Mais de 95% dos novos curtas-metragens da China no primeiro trimestre de 2026 foram gerados por inteligência artificial, em comparação com quase zero no ano anterior. O ator chinês Xu Peng viralizou nas redes sociais chinesas após publicar uma série de vídeos em que aparece trabalhando em seu novo emprego como vendedor de verduras.
A indústria cinematográfica está entre os setores mais afetados, já que os estúdios de microdrama de baixo orçamento estão migrando para atores e cenários gerados por IA. O ator de 30 anos havia se tornado famoso nos últimos anos por seus papéis em populares microdramas chineses, mas afirma que a inteligência artificial o obrigou a abandonar a indústria.
Um levantamento publicado pelo China News em junho de 2026 relata que uma empresa chinesa de microdramas, que tinha cerca de 200 funcionários no auge, caiu para aproximadamente 100 depois de incorporar IA. A empresa passou a produzir simultaneamente dramas tradicionais e dramas com atores virtuais gerados por IA.

Outro relato, da Reuters, é ainda mais direto. Ayase, um produtor de microdramas de 22 anos, disse que seu departamento tinha 30–40 pessoas antes da transição para IA e passou a ter cerca de 10, com apenas duas pessoas permanecendo na produção live-action. Ele próprio foi demitido em fevereiro de 2026.
Enquanto empresas ao redor do mundo lutam para adotar a IA, as empresas chinesas enfrentam um desafio único: Pequim quer que as empresas adotem a IA rápido o suficiente para ganhos de produtividade, mas não tão rápido a ponto dos trabalhadores serem expulsos em números que ameaçam a estabilidade social.
Os microdramas (ou duanju) na China são microsséries audiovisuais de ritmo frenético e apelo novelesco, criadas especificamente para telas de smartphones em formato vertical. Cada episódio dura em média 1 a 2 minutos (podendo chegar a 3 minutos), e uma temporada completa costuma reunir de 20 a 100 capítulos. Os microdramas explodiram na China durante a histeria do Covid e hoje é o formato de entretenimento que mais cresce no mundo.
- Formato vertical: Produzidos em proporção otimizada para visualização com uma só mão no celular.
- Enredo intenso: Focam em melodramas exagerados, vinganças, romances com bilionários/CEOs e traições.
- Ganchos (cliffhangers): Cada capítulo termina em momento de máxima tensão para forçar o espectador a continuar assistindo.
- Monetização rápida: Aplicativos liberam os primeiros episódios de graça e cobram por microtransações nos desfechos seguintes
A IA está dominando os curtas-metragens chineses. Com a chegada dos atores virtuais, os atores reais estão perdendo seus empregos. Para onde a inteligência artificial levará a indústria cinematográfica e televisiva?
Antigamente, gravar um vídeo curto exigia encontrar atores, alugar uma locação, preparar a cenografia e figurino, montar equipamentos e fazer edição na pós-produção; agora, usuários comuns só precisam enviar algumas imagens de referência e digitar algumas falas, e ferramentas de IA conseguem gerar clipes sincronizados com os lábios em minutos.
E há um dado econômico impressionante: segundo uma reportagem chinesa sobre o setor, uma produção tradicional de microdrama costuma custar 300 mil–500 mil yuans, enquanto uma produção de IA pode cair para 80 mil–150 mil yuans. Uma empresa entrevistada afirmou conseguir produzir 24 microdramas de IA por mês.
De acordo com as “Diretrizes para a Criação de Microdramas”, divulgadas pela Associação Chinesa de Transmissão Online no final de abril, aproximadamente 128.000 microdramas foram lançados em todo o setor no primeiro trimestre de 2026, dos quais cerca de 122.000 foram gerados por inteligência artificial, representando mais de 95%.
Em contraste, dados da Administração Estatal de Rádio e Televisão mostram que 33.000 microdramas foram lançados em 2025. Em outras palavras, apenas nos três primeiros meses deste ano, o número de microdramas lançados já é quase quatro vezes maior que o de todo o ano anterior.
O envolvimento de empresas profissionais de cinema e televisão aumentou o valor comercial dos curtas-metragens com IA, utilizando tecnologia de ponta em produção cinematográfica e televisiva com IA. Os atores digitais podem simular emoções complexas, e esses artistas digitais, como propriedades intelectuais essenciais reutilizáveis e de valor agregado, continuarão a aparecer em trabalhos futuros.
Os atores vão perder seus empregos? O rápido desenvolvimento de curtas-metragens com inteligência artificial teve, sem dúvida, o impacto mais direto sobre os atores. Como a IA pode gerar personagens com boa aparência e profissionalismo, a produção totalmente automatizada, sem atores reais, filmagens em locações externas ou captura de movimento, e sem pagar atores ou se preocupar com o declínio de suas carreiras, pode deixar atores sem trabalho por causa dos custos.
Atores, especialmente figurantes e atores secundários, já estão perdendo oportunidades para personagens de IA mas atores de primeira linha também serão substituídos. A economia é um dos principais motores: uma produção de IA pode custar uma fração de uma produção com atores humanos. A China está funcionando como um laboratório real dessa transformação: o que antes exigia elenco, locação, câmera, iluminação, figurantes e uma equipe enorme começa a ser substituído por modelos generativos + uma equipe muito menor.

