O trabalho escravo ainda corre solto nas fábricas asiáticas que produzem fast fashion. Uma investigação secreta feita nas fábricas de vestuário chinesas que forneçam para as gigantes do fast fashion GAP, H & M e Zara revelou uma grande disparidade entre as políticas de fornecedores das marcas e a realidade nas fábricas dos fornecedoras chineses. A investigação encontrou horários de trabalho excessivos, condições inseguras de trabalho e a falta de representação dos trabalhadores, colocando em dúvida a eficácia das auditorias feitas pelas empresas nas fábricas de seus fornecedores.

O relatório da SACOM diz (relatório está aqui): “É importante ressaltar que as políticas de fornecedores das marcas têm evoluído por mais de uma década, mas ainda não conseguiram atingir seus objetivos pois simplesmente contam com a falsificação dessas auditorias, e é irrealista acreditar que essas empresas possam de uma forma “séria” melhorar e até mesmo reverter as difíceis condição de trabalho nas fábricas chinesas e em outras fábricas de países asiáticos.”

SACOM identificou quatro fábricas de vestuário ou calçados que produzem para a GAP, H & M e Zara, localizadas nas províncias costeiras, como Anhui e Guangdong, bem como as províncias do interior, como Shandong e Hubei. Dois parceiros de produção da H & M, que estão classificados na lista de fornecedores da empresa como Platinum e Prata foram identificados, enquanto dois novos fornecedores da Gap e Zara , a fábrica de sapatos Nanhai Nanbao e Chibi Zhiqiang Garments Co também tiveram problemas.

Sobre a questão do horário de trabalho, o relatório diz: “As três marcas têm políticas de fornecedores que regulam as horas de trabalho, exigindo que as fábricas forneçam ao trabalhadores dias de folga, e não são autorizados a trabalhar mais de 48 horas. No entanto, a pesquisa constatou que os fornecedores das redes varejistas obrigam os funcionários a trabalhar horas extras para cumprir os prazos de entrega extremamente apertados.”

A pressão dos gerentes e colegas de trabalho é enorme e para alcançar as metas de produção elevados, os trabalhadores eram obrigados a trabalhar das 07:30 da manhã até as 1-2 da madrugada, tendo somente um dia de descanso por mês. Isso é trabalho escravo.

Novo relatório diz que os fornecedores chineses da Gap, Zara e H & M exploram os trabalhadores stylo urbano
Livro Modeslavar (trabalho escravo) mostra a exploração de jovens nas fábricas de fornecedores de fast fashion

O relatório acrescenta: “O código de conduta das três empresas exige que as fábricas fornecedoras devem pagar salários que atendem às necessidades básicas dos trabalhadores. No entanto, a pesquisa revela que os salários dos trabalhadores eram todos calculados pela quantidade de peças produzidas, forçando os trabalhadores a trabalhar horas extras para fazer o máximo de peças que pudessem para ganhar a vida. Seus salários são ainda instáveis devido às mudanças frequentes nos projetos, e a diferença entre as altas e baixas estações. Dessa forma os trabalhadores acabam não recebendo um salário digno.”

Sobre a segurança do trabalhador, o relatório acrescenta: “As três marcas também prometem segurança e condições de trabalho saudáveis nas fábricas de seus fornecedores mas na realidade, os trabalhadores foram expostos a produtos químicos tóxicos, poeira de algodão e poeiras perigosas, sem equipamentos de proteção. A operação das máquinas não são seguras devido à falta de formação e equipamento de proteção. As saídas de fuga de incêndio são estreitas ou estavam obstruídas. Pondo a saúde e a segurança dos trabalhadores em risco.”

A investigação também revela que não havia uma verdadeira representação dos trabalhadores ou um canal para que os trabalhadores pudessem se expressar pois os sindicatos de trabalhadores foram criados pelos próprios gestores. Quando os trabalhadores entraram em greve, eles foram suprimidos ou corrompidos pela fábrica.” 

Mas isso não é tudo. Esta sendo lançado o livro Modeslavar (trabalho escravo), que é escrito pelos jornalistas suecos Moa Kärnstrand  e  Tobias Andersson Akerblom depois de visitar Mianmar e entrevistar as duas fábricas têxteis que fornecem para a H & M, entre outras empresas onde não existem leis que protegem os trabalhadores.

O que a publicação diz? Que a gigante sueca também faz vista grossa para práticas de trabalho ruins realizadas por seus fornecedores na antiga Birmânia. Eu digo “também”, porque a alguns meses atrás, veio à tona um reality show de cinco capítulos chamado Sweatshop feito pela rede de televisão norueguesa Aftenposten TV contando a história dos três jovens Annika, Ludvig e Frida, que viajaram para o Camboja para conhecer a dura realidade dos trabalhadores que fabricam roupas para um fornecedor da H & M.

O país pode mudar mas a política de trabalho continua: longas horas de trabalho, salários mínimos e irrisórios, e em alguns países utiliza-se o trabalho infantil. Em sua “defesa” a gigante sueca do fast fashion que gasta milhões em publicidade se dizendo “sustentável” disse que essas condições de trabalho são completamente legais no país, uma vez que em Myanmar, por exemplo, o salário mínimo é o menor no mundo e empregar jovens de 14 a 17 para trabalhar nas fábricas 15 horas por dia é permitido se eles fizerem “trabalhos leves”. A reportagem foi feita pelo The Guardian.

Ainda assim, uma coisa é o que diz a lei e o outro é o que nos diz o senso comum e a ética. O desabamento da fábrica Rana Plaza em Bangladesh em 2013 mostrou ao mundo as condições em que são feitas as roupas super baratas das redes de fast fashion. O mundo da moda se divide “antes de Rana Plaza” e “depois de Rana Plaza” pois esse desastre onde morreram 1123 pessoas criou um “divisor de águas” na indústria da moda fazendo surgir diversas organizações entre elas o Fashion Revolution e projetou o slow fashion como uma alternativa ética e sustentável ao fast fashion.

Mas a H & M não é a única multinacional de fast fashion envolvida neste alegado novo escândalo, porque estas fábricas também trabalham para empresas como a Marks & Spencer, C&A, GAP, New Look, Primark e Tesco. Todas essas empresas se posicionam contra o trabalho infantil mas parece que todas fizeram auditorias e ninguém sabia de nada.

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