Em 2002, quando a inteligência artificial generativa ainda estava muito longe de fazer parte do cotidiano, um filme de Hollywood apresentou uma ideia que parecia pertencer a um futuro distante: uma atriz que não existia. O filme era Simone, dirigido por Andrew Niccol e estrelado por Al Pacino.
E, olhando para o que está acontecendo agora com a inteligência artificial, é impressionante perceber o quanto aquela história antecipou algumas das discussões que começam a chegar ao cinema real. Na história, Al Pacino interpreta Viktor Taransky, um diretor de cinema em crise. Sua principal atriz abandona a produção e coloca o filme inteiro em risco.
É então que Taransky recebe de um antigo conhecido um programa de computador chamado Simulation One. O programa permite criar uma mulher digital. Taransky percebe que pode usar aquela tecnologia para terminar seu filme. Ele cria a personagem, dá a ela o nome de Simone, e começa a apresentá-la ao mundo como se fosse uma atriz de verdade.
O nome S1m0ne, inclusive, vem de “Simulation One”. O filme não era apenas uma história sobre uma atriz digital, pois já fazia, em 2002, uma reflexão sobre a substituição do real pelo digital no próprio cinema.

E é aí que o filme fica especialmente interessante. Taransky não cria simplesmente uma imagem digital. Ele vai além, cria uma estrela de cinema. Simone tem rosto, corpo, voz, personalidade, comportamento e uma identidade pública. Ela aparece nos filmes, dá entrevistas, participa de eventos e conquista milhões de fãs. O público acredita que ela é uma pessoa real.
O Simulation One é um código de programação capaz de gerar a protagonista perfeita, uma atriz virtual obediente ao diretor e sem os problemas de estrelismo e rebeldia dos atores reais. Simone foi criada a partir de uma combinação digital de características associadas a grandes atrizes — voz de Jane Fonda, corpo de Sophia Loren, graça de Grace Kelly, rosto de Audrey Hepburn e olhar de Lauren Bacall.
“Uma estrela digitalizada! Sabe o que isso significa? Vamos entrar em uma nova dimensão: nossa capacidade de criar uma fraude ultrapassou nossa capacidade de detectá-la”. Depois de escrever o roteiro de “Show de Truman” Andrew Niccol escreveu, dirigiu e produziu “S1m0ne” (2002) para aprofundar ainda mais a questão lançada no filme anterior.
Se em “Show de Truman” tínhamos um mundo falso criado para aprisionar uma pessoa, em “S1m0ne” Niccol fez o inverso: a criação de uma pessoa falsa para enganar e seduzir todo o mundo. No filme, não desaparece apenas a necessidade de uma atriz real: a própria cenografia, os sets e até o estúdio podem, em algum momento, ser substituídos por imagens digitais.
S1m0ne imaginava um cinema no qual o ator, a cenografia e o próprio suporte poderiam deixar de ser reais e virar informação digital.
Quando precisa mostrar Simone em público, Taransky inventa situações para justificar sua ausência física. Em determinado momento, ele chega a utilizar manequins e truques e uma apresentação holográfica para fazer Simone aparecer diante de uma multidão.
Em outras palavras, Simone imaginou uma coisa muito próxima do conceito que hoje começamos a chamar de atriz virtual ou atriz criada por inteligência artificial. Só havia um problema: em 2002, praticamente não existia a tecnologia de IA necessária para fazer isso de maneira simples.
O filme precisava representar aquela tecnologia usando os recursos disponíveis na época. A própria produção utilizou técnicas de composição, chroma key, imagens pré-existentes e efeitos digitais para criar a ilusão de que Simone realmente existia.
E existe uma curiosidade ainda mais interessante: apesar de Simone ser apresentada dentro da história como uma personagem totalmente criada por computador, a produção utilizou a atriz Rachel Roberts para interpretar fisicamente as cenas de Simone que aparecem no filme, posteriormente integrando esse material ao conceito da personagem virtual.
Ou seja, a tecnologia ainda precisava de uma pessoa real por trás da personagem. Mais de duas décadas depois, o cenário começa a mudar.
A ficção começa a encontrar a realidade
Hoje já existem ferramentas capazes de gerar imagens e vídeos altamente realistas, criar personagens consistentes em diferentes cenas, sintetizar vozes e produzir movimentos e expressões a partir de comandos. O que em Simone exigia uma produção cinematográfica inteira para criar a ilusão de uma atriz virtual pode agora ser realizado com ferramentas de inteligência artificial que estão disponíveis para produtores independentes e pequenas equipes.