O crescimento das séries curtas-metragens com inteligência artificial também impulsionou uma enorme demanda por profissionais qualificados. “Em relação à aplicação de IA no cinema e na televisão, acredito que a equipe de produção precisa ser multifacetada. Não basta ser boa em gerar imagens e vídeos; também precisa ter habilidades de direção e edição”, afirmou Zhang Xi, diretor de IA da Baoxiao Pictures.
Em julho deste ano, Zhang Xi esteve em Hengdian, Jinhua, para organizar um treinamento para os técnicos de IA da empresa e formar um grupo de profissionais qualificados por meio de um programa de treinamento “mentor-aprendiz”. Portanto, é evidente que, no futuro, os “roteiristas de IA” que dominam a tecnologia de IA para criação de roteiros, geração automática de storyboards e até mesmo o aprimoramento dos diálogos dos personagens serão muito procurados pelo mercado e se tornarão talentos em alta demanda.
A maré da tecnologia inevitavelmente avançará, mas a essência da arte cinematográfica e televisiva — a compreensão da natureza humana, a expressão das emoções e a busca pela beleza — sempre precisará ser cuidadosamente protegida pelos criadores humanos. Esta talvez seja a regra mais inabalável para a sobrevivência da indústria cinematográfica e televisiva na era da inteligência artificial.
Na indústria audiovisual chinesa, a IA está se tornando cada vez mais parte do cotidiano da produção. A China será o primeiro país a assimilar a IA na produção cinematográfica em grande escala devido ao custo. Algumas das maiores empresas de entretenimento do país reconheceram publicamente os rápidos avanços que a IA está trazendo para o setor.
Gong Yu, CEO da gigante do streaming iQiyi, previu que filmes de longa-metragem gerados exclusivamente por IA poderão surgir já neste verão e que, dentro de cinco anos, mais da metade das principais obras cinematográficas e televisivas poderão ser geradas por IA, segundo entrevista concedida à publicação chinesa de negócios China Entrepreneur, publicada em maio.

O presidente da Tencent Video anunciou em abril que a empresa havia concluído uma série dramática de alta qualidade e longa duração, gerada por IA. Segundo o portal de notícias local Yicai, ele descreveu a IA como uma força na indústria audiovisual, reorganizando a cadeia de fornecimento de conteúdo ao permitir que pequenas equipes criativas produzissem trabalhos que antes exigiam grandes equipes, intensificando a competição e elevando o padrão para produções de destaque.
Naquele mesmo mês, a Administração Nacional de Cinema licenciou o primeiro longa-metragem chinês gerado por inteligência artificial para os cinemas – um filme de ficção científica de 90 minutos do Bona Film Group, classificado como animação. Mas em nenhum lugar o impacto da IA foi tão dramático quanto nos microdramas — as séries de baixo custo, filmadas na vertical, assistidas bilhões de vezes pelo público chinês.
O mercado de microdramas ultrapassou a bilheteria anual da China pela primeira vez em 2024 e a previsão é de que ultrapasse 120 bilhões de yuans (US$ 16,5 bilhões) este ano. Cerca de 128.000 microdramas foram lançados na China no primeiro trimestre de 2026 – quase quatro vezes o total do ano anterior.
Mais de 95% deles, ou cerca de 122.000 títulos, foram gerados por IA, de acordo com um relatório de abril da Associação Chinesa de Serviços de Transmissão Online. Ou seja, títulos gerados inteiramente com IA, sem câmeras ou atores reais, em vez de produções com atores reais que usam IA como ferramenta de produção.
Um ano antes, esse número era próximo de zero. Para os defensores da IA, o apelo é simples: ela promete tornar a produção de filmes e programas de TV mais rápida e muito mais barata. Utilizando IA, uma equipe de cinco a dez pessoas agora pode produzir uma série completa de microdramas em duas semanas a um mês, uma fração do tempo e da mão de obra necessários para uma produção comparável com atores reais.
Uma série de microdramas gerada por IA custa cerca de 100.000 yuans, incluindo todos os custos, e vai da aprovação do roteiro ao lançamento em menos de um mês, de acordo com Junjun, produtor de uma empresa sediada em Pequim que mudou seu foco de produções com atores reais para a produção exclusiva de microdramas gerados por IA.
Em comparação, uma série tradicional de microdrama com atores reais e figurinos de época custa pelo menos de 300.000 a 500.000 yuans e leva de dois a três meses para ser produzida, de acordo com notícias da imprensa chinesa. Para o diretor Wang Ze, a IA mudou o que era possível.
Selecionado para uma mostra de filmes com IA no SIFF (Festival Internacional de Cinema de Xangai), ele criou um curta-metragem de animação de sete minutos em cerca de 10 dias — um projeto que teria exigido um cronograma de produção muito mais longo e uma equipe que ele não teria se fosse feito da maneira convencional.
