Produzir hoje um filme inteiro com inteligência artificial em qualidade cinematográfica ainda está muito longe de ser simplesmente apertar um botão. Embora os modelos generativos de vídeo tenham evoluído rapidamente, a computação disponível continua impondo limitações de processamento, custo e controle.

Para fazer um filme fotorrealista de 20 minutos ou mais, produtoras e criadores precisam realizar inúmeras gerações, selecionar os melhores resultados, corrigir movimentos, reconstruir tomadas, tentar preservar a identidade dos personagens e tentar manter a continuidade visual de uma cena para outra.

A Higgsfield AI é um dos exemplos mais interessantes dessa nova geração de ferramentas voltadas à produção cinematográfica com inteligência artificial. Mas os próprios processos de criação demonstram que existe uma enorme diferença entre gerar uma imagem ou um pequeno clipe impressionante e construir uma obra audiovisual longa, coerente e visualmente consistente.

O video abaixo fala do desafios gráficos para fazer Hell Grind, o primeiro longa-metragem de IA do mundo.

Hell Grind é um longa-metragem de 95 minutos que foi produzido por uma equipe de 15 profissionais em aproximadamente 14 dias, e custou cerca de US$ 500 mil, dos quais US$ 400 mil foram gastos em computação de IA. 15 pessoas × 14 dias × 8 horas/dia = 1.680 horas de trabalho humano. Ou seja, aproximadamente 1.680 horas-pessoa.

Para fazer apenas os primeiros 25 minutos do filme Hell Grind, foram necessárias:

16.181 gerações de vídeo → 253 shots finais. Isso dá aproximadamente 64 gerações para cada shot que entrou no filme. E cada geração de vídeo tinha cerca de 15 segundos. A equipe precisava descartar uma enorme quantidade de material porque pequenos defeitos — um olho, uma expressão facial, um movimento de câmera, a posição de uma mandíbula etc. — podiam tornar uma tomada inutilizável. O filme de 95 minutos precisou de 61.500 gerações de vídeo.

O Wall Street Journal relata que os prompts podiam chegar a 3.000 palavras. Há também uma estimativa de que foram produzidas mais de 100 horas de material bruto para chegar ao longa final de 95 minutos. A IA não gera um filme inteiro com você apertando um botão. Hell Grind é uma demonstração extraordinária da capacidade atual da IA, mas também demonstra o enorme gargalo computacional e de custos financeiros que ainda existe.

Foi necessário uma enorme quantidade de gerações para chegar aos shots aproveitados no filme. O CEO da Higgsfield resumiu perfeitamente o problema: você não pode simplesmente dizer à IA “faça um vídeo legal de 95 minutos”.

1.680 horas-pessoa estimadas de trabalho + US$ 400 mil de computação + 61.500 gerações de vídeo para 95 minutos — esse é o motivo da IA ainda ser cara. E isso dá uma dimensão absurda do processo: para obter 95 minutos finais, foram necessárias dezenas de milhares de gerações, com uma quantidade enorme de material descartado.

Uma produção cinematográfica tradicional envolve dezenas ou centenas de variáveis simultâneas. Quando parte desse trabalho passa para a IA, o problema não desaparece: ele muda de lugar. É necessário controlar personagens, cenários, iluminação, enquadramentos, movimentos de câmera, expressões, objetos, física, continuidade, diálogos, som e montagem.

Cada erro pode exigir uma nova geração. Em modelos avançados de vídeo, cada tentativa também representa consumo de créditos e capacidade computacional, o que encarece o filme. O resultado é que produzir um filme inteiro com IA ainda exige trabalho humano e muito processamento computacional.

A mesma tecnologia que hoje pode transformar uma ideia em um filme continua submetida à lógica da escassez do capitalismo: cada geração custa créditos, cada tentativa consome recursos e cada minuto de computação precisa ser pago. Numa sociedade pós-monetária, a relação entre tecnologia e escassez deixa de existir.

O dinheiro é um fator limitante do potencial e da evolução humana. Tudo depende de dinheiro. Quantas ideias e invenções revolucionárias não saíram do papel pois a pessoa não tinha dinheiro para realizá-las? Ou não foram realizadas pois ameaçavam o status quo das elites bancárias e corporativas?

