A indústria da moda vem passando por uma intensa transformação em termos de produção desde a década de 1980 com o surgimento da moda rápida e barata do fast fashion produzida na Ásia. O conceito do fast fashion foi inicialmente introduzido no mercado pela Zara e possibilitou que milhões de pessoas de baixa renda tivessem acesso as últimas tendências da moda comprando cópias baratas de roupas lançadas pelas grifes de luxo.

O fast fashion é a “moda da crise” pois cresceu durante as sucessivas crises econômicas mundiais. Com menos dinheiro para gastar e sem querer diminuir o consumo, milhões de pessoas encontraram nas lojas de fast fashion a resposta para seus problemas. A Zara estabeleceu um novo padrão na indústria da moda, porque consegue projetar, produzir, distribuir e vender suas coleções em apenas quatro semanas, um período recorde se levarmos em conta que as grifes de luxo a qual a empresa copia levam 6 meses para produzir suas coleções nesse mesmo processo.

Esse sistema da hiper-produção da Zara consegue lançar 24 coleções por ano e foi copiado por diversas outras empresas de fast fashion, fazendo com que o consumo de moda crescesse mais de 400% desde os anos 80 tornando a indústria da moda na segunda mais poluente do mundo depois da petrolífera. A Zara e outras redes como H&M, Primark, Forever 21, Asos, Uniqlo, etc, embora tenham democratizado a moda possibilitando vender roupas bonitas seguindo as últimas tendências por preços baixos, causaram diversos problemas relacionados a exploração de trabalho escravo e poluição ambiental em países asiáticos.

Já o slow fashion é bem diferente do fast fashion pois foca basicamente na ética, sustentabilidade, trabalho justo e transparência. Marcas de slow fashion lançam 2 coleções por ano, com um design minimalista e atemporal produzidos em pequena escala, utilizando tecidos e materiais feitos de forma ética. Mas a maioria dos consumidores acostumados com fast fashion, acham que as marcas slow fashion são caras, não tem variedade de produtos nas lojas e poucos lançamentos anuais.

Por causa de seus altos custos e produção limitada, o slow fashion não alcança as classes C e D como fez o fast fashion. Em 24 de Outubro durante o Erechim Moda Show cujo temática foi sobre moda sustentável, apresentei o conceito hybrid fashion como uma nova alternativa de produção de moda ética e sustentável aliada ao slow fashion. Abaixo estão alguns tópicos apresentados na palestra.

Stella MacCartney e G Star Raw, dois exemplos perfeitos de marcas de hybrid fashion stylo urbano-1
Renato Cunha criador do Stylo Urbano apresenta o conceito Hybrid Fashion no Eerchim Moda Show 2016

 Quais são as características do hybrid fashion?

  1. Lançamento de 4 coleções por ano;
  2. Roupas e acessórios de boa qualidade produzidos em grande escala;
  3. Uma variedade de produtos bem maior do que marcas de slow fashion;
  4. As coleções seguem uma personalidade própria e atemporal;
  5. Fabricação no país respeitando as leis trabalhistas e ambientais;
  6. Toda coleção é feita com tecidos sustentáveis;
  7. Transparência de produção;
  8. Adoção de novas tecnologias sustentáveis para diminuir o consumo de água, energia e produtos químicos;
  9. Os tecidos e materiais que sobram da produção são reutilizados através de upcycling ou reciclagem seguindo o conceito da economia circular;
  10. Marcas de hyrbrid fashion movimentam mais a economia do que marcas se slow fashion devido a sua escala de produção;
  11. Marcas de hybride fashion podem atender as classes A, B e C;
  12. Os preços do hybrid fashion podem ser um pouco mais caros que o fast fashion e mais baratos que o slow fashion.

O hybrid fashion é um termo criado para denominar as marcas de moda que não se enquadram nos sistemas de produção do fast fashion e slow fashion. Depois de elaborado o conceito fiz uma pesquisa na internet para encontrar algumas marcas que tivessem de 9 a 10 das características do hybrid fashion e entre as que encontrei estão a Stella McCartney e G-Star Raw. Ambas não foram criadas como marcas de hybrid fashion mas tem a maioria das características.

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A Stella McCartney é uma marca prêt-a-porter de luxo e a G-Star Raw é uma marca de streetwear voltada para as classes A e B. O público consumidor de moda ética e sustentável é composto basicamente pelas classes A e B que tem um maior poder aquisitivo e nível educacional, e a maior parte desses consumidores é formada pelas gerações Y e Z. A estilista inglesa Stella McCartney fundou sua marca homônima em 2001 tendo como sócio o Grupo Kering dono das marcas de luxo Yves Saint Laurent, Gucci, Balenciaga, Alexander McQueen entre outras.