E um dos exemplos mais interessantes desse novo momento é Tilly Norwood. Criada pela produtora Eline Van der Velden e pela Particle6, Tilly é apresentada oficialmente como uma atriz criada por inteligência artificial. Diferentemente de uma simples imagem ou de uma modelo virtual utilizada em uma campanha, a proposta é desenvolver uma personagem recorrente, com identidade própria, aparência consistente, voz e presença audiovisual.
A XICOIA é a empresa por trás da Tilly Norwood. Ela se apresenta como um “AI talent studio”: cria, desenvolve e administra personagens digitais como talentos de longo prazo para cinema, TV, publicidade, games e experiências virtuais. Eles não estão simplesmente oferecendo um gerador de avatar; a proposta é tratar cada personagem como uma carreira, com personalidade, história, voz, identidade visual e continuidade.
A XICOIA diz que já está desenvolvendo múltiplos talentos digitais, além da Tilly, em diferentes gêneros, faixas etárias e estéticas. Ou seja, a ideia de construir um catálogo de atores virtuais já está sendo perseguida comercialmente.

A diferença é fundamental. Uma modelo virtual pode simplesmente aparecer em uma fotografia. Uma atriz virtual precisa fazer muito mais. Ela precisa interpretar. Precisa falar, simular emoções, reagir a outros personagens, movimentar-se, participar de diferentes cenas e manter a mesma identidade ao longo de uma produção.
É justamente aí que a evolução da inteligência artificial começa a ficar particularmente interessante para o cinema. Segundo informações sobre o desenvolvimento de Tilly Norwood, a equipe trabalhou durante meses para conseguir manter a aparência da personagem consistente em diferentes imagens, ângulos de câmera e situações.
Foram utilizadas diversas ferramentas de geração e aprimoramento de imagem e vídeo, além de tecnologias para desenvolver sua voz e transformar a personagem em uma figura capaz de falar e se movimentar. Isso é muito próximo do problema que Simone imaginava resolver há mais de 20 anos.
De uma atriz virtual para um elenco virtual
Em filmes de grande orçamento (blockbusters) em Hollywood, os salários combinados de todo o elenco de atores e figurantes representar uma parcela muito significativa do orçamento de um filme. Em superproduções tradicionais de US$ 200 milhões, o pagamento dos atores principais (os chamados astros da “Lista A”) consome cerca de 9% a 15% desse valor (entre US$ 18 e US$ 30 milhões), enquanto o restante é distribuído entre atores coadjuvantes, figurantes e dublês.
Quando o sucesso comercial depende do nome dos atores (como grandes filmes de ação originais), o custo do elenco pode explodir o orçamento total. Atores de alto escalão frequentemente aceitam salários iniciais menores em troca de uma porcentagem da receita bruta ou líquida da bilheteria.
Esses bônus de bilheteria e direitos residuais não entram na contabilidade do orçamento de produção oficial do filme. Eles são deduzidos diretamente da arrecadação total conforme as metas de vendas são batidas. Logo, o impacto financeiro real do ator sobre o lucro do estúdio costuma ser muito maior do que a porcentagem registrada no orçamento inicial
É aqui que a ideia fica ainda maior. Imagine um estúdio que não precise contratar um elenco tradicional para cada produção. Em vez disso, o estúdio poderia possuir ou licenciar um catálogo de personagens digitais.
- Uma atriz ou um ator virtual.
- Personagens infantis.
- Personagens de ação.
- Personagens de comédia.
- Personagens de fantasia.
Cada um com aparência, voz, personalidade e características próprias. O diretor poderia escolher os personagens para determinada história e, com ferramentas de IA, colocá-los em diferentes ambientes, figurinos e situações. Isso não significa que o cinema deixaria de precisar de pessoas. Muito pelo contrário.
Roteiristas, diretores, designers, artistas, editores, produtores e outros profissionais continuariam sendo fundamentais. A grande mudança estaria na maneira como essas pessoas poderiam produzir o filme. A inteligência artificial passaria a funcionar como uma espécie de infraestrutura de produção.
Agências de atores virtuais
XICOIA — a mais próxima de Hollywood
Ela oferece os próprios personagens para participações em filmes e TV e também diz que trabalha com marcas para criar novos personagens sob encomenda. Segundo o site, parcerias com os talentos existentes começam em US$ 25 mil.