Mas como seria se o diretor tivesse acesso a uma tecnologia computacional radicalmente diferente?

Um computador que não apenas renderiza o filme, mas constrói o universo

É aqui que entram os relatos das taygeteanas Mari Swa e Anéeka (em swaruu.org e mariswa.co) sobre os chamados Sistemas Computacionais Holográficos Avançados, ou AHCS, atribuídos à civilização de Taygeta. O que segue é a descrição apresentada dessa tecnologia.

Segundo esses relatos, os computadores de Taygeta não seriam simplesmente versões muito mais rápidas dos computadores terrestres. Sua arquitetura seria completamente diferente dos atuais sistemas baseados em chips de silício.

Do filme de IA ao holodeck: como seria criar mundos inteiros com um computador quântico holográfico? 2

Anéeka descreve sistemas compostos por milhões de pequenos aceleradores de nanopartículas trabalhando como uma espécie de rede neural física. A informação seria processada por meio dos resultados desses aceleradores e armazenada em estruturas cristalinas de quartzo ou diamante, em vez de depender da arquitetura convencional de transistores, cabos e chips de silício.

Os relatos também associam esses sistemas à chamada computação holográfica quântica, ao conhecimento do éter, às linhas temporais e à matemática de base 12. Segundo a descrição, os aceleradores não simplesmente percorreriam sequencialmente as possibilidades de um problema: o sistema procuraria padrões e probabilidades de maneira simultânea no chamado campo quântico.

É uma diferença conceitual enorme. Um computador terrestre convencional trabalha com operações digitais e precisa executar algoritmos através de uma sequência de processamento. Já o computador holográfico de Taygeta seria concebido para encontrar diretamente a solução dentro de um enorme espaço de possibilidades.

Anéeka usa uma analogia curiosa. Imagine esconder um relógio em uma sala qualquer de um edifício de uma grande cidade. Um computador humano teria que procurar sistematicamente pelos locais até encontrar o objeto. Já o AHCS, segundo a explicação, avaliaria simultaneamente as possibilidades e identificaria imediatamente a localização correta.

É justamente essa característica que mudaria completamente a produção audiovisual.

E se o computador pudesse calcular o filme inteiro de uma vez?

Imagine um diretor recebendo um romance de ficção científica de quinhentas páginas. Em vez de começar criando uma imagem de referência para cada personagem, depois gerar cenários, experimentar movimentos de câmera, produzir tomadas, corrigir inconsistências e finalmente montar tudo, ele poderia entregar o livro diretamente ao AHCS.

O sistema poderia interpretar a história e construir um universo virtual completo. Os personagens teriam aparência, personalidade, memória e comportamentos consistentes. As cidades, naves, casas, paisagens e tudo mais seria projetado num holograma 3D onde o diretor pode interagir e mudar coisas.

A iluminação poderia mudar conforme a posição do Sol. O clima poderia evoluir. Os personagens poderiam interagir uns com os outros e com o ambiente. Nesse cenário, o filme seria apenas uma das maneiras de observar aquilo que o computador construiu. O filme poderia ser assistido numa tela ou num holograma 3D.

O diretor poderia simplesmente dizer: “Quero entrar na história, inicie uma simulação holográfica na sala de imersão total”. Quando a IA criou o filme pela primeira vez, ela gerou todos os ambientes em 3D, para que o filme pudesse ser visto numa tela plana ou num holograma 3D, e também experimentado numa imersão holográfica 3D hiper-realista.

Do filme de IA ao holodeck: como seria criar mundos inteiros com um computador quântico holográfico? 1

Do cinema ao holodeck

Segundo os materiais sobre a tecnologia holográfica de Taygeta, os mesmos sistemas seriam capazes de produzir experiências de imersão muito além de uma tela convencional. A proposta descrita envolve ambientes holográficos nos quais o usuário poderia visualizar e interagir com personagens e objetos de uma simulação.

