Você compraria roupas produzidas na prisão ou acharia ético que marcas de moda utilizarem a mão de obra dos presidiários? Em toda a Inglaterra e País de Gales, existem 105 prisões do setor público, contendo 63 fábricas têxteis. Nos EUA, o Federal Prison Industries (uma empresa estatal mais conhecida pelo seu nome comercial de Unicor) opera 78 fábricas no interior de instalações correcionais, que fazem produtos para uso próprio das prisões, como uniformes ou roupas de cama, e também trabalha em contratos federais para produzir uniformes militares.

Em 2014, as receitas da UNICOR foram de US $ 389,1 milhões, dos quais as vendas de vestuário e têxteis correspondem a US $ 69,4 milhões (segundo artigo do BOF). Estes programas estão em vigor desde 1930, mas na última década, marcas de roupas como a peruana Pietà, a americana Prison Blues, a holandesa Stripes entre outras marcas, criaram uma nova relação entre moda e prisões. Essas empresas vendem produtos de moda feitos por presos, o que levanta a questão: será que a confecção de vestuário dentro das prisões é um modelo de negócio viável?

No mundo todo existem milhões de presidiários que acabam custando aos pagadores de impostos muito dinheiro a cada ano para sustentá-los. Por que não colocar toda essa mão de obra ociosa para trabalhar para uma pequena ou grande empresa enquanto estiverem na prisão? O trabalho seria barato e o dinheiro gasto para manter cada preso na cadeia é reciclado de volta para a economia através dos produtos que são capazes de produzir.

Moda feita na prisão - Conheça as marcas de moda que trabalham com presidiários stylo urbano-1

Essa é a forma como nasceu a fabricação dentro das prisões nos Estados Unidos e os bens manufaturados vão desde produtos alimentares a tecnologia, realmente qualquer coisa pode ser feita em uma fábrica, incluindo moda. Nos EUA e outros países, a fabricação de produtos, especialmente roupas, é visto como parte da reforma social dentro das prisões.

Muitos presos não têm ensino superior ou qualquer habilidade empregável, e colocá-los para participar na fabricação de bens, eles estão ganhando experiência de trabalho que poderão levar com eles quando forem liberados. Em várias prisões fábrica, 5 dias de trabalho diminuem 1 dia de pena. É um ganha-ganha.

Empresas sociais proporcionam novas habilidades e treinamento para os presos na fabricação de vestuário. Há vários tipos de iniciativas quando se trata de arte ou música, mas a moda é popular entre os prisioneiros porque é sobre o corpo. Na prisão, é o corpo que está preso, bem como a mente. E a moda permite um grau de auto-expressão físico para os presos.

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A moda é poderosa pois está ligada a nossa auto-expressão individual ou de grupo. A relação entre a indústria da moda e a prisão às vezes tem sido simbiótica pois os presos não ficam afastados do mundo exterior. O mundo da moda é receptivo e os presos usam o que podem para mostrar sua individualidade, ou para se conformar.

Mas usar a mão de obra de presos é ético? No caso da marca americana Lazlo , com sede em Detroit, seus fundadores acreditam que as pessoas merecem uma segunda chance, e isso inclui o acesso ao emprego. Atualmente, a marca está no processo de construção de um edifício de 2.800 metros quadrados no bairro histórico de Corktown que foi transformado numa incubadora criativa e espaço colaborativo para empresas socialmente conscientes.

“Estamos trabalhando com o governo para contratar homens anteriormente encarcerados que foram treinados para costurar quando estivam nas prisões de Michigan. Além disso, estamos em parceria com organizações sem fins lucrativos locais para fornecer serviços para os ex-detentos”, diz o fundador da Lazlo, Christian Birky.

Então, oferecer aos presos a capacidade de aprender novas habilidades, se preparando para sua nova vida fora das prisões não parece ético? Isso não é um trabalho social para dar uma segunda chance ao detento ou ex-detento?

O ativista e estilista francês Thomas Jacob, que trabalhou para a grife de luxo Chanel, criou a marca de slow fashion Pietà cujas coleções de moda masculina urbana são produzidas  em três prisões no Peru, incluindo a prisão de mulheres de Santa-Mônica no distrito de Chorrillos, em Lima, e duas prisões masculinas: San Jorge e San Pedro em Lurigancho.

Pietà é uma marca de moda que nasceu nas prisões de Lima, e é um projeto impertinente, irreverente, independente e espontâneo, que oferece uma concepção alternativa da moda. Este projeto é influenciado pela contra-cultura e se recusa a submeter-se às normas sociais de uma sociedade dedicada ao consumo de massa do fast fashion.