Virtual Talent — uma agência de talentos virtuais
Essa é ainda mais literal: se apresenta como uma agência para virtual influencers, virtual actors e virtual artists. Tem um roster de personagens e oferece representação, negociação, contratos, licenciamento e produção.
Abbild — casting de atores digitais licenciados
Essa faz o caminho inverso da XICOIA. Em vez de criar apenas personagens próprios, a Abbild oferece clones digitais licenciados de artistas reais e atores virtuais, com consentimento e contrato de licença diretamente com o artista. Portanto, é muito mais próxima de uma agência de casting para produções de IA.
Castly — marketplace de atores de IA
Essa está montando praticamente um “mercado de atores virtuais”. O produtor escolhe um personagem, faz teste com cenas de diálogo e licencia o personagem para usar em ferramentas como Runway, Kling, Midjourney etc. Os preços anunciados vão de US$ 25 a US$ 2.499 por licença, dependendo do nível do personagem.
E há ainda a TalesBox, que está construindo um marketplace de “AI actors” para filmes e séries, com personagens disponíveis para contratação.
Alguém pensa: “Eu tenho um filme. Em vez de criar um personagem novo para cada produção, eu escolho uma atriz virtual já existente, contrato os direitos dela e uso essa mesma atriz em diferentes filmes.” Pois bem: isso já está começando a existir como modelo comercial.
E a XICOIA está indo ainda mais longe: não está apenas vendendo uma imagem. A empresa fala explicitamente em personagens com “character bible”, personalidade, história, voz, direção de performance e propriedade intelectual própria. Isso é praticamente o conceito que Simone, de 2002, imaginava. A diferença é que agora podemos ter uma infraestrutura comercial para fazer aquilo. Isso transformaria os personagens em ativos da própria produtora, em vez de simples imagens geradas por IA.
O Soul Cast é um dos recursos mais recentes do Higgsfield que resolve o problema de elenco inadequado em vídeos de IA. Agora, pode-se criar atores de IA totalmente personalizáveis e consistentes em todas as gerações.
É possível definir:
- Gênero;
- Orçamento para o ator de IA;
- Era;
- Arquétipo;
- Identidade;
- Aparência física (altura, cor dos olhos, cabelo, pelos faciais, etc.);
- Detalhes;
- Até mesmo uma roupa!
O mais importante é que o Soul Cast resolve o principal problema dos personagens gerados por IA: a aparência “artificial”. Ele também gera automaticamente uma personalidade e uma história de fundo para o personagem. Os atores de IA do Soul Cast se destacam nas texturas de pele e nas emoções, sem aquela aparência “cerosa”, além de seguirem o estilo da época escolhida para o personagem.
A empresa afirma que o mesmo rosto e identidade podem ser mantidos em diferentes cenas, ângulos, iluminação e ambientes. O Cinema Studio 3.5 coloca o personagem antes mesmo da primeira geração de vídeo: você escolhe o ator e a localização, cria o keyframe, controla câmera, composição e iluminação e só então gera o vídeo.
A plataforma foi explicitamente concebida para narrativas com personagens recorrentes. A Higgsfield agora também tem o Soul ID, mas ele é outra coisa.
- Soul Cast = personagem fictício criado do zero.
- Soul ID = identidade de uma pessoa real, treinada a partir de fotos.

A Central Casting é a maior e mais famosa empresa americana de seleção de elenco especializada na contratação de figurantes, dublês de corpo e substitutos para filmes, programas de televisão e comerciais. Fundada em Los Angeles em 1925, ela atua como uma agência central de recrutamento para o mercado audiovisual dos Estados Unidos.
Diferente de agências tradicionais que buscam atores principais com falas, o foco principal da Central Casting é preencher cenas de multidão e o plano de fundo de produções de Hollywood. Os figurantes tem perfis específicos de acordo com as demandas de cada roteiro (como idade, etnia, estilo ou habilidades especiais).
Várias empresas de tecnologia desenvolvem softwares e ferramentas capazes de gerar pessoas virtuais e avatares hiper-realistas usando inteligência artificial e computação gráfica. Exemplos de plataformas conhecidas incluem o HeyGen para vídeos corporativos e de marketing e a tecnologia MetaHuman da Epic Games voltada para criação de humanos digitais em 3D.
Com HeyGen, você pode criar uma pessoa virtual realista com IA que fala de forma natural, transmite mensagens consistentes e se adapta a diferentes vídeos, idiomas e casos de uso. Hoje é possível criar uma “Central Casting digital” que mantém um catálogo de centenas ou milhares de atores, figurantes e personagens virtuais licenciáveis, cada um com aparência, idade, voz, personalidade, figurino-base e características de atuação próprias, para compor o elenco de filmes de IA.
