ajuda à África é mais prejudicial que benéfica. O entusiástico defensor da globalização falou com a revista alemã SPIEGEL sobre os efeitos desastrosos da política de desenvolvimento ocidental na África e fez um apelo inesperado:  “Pelo amor de Deus, parem de ajudar a África”

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De acordo com a Comissão de Comércio Internacional dos Estados Unidos, o país exportou mais de US$ 605 milhões em roupas usadas, só em 2011. O mercado é tão lucrativo que algumas instituições de caridade sem fins lucrativos e recicladores de vestuário estão envolvidos em uma guerra de roupas doadas, sendo que os recicladores de vestuário estão cortando as instituições de caridade como intermediárias fazendo elas mesmas as coletas.

As roupas usadas indesejadas, muitas vezes acabam nos aterros sanitários. Cada vez mais, no entanto, elas também estão sendo compradas pelos grossistas, que as classificam, rotulam e embalam em recipientes destinados à exportação para mercados diferentes. Uma grande parte dessas roupas acabam em bancas de mercado de rua em toda a África e elas representam mais de 50% do volume do setor de vestuário em muitos países da África sub-saariana.

O vídeo abaixo mostra como a roupa que uma pessoa doa vai ser reciclada mas é no vídeo número 3 no canal do youtube que mostra como é feito todo o processo da coleta até chegar ao mercado africano. (não consegui capturar o link do vídeo 3/3)

Este mercado em expansão favorece de forma desproporcional as empresas americanas e europeias, em muitos aspectos, prejudicando a capacidade de crescer uma verdadeira indústria de moda na África. Como a maioria dos africanos vivem com menos de US$ 3.000 por ano, estilistas, costureiras, alfaiates, e varejistas do continente estão competindo com as roupas usadas de baixo preço.

Sem falar que as roupas de segunda mão importadas permitem que os africanos usem os estilos globais que são elogiados em inúmeros blogs e em revistas de moda internacionais, assim a competição se torna mais íngreme.

Embora mais e mais semanas de moda estão brotando em toda a África com a ajuda da Vogue Italia e Mercedes Benz patrocinando de eventos de alto perfil em Gana e África do Sul, respectivamente, dentro das últimas semanas, a falta de uma infra-estrutura de compra generalizada onde os varejistas compram e distribuem os produtos dos estilistas, torna tudo muito difícil e só um punhado de partes interessadas da indústria da moda africanos podem prosperar.

Então, qual é a solução se as pessoas ainda continuam a doar roupas para essas instituições?

Seria melhor os governos africanos subsidiar inicialmente a indústria da moda nascente do país, como os estilistas, varejistas e exportadores. A China falsifica tudo e depois vende a preços mais baratos, e eles podem fazer isso porque o governo chinês subsidia a sua moda e das exportações. Então, é mais fácil para os chineses colocarem suas roupas baratas na África causando concorrência desleal com os designers em Gana ou na Nigéria.

Da mesma forma a China faz com o Brasil onde já se fecharam centenas de tecelagens e confecções que não conseguiram concorrer com os produtos chineses que tem imensos subsídios governamentais. Como a indústria de moda no Brasil pode concorrer com a China pagando uma quantidade absurda de impostos e sem receber nenhuma ajuda significativa do governo?

Elizabeth Cline, autora do livro “Supervestida: o chocante preço alto da moda barata”, diz que parte da solução reside na promoção do artesanato e da moda local nas diferentes regiões. “O que estamos vendo até mesmo nos Estados Unidos é, “Oh, somos capazes de entrar em uma loja e comprar um vestido de US$ 5,” mas Elizabeth continua,“nós perdemos o incrível trabalho dos artesãos, pessoas com tanto conhecimento e habilidade.”

Elizabeth acrescenta:”Na América, chegamos ao ponto em que a história foi quase praticamente apagada e agora nós estamos tentando nos reconectar com ela, e espero que os outros países não cheguem a ir tão longe quanto alguém dizer, “espere, esse patrimônio precisa ser preservado. Este conhecimento é importante.”

Aisha Obuobi, fundadora da marca de moda popular com sede em Gana Christie Brown, estaria de acordo com Elizabeth Cline. “Embora nossa roupa tenha um toque moderno e contemporâneo, nossa ideia é infundir elementos africanos em cada peça e isso é algo que não pode ser encontrada em roupas de segunda mão”. Ela diz que os designers e todos os interessados de que a indústria de  moda africana seja bem sucedida, precisam entender que o mercado Africano não é o mercado americano ou europeu, e por isso deve ser tratado adequadamente.

“É importante observar e entender o comportamento de compra do consumidor africano e as necessidades do varejo para adaptar os nossos produtos, serviços e esforços de merchandising.” Não satisfeita de explorar a mão de obra barata e abundante de países como China, Índia, Bangladesh, Camboja, Myanmar, Romênia e Vietnã, a indústria do fast fashion está agora de olho na África pois o continente é a fronteira final do comércio global de roupas, o último continente com mão de obra abundante e barata ainda não explorado.

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O setor de vestuário da Etiópia não tem salário mínimo, enquanto em Bangladesh os trabalhadores ganham, no mínimo, US$ 67 por mês, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Na Etiópia, o salário inicial do setor estava em cerca de US$ 21 por mês no ano passado, segundo o governo local.

Quer dizer, agora que a China e Bangladesh estão aumentando um pouquinho o valor dos salários dos trabalhadores que ainda ganham uma miséria, as grandes redes varejistas estão procurando países africanos que sejam mais baratos ainda. Deu para entender?

Com tantos africanos ganhando salários abaixo do nível de pobreza, a principal necessidade do consumidor é o preço acessível. Aisha Obuobi diz: “Ser capaz de produzir em massa é realmente o que vai reduzir os preços das roupas no varejo. Uma vez que isso decola, estou certa de que vão nascer lojas de varejo que podem facilmente suportar as necessidades dos consumidores de mais baixa renda. “

Nora Bannerman, CEO da fábrica de Gana Sleek Garments, abriu uma fábrica em Accra com a capacidade de produzir roupas em massa a preços competitivos. Isso precisa acontecer em massa em toda a África com o apoio do governo e investimento do setor privado para desenvolver marcas de moda africana.

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Aisha Ishola diz que mesmo com todos os desafios, as roupas de segunda mão doadas pelos europeus e americanos tem potencial para beneficiar a economia africana. Os recicladores têxteis dizem que o comércio de roupas de segunda mão criou sozinho mais de cinco milhões de empregos no Quênia. Na Nigéria, onde o governo proibiu a importação e varejo de roupas de segunda mão para proteger a sua indústria da moda nascente, o comércio ilegal de roupas prospera no mercado negro, gerando também empregos.

Um comerciante de roupas usadas disse: “Se você fechar a fronteira da Nigéria hoje, dentro de duas, três semanas, o país será abalado.” Ele disse que as empresas dos países que fornecem roupas usadas aos comerciantes na África iriam sentir muito aperto. “O dinheiro que os nigerianos recebem importando esses produtos percorre um longo caminho.”

E ele está certo pois a indústria das roupas usadas tem suas raízes no Ocidente com várias empresas faturando milhões fingindo fazer “caridade” com as roupas doadas pelas pessoas. Cocentaina é a capital europeia das roupas usadas e movimenta um negócio de milhões, mas ninguém que trabalha nessas empresas quer falar sobre o grande negócio das roupas usadas, com medo de perder um dos poucos nichos de mercado que ainda resistem a crise na Europa.

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