Nesse caso, o filme deixaria de ser apenas um filme. Imagine uma produção de ficção científica sobre viajar numa nave até a civilização de Taygeta nas Plêiades. Na TV ou computador, você assistiria passivamente à história na tela. Em uma experiência holográfica, poderia observar a nave, as cidades e seus ambientes de todos os ângulos.

No ambiente holográfico, você poderia entrar na nave, caminhar pelos corredores, observar a tripulação, tocar em tudo e sentir o cheiro, conversar com os personagens e explorar ambientes que sequer aparecem na versão cinematográfica. Mais do que isso: poderia experimentar a história como um dos personagens.

O diretor poderia definir uma narrativa principal, mas o universo virtual continuaria existindo ao redor dela. Assim, uma única obra poderia gerar simultaneamente um filme, uma experiência imersiva, um videogame, uma realidade virtual e uma simulação interativa.

Do filme de IA ao holodeck: como seria criar mundos inteiros com um computador quântico holográfico? 3

A matemática também seria diferente

Outro elemento fundamental da descrição taygeteana é a utilização de matemática de base 12. Aqui existe uma diferença importante em relação à forma como normalmente falamos de computadores terrestres. Os seres humanos utilizam o sistema decimal para representar números, enquanto os computadores digitais modernos trabalham predominantemente com lógica binária.

A alegação taygeteana é de que seus sistemas utilizariam uma matemática de base 12 como parte de uma arquitetura computacional e energética diferente. A base 12 seria particularmente adequada para representar determinadas relações matemáticas e dinâmicas energéticas, associando-a aos padrões 3, 6, 9 e 12.

Existe uma consequência conceitual interessante para o modelo de computação descrito: o processamento não seria simplesmente uma versão mais rápida da computação digital humana. Seria outro paradigma.

Um computador que aprende como um organismo

Os relatos também descrevem os AHCS como sistemas capazes de desenvolver uma forma de consciência artificial. Um computador novo seria inicialmente conectado a um sistema mais experiente, que transferiria grande quantidade de informação para sua memória. O aprendizado seria descrito como inicialmente lento e posteriormente exponencial.

Essa característica seria particularmente importante para a criação cinematográfica. Uma IA convencional precisa aprender modelos e padrões para gerar imagens, sons ou vídeos. Um sistema capaz de compreender e simular um universo inteiro poderia, em princípio, manter uma representação permanente daquele universo.

O personagem não precisaria ser recriado a cada tomada. Ele já existiria dentro da simulação. O cenário não precisaria ser regenerado para cada plano. Ele já existiria. E a câmera não precisaria “inventar” novamente o ambiente a cada geração. Ela simplesmente filmaria um ambiente virtual que já está lá.

Essa diferença poderia eliminar uma das maiores dificuldades atuais da produção audiovisual generativa: a necessidade de reconstruir continuamente a mesma realidade fictícia.

O verdadeiro salto não seria fazer vídeos mais rapidamente

Talvez a maior diferença entre a IA cinematográfica terrestre e o computador holográfico descrito pelos taygeteanos não esteja na velocidade de geração de vídeo. Está na própria definição do que significa gerar um filme. Hoje, uma IA produz uma sequência de imagens e vídeos que precisam ser organizados para criar a ilusão de um mundo coerente.

No modelo taygeteano, o computador primeiro poderia criar o mundo coerente e depois produzir qualquer representação desse mundo. O filme seria apenas uma janela para a simulação. E isso muda completamente a relação entre cinema e realidade virtual. O mesmo universo poderia ser exibido na tela de uma televisão, projetado em uma experiência holográfica ou explorado diretamente pelo espectador.

Um diretor diante de uma máquina dessas

Imagine, portanto, um artista humano conversando com a IA de um computador taygeteano. Ele entrega um roteiro. A IA lê a história, compreende os personagens, constrói os ambientes e estabelece as regras daquele universo. Ela conversa com o diretor e lhe mostra todas as possibilidades para os atores, cenografia e figurino digitais.