Thomas Jacob diz que suas roupas são feitas com materiais naturais, ecológicos e reciclados, trabalhando as fibras mais nobres e mais raros na Terra, como alpaca, cashmere, cânhamo, algodão orgânico ou seda. Todas as peças tem um design minimalista e atemporal, com inspiração na vida dura e cotidiana dos presos, isso cria uma história que é transmitida em cada peça através de uma tag com a assinatura do artesão que a fez.

O Projeto Pietà oferece a oportunidade para os presos gerarem renda e desenvolver suas habilidades permitindo a reabilitação mais rápida, e sair mais rapidamente pois cada 5 dias de trabalho diminuem a sentença do prisioneiro em um dia.

Embora não revele quanto os prisioneiros ganham, Thomas Jacob diz que “quando você está em uma prisão peruana você precisa de dinheiro para pagar o seu pavilhão (as atividades e a restauração), para pagar suas necessidades básicas de higiene ou para comer melhor. Além disso, a maioria tem de pagar uma reparação civil. Quando você está sozinho o que você pode fazer, exceto morrer lentamente?”

O trabalho lhes permite ganhar um rendimento regular para não depender dos outros para viver. Para os presos, fabricar roupas os ajuda a ter esperança e confiança pois cada dia de trabalho significa diminuir suas penas.

As coleções são inteiramente produzidas em prisões sem qualquer ajuda externa. Até os modelos da marca são os prisioneiros. Todas as roupas Pietà são fabricadas nos presídios onde são modeladas, costuradas, estampadas, tricotadas e até os tênis e bolsas são feitos em oficinas de couro, onde os presos produzem, com paixão e orgulho.

Este projeto foi nomeado de Pietà em homenagem a famosa escultura de Michelangelo. Uma escultura que descreve a difícil aceitação da vontade divina, sem qualquer lamentação ou dor. Trata-se de sobriedade e dignidade. Este é o estado de espírito da marca Pietà:

“Apesar das nossas dificuldades e preconceitos, não desistimos nunca. Nós fazemos um bom trabalho com humildade e simplicidade ao estarmos cheios de esperança para o futuro. Finalmente, a Pietà é o último passo antes da ressurreição e um novo renascimento.”

O vídeo abaixo mostra as oficinas de tricô, costura, bordado e confecção feito por mulheres da prisão feminina de “Santa Mônica” em Chorillos, Lima, Peru. Criar empresas sociais tanto de moda como decoração para capacitar os presos e lhes dar a possibilidade de mudar de vida é uma excelente alternativa para as marcas de slow fashion e hybrid fashion.

A marca masculina de slow fashion Stripes da Holanda foi criada por quatro amigos durante uma visita a uma prisão durante o último ano de seus estudos. Eles concluíram que na prisão, o preso pode facilmente se desprender do mundo real, perdendo a sensação de que existe liberdade e por sua vez a motivação para sair daquela situação.

“Ao manter um ritmo de trabalho dentro da prisão, a vida do detento não fica totalmente fora da realidade” e eles têm acesso à normalidade de participar do trabalho todos os dias, como todo mundo.”

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Eles também reforçam suas competências sociais, juntamente com as habilidades técnicas associadas com a produção de uma peça de vestuário. As coleções de roupas da Stripes são produzidas em quatro prisões na Holanda e a marca espera expandir sua linha de moda para três prisões adicionais na Bélgica, França e nos EUA, bem como expandir os seus benefícios para os presos que trabalham em seus produtos, que atualmente inclui aulas de criatividade, diplomas  e certificados de trabalho.

Segunda a marca: “Ao ensinar novas habilidades na prisão, oferecemos aos detentos uma melhor chance de arranjar trabalho depois de ganharem a liberdade. Produzindo produtos autênticos que têm uma história real, isso os ajuda a lembrar como a liberdade realmente é valiosa.”

A Prison Blues foi criada em 1989 em Oregon com a intenção de fabricar roupas para ajudar a cobrir os custos de estadias dos presos no Eastern Oregon Correctional Institute e sem atrapalhar as empresas privadas locais. Para criar a sua empresa, eles usaram um subsídio dado a eles pelo governo que consistia em dinheiro recuperado do tráfico de drogas. Para participar como funcionário da fábrica, os presos não só devem demonstrar bom comportamento, mas também concluir com êxito um processo de entrevista.

Uma vez empregados, eles devem permanecer produtivos em todos os momentos dentro e fora do trabalho. Uma das vantagens de ser um empregado é que eles conseguem manter aproximadamente 20% de seus ganhos, com os outros 80% sendo usados para cobrir o custo da sua estadia e qualquer uma das suas outras despesas, tais como o apoio da família e pagamento de impostos.

Esses empregos da Prison Blues são tão cobiçada que há até uma lista de espera de 3 anos. A Prison Blues distribui seus produtos na loja e online, e os produtos variam de camisetas para jeans. Eles também fabricam uniformes para outras prisões no estado do Oregon.