“No passado, para fazer uma obra, era preciso investimento e mão de obra. Agora posso usar ferramentas de IA e fazer o filme que quero sozinho.” Mas Wang também ressaltou que o nível de exigência para o criador que usa IA aumentou, descrevendo um diretor que agora também precisa ter domínio de cinematografia, storyboard, iluminação e direção de arte.
Para muitos cineastas, o principal atrativo da IA é o acesso pois reduz as barreiras de entrada na indústria cinematográfica. Pessoas que não sabem desenhar, mas têm boas ideias, podem criar imagens através dos softwares de IA.
O CUSTO
No entanto, a eficiência prometida pela IA tem um preço. À medida que as produções exigem menos pessoas, editores, figurantes e outros membros da equipe cujo trabalho pode ser automatizado estão entre os primeiros a sentir o impacto. Veículos de imprensa chineses documentaram a crise, que atribuem à IA exacerbando um mercado já saturado.
Uma pesquisa da Ebrun, plataforma de comércio eletrônico, revelou que mais de 60% das equipes de produção de filmes de ficção científica e dramas curtos interromperam silenciosamente as atividades após o Festival da Primavera, concluindo que a IA “não foi a causa direta, mas a gota d’água”, somada à superabundância de títulos e ao fim dos subsídios para plataformas digitais.
O jornal financeiro 21st Century Business Herald noticiou a redução pela metade dos cachês de atores de nível intermediário e a perda massiva de empregos em funções de bastidores — iluminação, figurino, fotografia. A crise dos atores chineses tem três causas acontecendo simultaneamente: a retração econômica e dos investimentos, a redução da produção audiovisual e a substituição de parte do trabalho humano por produção gerada por IA.
Vários pessoas ficaram sem trabalho e passaram a fazer outras coisas — entrega de comida, venda de verduras, barracas de comida, lojas e transmissões ao vivo. Há também o caso de atores que antes passavam de uma produção para outra sem intervalo e que agora passam meses sem conseguir uma nova oportunidade.
No primeiro trimestre de 2026, 95% dos novos “microdramas” foram produzidos com IA e apenas 5% tiveram atores reais. A produção totalmente gerada por IA pode ser feita por menos de 100 mil yuans, justamente porque elimina ou reduz locações, atores, iluminação, figurino, maquiagem e equipes numerosas.
A IA não precisa substituir um grande astro primeiro. Ela pode começar pelos trabalhos de menor remuneração e maior volume. Atores de nível médio e figurantes estão sendo atingidos com muita força, com diárias chegando a menos de 100 yuans em Hengdian, o polo de produção cinematográfica da China.
200.000 atores choram enquanto a IA arrasa a indústria do entretenimento da China; até veteranos com 20 anos de carreira perdem o emprego.
Conforme os atores de IA ficarem indistinguíveis das humanas, todos os atores humanos deixariam de ser necessários. Nesse cenário, a mudança atingiria não apenas atores, mas também agências, equipes de casting, marketing e até os negócios das cidades que dependem das filmagens.
O fenômeno apresentado é estrutural: IA + produção mais barata + menor investimento + menor consumo podem reduzir drasticamente a quantidade de trabalho humano necessário para produzir entretenimento. Os primeiros trabalhos a sentirem o impacto da IA foram os figurantes, iluminação básica, equipe de produção barata e operadores de edição. Em contrapartida, as funções criativas se tornaram mais valorizadas, com diretores, roteiristas e outros cargos que exigem discernimento artístico.
Quando uma tecnologia consegue produzir não apenas a imagem de uma pessoa, mas uma “atuação” completa — rosto, voz, movimento, expressão e diálogo — o problema deixa de ser simplesmente automação de uma tarefa. A própria identidade humana pode virar um ativo digital. A IA não tem vida, não tem alegria, raiva ou tristeza, e todas as suas emoções são imitações de dados.
O custo continua sendo outro obstáculo, apesar da reputação da IA de reduzir os custos de produção. Aprimorar as imagens geradas por IA a ponto das emendas não serem visíveis pode significar “dobrar o poder computacional”, que é a quantidade de poder de processamento necessário. Os requisitos extras de computação aumentam os custos, o que significa que um trabalho com qualidade suficiente para padrões profissionais não é tão barato quanto todos presumem.
A China está demonstrando que a IA já consegue substituir uma enorme quantidade de trabalho na produção audiovisual. A próxima etapa é descobrir até onde essa mesma tecnologia consegue chegar em qualidade cinematográfica. O microdrama chinês demonstra a industrialização barata e em escala, já os filmes de curta e longa duração da empresa de IA Higgsfield demonstra até onde a IA chega em qualidade cinematográfica.
Uma IA avançada pode imitar perfeitamente as emoções e movimentos humanos na tela. Adiliada é um curta de ficção científica da Higgsfield, criado 100% com IA. Ele foi produzido pelo software Cinema Studio 4 da empresa.
Do gerador de vídeos ao estúdio de cinema: a IA começa a simplificar a produção de filmes.
Simone: o futuro do cinema foi imaginado há mais de 20 anos.
O longa-metragem “Odysseus: The Fall”, totalmente gerado por IA, é o futuro do cinema.






