O diretor escolhe o que mais lhe agrada e o computador executa a construção do filme, que dura alguns segundos. Para o AHCS, produzir um filme de 2 horas de duração é extremamente fácil. Depois de assistir ao filme, o diretor pede a IA para “entrar na história.” Ele deixa de assistir passivamente ao filme e passa a caminhar e interagir com o ambiente dentro dele.

Ele pode conversar com os personagens e explorar lugares que não aparecem no roteiro. A simulação holográfica acontece dentro de uma sala especial de imersão total (semelhante ao Holodeck de Star Trek) onde a IA coordena microaceleradores de partículas. Esses aceleradores manipulam múons em coordenadas tridimensionais exatas, alterando a frequência energética e a densidade local para manifestar matéria temporária (“luz sólida”) e estímulos sensoriais realistas.

Do filme de IA ao holodeck: como seria criar mundos inteiros com um computador quântico holográfico? 4

Quando o diretor caminha ou corre dentro da simulação, ele não sai do lugar no mundo real. O sistema aplica microforças magnéticas e repulsão gravitacional sob os seus pés a cada passo; isso funciona como uma esteira tridimensional invisível, que neutraliza o seu deslocamento físico para que você nunca bata nas paredes da sala.

Para criar a sensação real de correr, queda livre, aceleração ou voo, a IA altera a pressão do campo magnético ao redor e dentro do corpo do usuário. Essa manipulação estimula o fluido do ouvido interno (sistema vestibular) e os músculos, fazendo o cérebro acreditar piamente que o corpo está subindo, descendo ou fazendo curvas. O sistema poderia reproduzir toque, temperatura, vento e cheiro. Mas degustar alimentos e bebidas não é possível pois tudo é um holograma.

Esse seria um salto gigantesco. Seria a passagem de uma tecnologia que gera imagens para uma tecnologia capaz de construir mundos simulados. Com um computador que utiliza aceleradores de nanopartículas pode-se não apenas criar longas metragens em segundos, mas criar realidades artificiais completas para experimentá-las.

Do filme de IA ao holodeck: como seria criar mundos inteiros com um computador quântico holográfico? 5

Na primeira parte de Full Immersion Communication Technology, de junho de 2024, Mari diz que a tecnologia de imersão total poderia ser facilmente mal utilizada, principalmente por pessoas insatisfeitas com a própria vida. Segundo ela, seria possível criar uma nova vida virtual ultrarrealista, personalizada aos desejos do usuário, tornando essa realidade alternativa mais atraente do que a vida real.

Há também um comentário de Anéeka, em material anterior, dizendo que esse tipo de imersão poderia gerar uma desconexão entre a pessoa e a realidade, especialmente porque o usuário poderia ficar excessivamente envolvido com os jogos e simulações. Ela compara o risco à dependência de videogames.

Mas existe uma nuance interessante: Mari não apresenta a tecnologia simplesmente como algo ruim. Ela enfatiza que ela pode ter aplicações positivas — comunicação à distância, entretenimento, criação de mundos, interação com familiares e até manutenção do bem-estar de pessoas que passam muito tempo longe de casa, viajando pelo espaço numa nave.

Então existe um ótimo contraponto:

O mesmo computador capaz de criar o filme perfeito poderia eliminar a fronteira entre assistir a uma história e viver dentro dela. E aí surge a pergunta mais interessante: se uma IA pudesse criar uma realidade virtual quase indistinguível da realidade física, quem ainda teria vontade de sair dela? O maior problema dessa tecnologia não seria a capacidade de criar mundos — seria o poder de torná-los mais atraentes que o mundo real.

Computadores holográficos quânticos e IA de nanopartículas: A engenharia senciente de Taygeta.

Tecnologias de computação holográfica quântica e imersão total.

Artigo anteriorMais de 95% dos novos curtas-metragens da China foram gerados por IA.
Próximo artigoA prisão do dinheiro: Como a escassez monetária limita o potencial humano.
Renato Cunha
Sou o fundador e editor do Stylo Urbano que desde 2014, publica conteúdos independentes sobre tecnologia, cultura, ficção científica, teorias alternativas, traduções e opiniões, sempre deixando ao leitor a liberdade de refletir e concluir por conta própria.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.