A Stella McCartney certamente não é uma marca fast fashion e também não é uma marca slow fashion, além disso seu posicionamento focado na ética e sustentabilidade difere de todas as outras grifes de luxo prêt-a-porter. A marca tem como lema principal não utilizar matérias primas como peles, penas e couros provenientes de animais, isso é o oposto que a indústria do luxo vem fazendo há séculos. Os clientes procuram os produtos da marca principalmente pelo seu belo design e qualidade aliados as credenciais éticas. A produção da empresa é feita na Itália utilizando 6 matérias primas em suas coleções:

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A Stella McCartney tem uma grande variedade de produtos em suas lojas oferecendo moda feminina e infantil, bolsas, sapatos, lingerie, óculos, perfumes, linha fitness em parceria com a Adidas e em Novembro lançará sua linha masculina. A marca lança 4 coleções por ano em 30 lojas próprias, 21 franqueados, 600 contas de atacado em mais de 77 países incluindo lojas multimarcas, lojas de departamento, lojas de e-commerce e sua loja virtual que envia seus produtos para 100 países. Seu faturamento em 2015 foi de US$ 200 milhões vendendo basicamente moda sustentável.

Já a marca holandesa G Star Raw é tida como a “alta costura” da moda streetwear por seu design de vanguarda, novas tecnologias sustentáveis de lavanderia e tingimento de jeans e tecidos. A empresa lança 4 coleções ao ano com uma grande variedade de produtos masculinos e femininos como roupas, jeans e acessórios cujas vendas ultrapassam US$ 1 bilhão ao ano com 6.300 pontos de venda em 70 países, 12 dos quais são lojas próprias e 500 lojas de franquia.

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A G-Star sabe que consome muitos recursos e por isso é membro da campanha Detox do Greenpeace para remover substâncias tóxicas em sua cadeia de fornecimento. A empresa utiliza vários tecidos sustentáveis em suas coleções como algodão orgânico e reciclado, cânhamo, urtiga, Tencel além de poliéster,nylon e lá reciclados que são identificados através de etiquetas próprias.

Além dessa matérias primas, a marca holandesa criou a linha “Raw for the Oceans” em parceria com a tecelagem Byonic Yarn para recolher toneladas de resíduos de plástico no oceano e transformá-los em novos tecidos. A G-Star fabrica toda sua produção na Ásia em fábricas certificadas e por isso criou códigos de conduta ética para todos seus fornecedores. Com isso, a empresa consegue assegurar que seus clientes tenham produtos com design de vanguarda e de boa qualidade produzidos de forma sustentável. A G-Star faz auditorias periódicas em suas fábricas e dispõe de todos os dados em seu site.

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A Stella McCartney e a G-Star Raw são dois exemplos perfeitos de marcas de vanguarda de sucesso que investem na inovação, sustentabilidade, ética e transparência de produção. Mas como o “know how” dessas empresas poderia ser replicado em escala na moda brasileira?

A forma mais prática para produzir moda ética e sustentável em larga escala com preços competitivos seria através do apoio de um moderno parque industrial com galpões que abrigassem tecelagens, tinturaria, lavanderia e fábricas de private label. Esse parque industrial poderia fabricar roupas, jeans e acessórios para o Brasil inteiro atendendo as marcas de hyrbrid fashion como também marcas de slow fashion e até marcas de fast fashion que queiram produzir coleções sustentáveis.

O parque industrial teria as mais modernas tecnologias de fabricação têxtil utilizando somente matérias primas sustentáveis. Esse complexo atrairia também o interesse de marcas de outros países que buscam fornecedores que tenham os principais certificados internacionais de produção ética.

Juntar tudo num mesmo complexo facilita a logística, transporte e produção pois os clientes podem visitar o local e ver como todo processo é feito desde a tecelagem, tinturaria, lavanderia, estamparia, fabricação das peças e finalmente o show room onde estarão expostas tudo que pode ser fabricado no complexo como por exemplo roupas femininas, masculinas, infantis, jeans e acessórios.

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Mas como esse polo industrial poderia se tornar viável? Através de uma parceria entre os setores público e privado como fez a cidade de Extrema em Minas Gerais e o parque industrial de Hawassa na Etiópia, para diminuir a pesadíssima carga tributária brasileira através da concessão de benefícios e incentivos fiscais esta­duais e municipais. Na esfera estadual, o principal estímulo é a redução do imposto sobre a circulação de mercadorias e serviços.

Já o município ofereceria isenção de tributos locais por 5 anos, prorrogáveis por mais 5 e em alguns casos a doação de terrenos. É essencial que se estimule a reciclagem de resíduos têxteis para fabricar novos tecidos e utilização de novas fibras sustentáveis para melhorar a competitividade dos produtos resultantes desse processo, o que pode ser feito através da redução efetiva da carga tributária sobre o produto final, ou seja, que se deduza da base de incidência do IPI, do ICMS, do PIS e da COFINS o valor correspondente aos materiais reciclados e materiais produzidos de forma sustentável.

O custo de fabricação de tecidos feitos da reciclagem de materiais descartados pode ser maior do que o custo de produção com matéria-prima virgem, em função do sistema de coleta e transporte e do próprio processo industrial para dar a esses produtos condições de serem reutilizados. Uma redução dos impostos sobre artigos de moda produzidos no parque industrial, além do benefício ambiental, agregar valor e gerar muitos postos de trabalho, ajudaria a baixar consideravelmente os custos para que marcas de hybrid fashion e slow fashion possam ter preços mais competitivos no mercado nacional, e até ajudar essas marcas a se projetarem no mercado internacional. Vale a pena ou não?

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