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Quando as prisões alemãs começaram a querer vender suas roupas, elas ficaram com medo de mostrar quem as estavam produzindo. Certamente pensaram que as pessoas poderiam não querer seus produtos devido à conotação negativa. No entanto, um empresário chamado Stephan Bohle decidiu que não havia nada a ser temido e corajosamente nomeou sua marca de moda Haeftling.

Desde então, a marca nunca olhou para trás e eles têm vendido peças de vestuário para consumidores da Alemanha, Austrália e Japão. A marca foi tão bem sucedida que eles estão produzindo também pastas de couro, roupa de cama, comida e até mesmo uma linha de aguardente.

A empresa social e de caridade Fine Cell Work (FCW) vem ensinando costura em prisões de alta segurança na Inglaterra por 19 anos. A instituição foi criada por Lady Anne Tree para treinar detentos com pena de prisão perpétua em costura e bordados para almofadas toalhas de mesa, tapeçarias e colchas. Vários voluntários fazem parte do FCW entrando nas prisões para trabalhar diretamente com os presos.

Lady Anne Tree morreu em 2010 e passou décadas fazendo lobby junto ao governo inglês para mudar a lei e permitir que os prisioneiros ganhassem dinheiro trabalhando dentro da prisão, antes de lançar oficialmente sua empresa social em 1997. Há agora mais de 400 prisioneiros em 29 prisões em todo Reino Unido fazendo os produtos da FCW. Veja abaixo o fascinante trabalho da instituição e no site da FCW os maravilhosos produtos bordados pelos presos.

E no Brasil? Todos sabem que a situação dos presídios brasileiros é completamente caótico pois são um monopólio do estado. Os presídios brasileiros são mantidos pelos governos estaduais em sua imensa maioria parecem mais campos de concentração com vários presos trancados dentro da mesma cela que ficam sem fazer nada o dia todo. Se todo sistema prisional brasileiro fosse privatizado ou através de PPP: parceria público privada, isso poderia criar uma alternativa mais humanitária e ajudar na profissionalização dos presos.

Uma parceria entre a iniciativa privada e Administração Prisional de Minas Gerais possibilita que presos da penitenciária mineira Ariosvaldo Campos Pires, em Juiz de Fora, tenham acesso a um novo trabalho. São homens aprendendo uma profissão e conquistando um espaço antes ocupado só por mulheres. Veja mais detalhes aqui.

O projeto é uma parceria que existe há cinco anos entre o Governo de Minas, através da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), e a marca de tricô feminino Doisélles, da estilista mineira Raquell Guimarães. Mais de 100 detentos já passaram pelo Flor de Lotus, e a produção já é exportada para 11 países, além de estar presente em 70 lojas multimarcas em todo o Brasil. Veja as fotos do trabalho dos detentos aqui.

O projeto da ONG Grupo Cultural Fenix visa introduzir fábricas de roupas dentro dos presídios em Juiz de Fora/MG para profissionalizar os presos e mostrar que existem uma outra alternativa de vida para eles. Várias marcas de moda se associam a ONG mineira para produzir suas peças dentro dos presídios e até os Militares do Exército Brasileiro vestem meias produzidas por presos de Juiz de Fora.

Com 15 anos de experiência na indústria de confecção, o empresário Manoel Jorge Lisboa, convenceu-se definitivamente das vantagens de empregar presos. Fornecedor de grandes indústrias do ramo por meio da Cooperativa Ebenézer, ele transferiu todas as máquinas de costura para galpões instalados dentro das três unidades prisionais da Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds) em Juiz de Fora. São 80 presos e presas produzindo meias, roupas e cuecas nas oficinas do Centro de Remanejamento do Sistema Prisional (Ceresp) e nas penitenciárias Professor Ariosvaldo Campos Pires e José Edson Cavalieri. Veja mais aqui.

Utilizar a mão de obra dos detentos é um ganha-ganha para ambos os lados pois ajuda na ressocialização dos detentos dando-lhes oportunidades de aprender coisa novas e úteis para quando saírem da prisão, diminuição de suas penas, ajuda na manutenção dos presídios e possibilita diminuir os custos fixos das marcas de moda que podem terceirizar sua produção. Essa não é uma ótima foma de produzir moda de forma ética e com responsabilidade social?

É só ver o depoimento dos próprios detentos nos vídeos. Essa é uma ótima alternativa para empresas de moda agregarem valor e transparência aos seus produtos. Seria maravilhoso se introduzissem fábricas têxteis lá no presídio da Papuda e nos outros onde políticos e empresários corruptos estão presos por desviarem bilhões do dinheiro público. Afinal, não foram os trabalhadores que eles lesaram? Punição exemplar!

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