Parece que os robôs estão prestes a tornar sem sentido o rótulo “Made in” e poderiam reverter a globalização da fabricação de vestuário feito na Ásia. Os americanos podem nunca mais comprar roupas “Made in China” se os custos de produtividade das máquinas de costura robóticas puderem ser mais eficientes e baratas que os trabalhadores humanos chineses.

Uma startup americana Softwear Automation tem investido no conceito futurista de fabricação de roupas por robôs para trazer sua produção novamente para os Estados Unidos. A chamada Quarta Revolução Industrial está a caminho.

Tais máquinas de costura controlados por computador devem mover a agulha precisamente sobre o tecido “ponto por ponto” e conseguir reproduzir com rapidez e eficiência o trabalho normalmente feito com mãos e visão humanas. O sucesso dessa empreitada visa automatizar as fábricas americanas para produzir peças de vestuário sem mão de obra direta.

A ideia de tornar rentável a fabricação de moda nos EUA através de robôs veio de Steve Dickerson, fundador e diretor de tecnologia da Softwear Automation de Atlanta ( startup do Instituto de Tecnologia da Georgia). Steven Dickerson percebeu a possibilidade de investir em máquinas de costura robóticas, depois de observar que a fabricação de roupas tinha desaparecido quase inteiramente de sua cidade natal e da maioria dos Estados Unidos.

Os EUA é o maior importador de roupas e acessórios do mundo que são produzidos em grande parte na China, Índia, Bangladesh e Vietnã.  A China é responsável por 40% de todo o vestuário vendido nos EUA e somente 3% dos artigos de moda são produzidos internamente. Estima-se que o mercado mundial de têxteis e vestuário (incluindo tecidos, vestuário, calçado e moda de luxo) vale atualmente cerca de US $ 3 trilhões, e com certeza essa será a próxima indústria a passar pelo processo de automação.

Embora sejam bastante usados na fabricação de carros e eletrônicos, o uso de robôs na fabricação de vestuário continua a ser baixa devido a um desafio técnico fundamental: enquanto automóveis ou produtos eletrônicos são feitos de partes duras, a fabricação de vestuário envolve tecidos elásticos e maleáveis que tornam o processo difícil de automatizar. Até agora!

A Softwear abraçou esse desafio de criar máquinas que saibam montar roupas da mesma forma que os trabalhadores humanos e com custos inferiores. Suas máquinas usam a fotografia de alta velocidade que captura até 1.000 quadros por segundo. Estas imagens são então interpretadas por software para executar todo o processo de manuseamento do tecido e costura de forma correta.

Para trabalhar em conjunto com a máquina de costura, a Softwear também produziu um sistema de manuseio de materiais (LOWRY) que usa um vácuo para pegar e transportá-los tecidos de um processo para outro. A empresa disse que suas máquinas no momento podem fazer uma gama limitada de vestuário, como calças jeans, vestidos e saias básicas, bem como bens domésticos, como toalhas e cortinas, mas serão capazes de montar peças de vestuário mais complexas dentro dos próximos seis meses.

Com a automatização da produção, a indústria do vestuário poderia sofrer uma mudança radical em 5-10 anos e esta transformação está ocorrendo na China também como relatei num post anterior. O que vamos presenciar daqui para frente será uma “guerra de robôs” entre os países para ver quem produz mais rápido, eficiente e com os menores custos.

A automatização das fábricas já está acontecendo com as máquinas de tricô 3D com tecnologia wholegarment desenvolvida pela empresa japonesa Shima Seiki.

Softwear Automation cria máquinas de costura robóticas para revolucionar a moda stylo urbano

A automação com o tempo, vai dar fim a exploração dos trabalhadores de vestuário em países asiáticos mas as implicações sociais e políticas em substituir milhares de pessoas por máquinas precisa ser considerada. Isso seria mais relevante para os países que dependem fortemente da fabricação de roupas, tais como Bangladesh e Vietnã, onde as exportações de vestuário representam mais de 80% das exportações totais do país.