Para figurantes, isso já é relativamente fácil de imaginar. Para atores principais, a coisa é muito mais sofisticada. Um ator virtual realmente útil para cinema precisaria ter: rosto consistente + corpo consistente + voz + expressão + movimento + personalidade + capacidade de interpretar + memória visual + direitos de utilização.
É aí que a ideia deixa de ser simplesmente “um banco de avatares” e começa a virar uma agência de talentos digitais. E isso se conecta diretamente ao que encontramos na XICOIA, Soul Cast e outras empresas. O Soul Cast, por exemplo, já permite criar personagens digitais persistentes que funcionam como ativos reutilizáveis. E empresas como a XICOIA tratam esses personagens como talentos, não simplesmente como imagens.
Uma agência de casting digital poderia ter dois departamentos:
Virtual Background Casting — milhares de figurantes digitais, soldados, passageiros, pessoas de rua etc.
Virtual Talent — atores e atrizes digitais com identidade, voz, personalidade e capacidade de protagonizar filmes.
E existe uma consequência econômica enorme: o mesmo personagem poderia participar de dezenas de filmes, desde que os direitos de uso fossem licenciados corretamente. Isso é praticamente a transformação do elenco cinematográfico em propriedade digital reutilizável.
O que mudou desde Simone
Em 2002, Viktor Taransky precisava esconder que Simone não existia. Hoje, uma personagem digital pode simplesmente existir como personagem digital. Essa diferença parece pequena, mas muda tudo. No universo de Simone, o grande truque era convencer o público de que aquela mulher virtual era uma pessoa real. No cinema criado com IA, não é necessário esconder isso. Uma nova geração de filmes poderá simplesmente dizer:
“Este personagem não é humano. Ele é um personagem digital.”
E o público poderá aceitá-lo da mesma maneira que aceita personagens de animação, histórias em quadrinhos ou criaturas fantásticas. Isso abre uma possibilidade enorme. Porque nem todo filme precisa ser fotorrealista. Uma produção pode adotar uma estética de animação, HQ, ilustração, anime ou 3D estilizado.
Nesse tipo de linguagem, a inteligência artificial não precisa convencer o espectador de que está vendo uma pessoa real. Ela precisa apenas criar um personagem visualmente consistente e artisticamente convincente. E isso pode reduzir significativamente a complexidade e o custo da produção.
O futuro que Simone anunciou
Talvez essa seja a parte mais curiosa de toda essa história. Quando Simone chegou aos cinemas, a ideia de uma atriz virtual parecia ficção científica. 24 anos depois, uma personagem como Tilly Norwood já existe, possui identidade própria, presença nas redes sociais e está sendo desenvolvida para participar de uma produção cinematográfica.
Em julho de 2026, foi anunciado que Tilly será a protagonista de Misaligned, um longa-metragem ambientado no chamado “Tillyverse”. É claro que ainda estamos muito longe de saber até onde esse modelo vai chegar. Também existem questões importantes envolvendo direitos autorais, consentimento, uso do trabalho de atores reais e o próprio significado da palavra “atriz”.
A chegada de Tilly provocou justamente esse debate em Hollywood, inclusive com críticas do sindicato dos atores SAG-AFTRA. Mas, independentemente da discussão, uma coisa é difícil de ignorar:
A ideia que Andrew Niccol colocou em Simone há mais de duas décadas deixou de ser apenas ficção.
Naquele filme, um diretor imaginava criar uma estrela que não existia. Hoje, a tecnologia já permite criar personagens digitais com aparência, voz, movimento e identidade visual próprias. E o próximo passo pode ser ainda maior: não apenas uma atriz virtual, mas elencos inteiros de personagens digitais, trabalhando em filmes produzidos por equipes cada vez menores.
O que parecia ser o futuro do cinema em 2002 começa, agora, a se transformar em uma possibilidade real. Talvez Simone não tenha previsto exatamente como a tecnologia chegaria. Mas acertou uma coisa essencial:
O futuro do cinema terá atores que não nasceram — foram criados.
O longa-metragem “Odysseus: The Fall”, totalmente gerado por IA, é o futuro do cinema.














