As grandes redes de fast fashion serão as primeiras a adotar essa tecnologia para se livrarem das constantes acusações de exploração de mão de obra escrava.

De uma certa forma, as acusações feitas pelos defensores da moda slow fashion vão acabar fazendo um favor as corporações do fast fashion, empurrando-as para a automatização da produção. Utilizando robôs, as empresas não precisarão mais de mão de obra barata dos trabalhadores asiáticos e milhares deles perderão seus empregos. No final das contas é melhor ter um emprego que se ganha pouco ou ficar desempregado? Vou mostrar um exemplo:

O gigante do fast fashion, o Grupo Inditex, é dono da Zara, Pull&Bear, Massimo Dutti, Bershka, Stradivarius, Oysho, Zara Home e Uterqüe. A empresa produz em suas mega fábricas na Espanha 50% de sua produção global e os outros 50% estão espalhados em fábricas terceirizadas pelo mundo todo. Se o Grupo Inditex quiser automatizar toda sua fabricação de roupas, ele pode ampliar suas fábricas na Espanha e colocar milhares desses robôs utilizando menos funcionários do que tem agora com 50% da produção.

Assim a gigante do fast fashion pode se livrar das acusações de explorar mão de obra barata tendo controle total de sua produção de roupas com alguma diminuição nos custos. Isso é o sonhos das grandes redes de varejo. Será que as pequenas marcas de slow fashion terão condições de aproveitar de forma ética a mão de obra desses milhares de trabalhadores que perderão seus empregos para robôs? Não, por isso o hybrid fashion/moda híbrida é uma terceira alternativa para criar um equilíbrio entre o fast fashion e o slow fashion como descrevi aqui.

Com a automatização de suas linhas de produção, as grandes redes de fast fashion não precisarão utilizar mão de obra humana para fabricar roupas e conseguem manter sobre controle os custos de produção pois máquinas não recebem salários, não exigem benefícios e trabalham horas extras sem reclamar. Marcas de hybrid fashion poderiam utilizar mão de obra humana de forma ética com um produção sustentável em maior escala que o slow fashion.

Se as máquinas de costura robóticas forem adotadas em toda a linha de produção e se tornarem uniformes, o rótulo “Made in” perderia o sentido e o único diferencial seria a qualidade dos materiais e a acabamento das peças. Além disso, a padronização causada pela automatização também levaria a uma maior transparência de preços para o cliente e a possibilidade de personalização das roupas seria um enorme ventagem.

Será que a globalização da fabricação de vestuário será revertida? Isso pode acontecer especialmente tendo em conta os ciclos de produção que estão cada vez rápidos à medida que os consumidores exigem novos produtos com mais frequência. O tempo de desenvolvimento e produção para o mercado seria reduzido se o produto puder ser fabricado localmente mais próximo do consumidor.

Na medida em que a tecnologia robótica traz a fabricação de vestuário de volta para os EUA, isso seria uma vitória para os trabalhadores. É melhor ter fábricas com menos empregados do que ter fábrica nenhuma. Mas a maior tendência da indústria do vestuário é inconfundível. A automatização irá reduzir o número de pessoas necessárias para produzir bens de consumo e mudar a natureza do trabalho envolvido na produção. O desafio maior é preparar os trabalhadores para fazerem essa mudança.

De fato, algumas empresas de vestuário vão entrar com tudo na automação. Ainda este ano, a gigante do sportswear Adidas vai abrir o Speedfactory, sua primeira fábrica de tênis controlada em grande parte por robôs. A empresa, que emprega mais de um milhão de trabalhadores em fábricas terceirizadas com a maioria de sua produção na Ásia, está investindo na produção automatizada como uma forma de produzir e entregar rapidamente produtos em resposta à demanda dos consumidores dentro das lojas Adidas mais perto da casa do consumidor. O primeiro Speedfactory será em Ansbach no sul da Alemanha

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